Público - 23 Out 06
O Célebre Relatório Kissinger e a Política
Internacional Maltusiana
Mário Pinto
1.No meu último artigo,
interroguei-me acerca das razões pelas quais um
crime tão repugnante como o aborto, condenado pela
consciência da nossa cultura civilizacional desde há
dois milénios, sem discordâncias a não ser por parte
das grandes ideologias totalitárias do século XX
(nazismo e comunismo), se tornou, de repente, e sem
novas razões doutrinais nem científicas, como algo
de, não apenas lícito, mas até pretendidamente
direito fundamental da mulher (só da mulher),
decorrente da propriedade do seu corpo.
2. E cheguei à conclusão de que haveria, sem dúvida,
uma explicação na mudança de cultura e das
mentalidades. Mas, visto que as mudanças culturais,
mesmo no nosso tempo acelerado, são mais lentas do
que tem sido a reviravolta (ou revolução) do aborto,
procurei o concurso de algum factor catalisador. E
achei que esse factor foi e é a política maltusiana
do ocidente próspero e egoísta, relançada pelo
célebre relatório Kissinger. Esta tese, que não é
original, encontra confirmação em factos
significativos indesmentíveis e nas próprias
intenções da política internacional dos últimos
anos.
3. Sobre a «política de cultura» incidente na
mudança de mentalidade, ficará para outra ocasião.
Aliás, vai decorrer na Fundação Gulbenkian, de 25 a
27 deste mês, inserido nas comemorações do seu 50ª
aniversário, um Colóquio como talvez só a Gulbenkian
nos pudesse proporcionar, cujo tema geral é: "Que
valores para este tempo?". Na apresentação deste
colóquio, um claro texto do saudoso Fernando Gil,
datado de 14 de Dezembro passado, diz-nos que (e
cito do programa da Conferência) "parece oportuno
interrogar-nos sobre o que se pode chamar, sem
exagero, uma crise geral do sentido. Ela acha-se
declarada nas várias declinações da temática do
"fim", (...) do fim do sujeito (ou até do homem), da
verdade (não só da "metafísica" mas das próprias
ciências), da história ou da beleza. É significativo
que estes termos recubram os sistemas de valores
sobre os quais o Ocidente se construiu, a partir da
herança grega e cristã. Platão designou-os por
Verdadeiro, Belo e Bem..." (fim de citação).
4. Hoje, trago aqui algumas notas sobre a influente
política internacional maltusiana que, desde há uns
anos, se desdobra num largo leque de poderosas
actuações e financiamentos com vista a limitar a
natalidade e a população. É esta política que,
procurando cumplicidades, organizadamente fornece
estratégias e financiamentos que são evidentes em
movimentos e grupos ideológicos activos nos vários
países e em instâncias supranacionais.
5. Nos últimos anos da Administração Nixon,
primeiros anos setenta, foi elaborado um estudo do
Departamento de Estado que identificou o crescimento
da população mundial como "um assunto da máxima
importância» para os EE.UU", porque esse crescimento
nos países em vias de desenvolvimento punha em
perigo designadamente o acesso aos minerais e a
outras matérias primas indispensáveis, constituindo
uma ameaça à segurança económica e política. Qual
era a solução? O controlo da população. Esse estudo
deu origem a um célebre memorando de Kissinger, e
este, por sua vez, a um memorando executivo da
Administração americana que lançou a política
internacional na corrida ao controlo da natalidade e
da população. Assim, a bomba K (política Kissinger)
opunha-se à bomba P (aumento da população mundial).
Estes documentos estiveram reservados durante vários
anos, mas podem agora consultar-se livremente.
6. Muitas das afirmações do referido estudo são
verdadeiras prédicas maltusianas. Prevê-se, por
exemplo, que as necessidades das populações dos
países do terceiro mundo relativamente aos recursos
naturais mundiais "causarão graves problemas que
poderiam afectar os EE. UU. Por causa da necessidade
de aumentar o apoio financeiro aos países em vias de
desenvolvimento...", em relação com tratados
comerciais com preços mais elevados para as suas
exportações. Em certa altura, o documento faz
referência ao custo do financiamento do
desenvolvimento económico e calcula que seria muito
mais "efectivo" usar esse financiamento para fins de
controlo populacional.
7. O estudo sugere que se tente
converter as populações dos países em protagonistas
dos planos de acção, assegurando-lhes o acesso às
tecnologias da contracepção. E assinala que
"conflitos que à primeira vista são políticos, na
realidade têm raízes demográficas"; e que "as acções
revolucionárias e os golpes contra-revolucionários
terminam por expropriar os interesses estrangeiros
(...) e não são bons nem para esses interesses nem
para os países onde ocorrem".
Esta doutrina não foi inédita; foi sim um
relançamento, mas desta vez com decisiva eficácia,
da velha ideologia da segurança demográfica.
8. Direi que, de um ponto de
vista de ética pessoal e social, penso que nada
haveria a criticar se apenas se tratasse de apoiar
uma respeitosa educação, e os meios que permitissem
aos casais uma paternidade responsável. Porém, a
política de restrição mundial da população
pretendida pelo documento não se determina pelo
desenvolvimento da responsabilidade pessoal e
familiar; pretende sim, por razões de Estado,
modificar os padrões sexuais e reprodutivos das
pessoas e casais, diminuir o número de famílias,
reduzir a dimensão das famílias, multiplicar o uso
dos meios anticonceptivos e abortivos, dificultar a
criação de filhos, aumentar a ocupação profissional
das mulheres, em suma desligar a sexualidade da
família e da procriação.
9. Esta política tem consciência de que rompe com as
estruturas morais e éticas e não hesita em defender
a ruptura das concepções de valores tradicionais.
Não porque tenha uma concepção filosófica nova; mas
porque só pretende, e a todo o custo, efeitos
demográficos. E como a procriação tem que ver com os
mecanismos da vida, essa política interesseira entra
pelas questões das manipulações genéticas, sob um
pretexto de "saúde reprodutiva".
10. A política maltusiana tem um aliado natural: a
mentalidade irracionalista do hedonismo e do
consumismo grosseiros. É como faca quente em
manteiga. Para uma pretensa justificação, bastam
slogans primitivos, com base em ideias primárias
como a propriedade do corpo, um igualitarismo
demagógico abstracto, o direito ao prazer sexual sem
restrições, uma compaixão amoral das mulheres que
abortam, uma comparação parola com os países ditos
mais adiantados que já liberalizaram o aborto, etc.
11. Se algum dos meus leitores
pensar que estou a ser injusto com as suas bem
intencionadas concepções pessoais, dir-lhe-ei que
não pretendo ofender nenhuma concepção séria,
filosófica ou ética, em matéria de sexualidade ou
procriação. Pelo contrário, estou disposto a
dialogar respeitosamente com todas. Coisa diferente
é a propaganda simplista e repetitiva com que todos
os dias nos bombardeiam nos média. O que é
necessário é levantar a suspeita das intenções das
políticas de controlo internacional da natalidade e
da população, que, por razões geoestratégicas
egoístas, manipulam as opiniões e as mudanças
legislativas. As tais que nos querem apresentar como
exemplo de avanço e de progresso - atrasadinhos que
nós somos...
Professor Universitário