Público - 27 Out 06
Motins foram há um ano
Autocarros incendiados nos subúrbios de Paris
Ana Navarro Pedro, Paris
Edis, polícias e educadores previnem que a raiz dos
problemas continua a existir e não excluem novas
explosões
Bagnolet, nos subúrbios Leste de Paris, 01h00, na
noite de quarta para quinta-feira. Uns dez
indivíduos armados entram no autocarro da linha 122
e obrigam o condutor e os passageiros a sair. Um
deles guia o autocarro até à paragem seguinte e aí
deita-lhe fogo. Quase à mesma hora, mas em Nanterre,
no extremo oposto da região parisiense, outro
autocarro é incendiado por adolescentes. Os
passageiros e o condutor mal tiveram tempo para
fugir do braseiro. Incidentes graves entre jovens e
a polícia foram assinalados ainda em Grigny.
O primeiro-ministro, Dominique de Villepin,
descreveu a violência como "inaceitável" e
prometeu"sanções imediatas e exemplares" contra os
autores.
Nas últimas semanas, registava-se um acréscimo de
violência entre jovens dos subúrbios de Paris e a
polícia, nomeadamente com o espancamento severo de
agentes por bandos de 10 a 30 indivíduos. Mas a
situação agravou-se desde domingo, quando um
primeiro autocarro foi incendiado, em Grigny.
Um ano depois dos motins urbanos mais graves jamais
registados em França, os problemas que levaram a
esta explosão de violência não estão resolvidos. Na
altura, a "fagulha" foi a morte de dois
adolescentes, electrocutados, quando se escondiam
num transformador para fugirem à polícia.
Seguiram-se três semanas de confrontos nocturnos
entre bandos de jovens e a polícia, primeiro na
região parisiense e depois no resto do país. Houve
milhares de carros incendiados, centenas de prédios
danificados ou destruídos e foram presos mais de
quatro mil jovens.
Ora, segundo os serviços de informação (Renseignements
Généraux, polícia política), a situação nos
subúrbios permanece muito tensa: "A maior parte das
condições que conduziram há um ano ao
desencadeamento da violência colectiva numa grande
parte do território continuam a existir hoje". Edis,
associações e sindicatos de polícia concordam.
Mas houve uma profunda introspecção nacional sobre o
fenómeno de exclusão social nos subúrbios, já antigo
e muito complexo e que implica uma grande
percentagem de populações de origem estrangeira,
deixadas ao Deus-dará. Em consequência, houve um
plano de batalha do Governo para diminuir a
acumulação de dificuldades nos bairros
desfavorecidos.
100 milhões de euros
O Plano para a Igualdade das Oportunidades, adoptado
em Dezembro, traduziu-se concretamente por um
envelope de 100 milhões de euros adicionais para os
subúrbios. Cerca de 46 mil jovens dos bairros mais
esquecidos foram orientados para um emprego ou
formações profissionais. Alunos dos liceus mais
ambiciosos e capazes têm agora programas
específicos. A reabilitação urbana destas zonas foi
acelerada. E em 2007, o Estado vai desbloquear 3700
milhões de euros para políticas orientadas
exclusivamente para os subúrbios. Mas todos estes
esforços financeiros, políticos e humanos,
disseminados em 770 zonas urbanas desfavorecidas,
não alteraram a situação localmente.
"As coisas não podem mudar só num ano", explica
Jean-Christophe Lagarde, presidente da Câmara de
Drancy, uma cidade "quente" dos subúrbios de Paris.
Este autarca do partido UDF (centrista) acrescenta:
"A oposição de esquerda diz que é preciso mais
dinheiro nos subúrbios; a maioria de direita diz que
só lá há vadios. Ora, isto é um problema de
urbanismo, de mistura social e de ensino." Esta
opinião é partilhada por uma grande maioria dos
edis, seja qual for a cor política.
"Estamos sentados num barril de pólvora", previne o
socialista Manuel Vals, presidente da Câmara de Evry,
também nos arredores da capital: "Não se erradicam
em 12 meses 30 anos de segregação social e
territoria."
"Nestes sítios em que se dissemina a fúria em vez de
diplomas, há 40 anos de insucesso para recuperar",
afirma por seu turno o actual ministro (de direita)
para a Coesão Social, Jean-Louis Borloo.