Público - 25 Out 06
ideia em estudo
Taxa do lixo poderá ser indexada à factura da
electricidade
Ricardo Garcia e Ana Fragoso
Proposta está no novo plano do Governo para os
resíduos sólidos, documento que a Associação
Nacional de Municípios diz "rejeitar liminarmente"
O Ministério do Ambiente está a estudar a hipótese
de a taxa de resíduos sólidos, hoje cobrada por
muitos municípios, passar a estar ligada à factura
da electricidade. Os cidadãos pagariam assim o
tratamento do lixo de acordo com o seu consumo
eléctrico.
Esta ideia consta do segundo Plano Estratégico de
Resíduos Sólidos Urbanos (PERSU II), que prevê
investimentos de 1300 milhões de euros até 2013.
A proposta do PERSU II ainda é um documento
preliminar, que está em consulta restrita junto de
várias entidades. Mas mereceu já a rejeição liminar
da Associação Nacional de Municípios Portugueses (ANMP).
Em vários concelhos, os cidadãos já pagam
actualmente uma taxa do lixo juntamente com a
factura da água. O valor varia conforme o consumo de
água. Mas estudos em curso sugerem que a produção de
resíduos em casa tem uma relação mais evidente com o
consumo de electricidade.
São as autarquias que definem as tarifas a cobrar
aos munícipes. O PERSU II diz, porém, que de uma
forma geral os valores estão "desadaptados das reais
necessidades, não suportando os custos reais
associados à gestão dos resíduos sólidos urbanos".
Uma das soluções abordadas no PERSU II seria um
sistema de pagamento conforme a quantidade de lixo
depositada por cada cidadão. Mas no curto prazo,
admite o documento, isto seria inviável. O plano
sugere por isso que "deverão ser seriamente
equacionadas" soluções tarifárias mais realistas,
"como será porventura o caso do modelo de cobrança
(...) através do tarifário eléctrico".
O presidente da ANMP, Fernando Ruas, criticou ontem
o PERSU II, dizendo que, no que toca à factura para
os cidadãos, "pode implicar aumentos na ordem dos
500 por cento nalguns municípios". Por isso, disse
Ruas, "é bem pior do que aquilo que se está a passar
com a energia".
A ANMP vai "rejeitar liminarmente" o documento,
através de uma posição que será transmitida hoje ao
ministro do Ambiente, Nunes Correia, na Covilhã.
"Vamos aproveitar a presença do senhor ministro num
evento sobre a revisão dos planos directores
municipais para lhe transmitir a nossa decisão e
para solicitar uma audiência para discutir esta
matéria", afirmou Ruas.
O Ministério do Ambiente nega por sua vez que o
PERSU II implique aumentos de 500 por cento nas
tarifas. Numa nota à comunicação social, o
ministério diz que o projecto do PERSU II "não fixa
nem define tarifários". "Não faz, pois, qualquer
sentido falar em aumentos planeados para as tarifas
da recolha dos resíduos sólidos urbanos", acrescenta
o ministério.
De acordo com a versão preliminar do PERSU II, serão
necessários investimentos avultados para tratar
adequadamente do lixo dos portugueses, de acordo com
as exigências das leis europeias. O valor total
estimado é de 1,312 milhões de euros. As maiores
fatias são para instalações de tratamento mecânico e
biológico de lixos em bruto, para estações de
valorização orgânica e também para aterros a
ampliar, construir ou encerrar.