Público -
03 Out
08
Apetece fugir de Portugal, o problema é para onde
José Manuel Fernandes
Face a uma maioria que usa e abusa do poder que tem,
a oposição não perde uma ocasião para criar má
impressão. E não se vê forma de sair deste filme
macabro, em que somos tratados como acéfalos
figurantes
Estranha-se que o país ande deprimido. Ou então
atribui-se a depressão à crise económica. É
cegueira: andamos deprimidos porque não temos
motivos para andar entusiasmados. Nem sequer com a
selecção, que perde, ou com o Benfica dos "seis
milhões", que lá vai ganhando.
Basta olhar para as notícias dos últimos dias. O
Governo, mesmo para quem o admira ou a ele se curva,
parece em roda- -livre, transformado numa máquina de
propaganda onde a ficção já se confunde com a
realidade. Três exemplos:
Num ministério, o da Educação, lançam-se foguetes
dias a fio a propósito dos diferentes programas de
distribuição de computadores a crianças e
adolescentes sem que se tenha dado a mínima formação
aos professores, instalado os programas essenciais
ou garantido que este investimento só beneficiava
quem necessita mesmo de ser beneficiado. O bodo aos
pobres (e também aos ricos) vale politicamente tanto
como os frigoríficos que Valentim Loureiro
distribuiu em Gondomar (apenas aos pobres), e quase
não suscita interrogações sobre a relação
custo-benefício, a ausência de concursos públicos ou
o número de ministros envolvidos no acto benemérito
de entregar o tal Magalhães. Contudo, nesse mesmo
ministério permite-se que no Conservatório os
estudantes tenham de assistir às aulas sentados no
chão, porque não há dinheiro para mobiliário.
Daria vontade de chorar, se não acontecesse ter esse
mesmo ministério colocado 35 (repito: trinta e
cinco) páginas de publicidade redigida, a imitar o
formato de artigos jornalísticos, num dos diários
nacionais de maior circulação. Ou assegurado no seu
site que os alunos do "2.º e 3.º ciclos do básico e
secundário integrados no escalão A [da Acção Social
Escolar - ASE] beneficiarão (...) do pagamento
integral dos manuais de aquisição obrigatória",
quando isso é mentira, como ontem teve de reconhecer
um secretário de Estado. Vale tudo, e quando vale
tudo não vale a pena chorar, pois as empedernidas e
insensíveis almas que nos governam nem sequer
escutariam. O poder tanto as cegou como tornou
surdas, e lá do alto dos seus gabinetes ou por trás
dos vidros fumados dos BMW, só se preocupam em não
terem de se cruzar com o povo-povo, o que não foi
contratado para aparecer nas cerimónias
televisionadas.
Podiam, contudo, não nos comprometer o futuro.
Porém, numa altura em que nem os maiores bancos
conseguem crédito junto dos outros bancos, eis que
insistem em lançar obras de duvidosíssima
rentabilidade, como ainda anteontem reafirmou o
ministro das Obras Públicas. É tão absurdo, tão
contra os sinais que chegam da economia, que só se
pode perguntar: a quem, bem lá no fundo, aproveita a
teimosia?
Mas se o Governo não dá sinais de melhoras nesta sua
forma autista (e autoritária) de gerir o país, se a
obediente Assembleia se prepara agora para coroar
uma legislatura de lei anti-liberdade de imprensa
com a pior e mais danosa de todas elas, o desespero
aumenta quando se olha em redor e se sente o vazio.
A principal responsabilidade é do principal partido
da oposição. Uma coisa é queixar-se de que lhe pedem
para ser o que não é - oposição, o que significa que
se espera que critique o Governo -, outra bem
diferente é repetir erros, quando tem oportunidade
de dizer o que pensa. Ora no mesmo dia em que,
correctamente, o PSD decidiu dar liberdade de voto
aos seus deputados na questão do casamento
homossexual, em salutar contraste com a imposição da
disciplina de voto no PS, e o triste espectáculo
dado por um grupo parlamentar obediente e venerante,
Manuela Ferreira Leite conseguiu estragar tudo ao
pedir uma audiência de urgência ao Presidente da
República. Por causa da crise? Para denunciar o
clima de intimidação criado pela maioria? Não. Para
ir perguntar a Cavaco o que pensa sobre o
reconhecimento do Kosovo. Colocou-se numa posição
subalterna e só pode ter atrapalhado Belém, cuja
margem de manobra e influência diminuiu. Tudo isto
por causa de um tema que, sendo importante, está
muito longe das preocupações dos portugueses. E
onde, a bem dizer, o que Portugal faça ou não faça,
nos dias que correm, pouco adiantará.
Mais: enquanto, em Lisboa, o líder parlamentar do
PSD protesta contra as limitações à liberdade a que
nos estamos a habituar (é triste dizê-lo, mas é
verdade), o líder do PSD-Madeira faz gala em violar
de forma ainda mais ostensiva regras mínimas de
decência, como sucedeu na votação que impediu o PS
de ter uma, apenas uma, das vice-presidências da
Assembleia Regional.
Podíamos multiplicar os exemplos e falar também do
PCP e da "reforma" de Agostinho Lopes (dizia-se que
um comunista nunca se reforma...), do CDS-PP e das
suas inconsequências, do inefável Bloco e das suas
artes para vender ilusões com a beatitude dos
diáconos, mas ficamo-nos por aqui que a fronteira é
já ali e, bem vistas as coisas, lá por fora também
sobram os exemplos de populismo, indecisão e inútil
intriga e discórdia. Cá finge-se que tudo está bem
(mas deixa-se o rabo do gato de fora, quando se
fazem operações como a concretizada terça-feira pela
Caixa Geral de Depósitos), lá fora reina o desnorte.
E se, apesar de tudo, nos Estados Unidos o Congresso
pode acabar por aprovar um plano impopular, na
Europa arriscamo-nos a nem chegar a ter plano.
Mas a verdade, verdadinha, é que apetecia voltar a
escrever, num muro junto ao aeroporto de Lisboa, o
que lá esteve escrito em 1975: "O último a sair que
apague a luz."