Público última hora -
05 Out
08
Comemorações da Instauração da República
Cavaco Silva diz que é preciso verdade para
enfrentar tempos difíceis
Joana Ferreira da Costa
O presidente da República, Cavaco Silva, defendeu
ontem que Portugal vive "tempos difíceis" e que a
realidade não pode ser "iludida pelos agentes
políticos". No discurso desafiou o "comum dos
portugueses" a acreditar nas suas capacidades e a
não baixar os braços perante o futuro, que reconhece
ser incerto. Os partidos da esquerda aplaudem, mas
defendem que o Presidente devia ter sido mais
crítico da actuação do Governo.
Durante as comemorações dos 98 anos da Instauração
da República nos Paços do Conselho, Cavaco Silva
traçou um quadro "real" das dificuldades que os
portugueses enfrentam no dia-a-dia. Falou das
famílias que lutam para pagar os empréstimos à
habitação, dos idosos cuja reforma mal chega para as
despesas básicas, daqueles que perderam o seu
trabalho, de novas formas de pobreza e exclusão
social.
"O que é vivido pelos cidadãos não pode ser iludido
pelos agentes políticos. Quando a realidade se impõe
como uma evidência, não há forma de a contornar",
defendeu, numa crítica subtil à política de
propaganda do actual Governo.
O presidente lembra que Portugal " tem registado
fracos índices de crescimento económico",
afastando-se "dos níveis de prosperidade e bem-estar
dos parceiros europeus". E que continua a braços com
"a insustentável tendência de endividamento externo"
e marcado por profundas disparidades regionais,
enfrentando agora uma situação internacional pouco
favorável.
E deixou claras o conjunto de prioridades que quer
ver na agenda política: regressar ao caminho da
convergência real com o desenvolvimento médio da EU,
a redução do desemprego, a competitividade
empresarial e sobretudo a necessidade de uma aposta
contínua na educação e na qualificação.
Apelo contra o desânimo
Cavaco Silva sublinhou ontem a "confiança que tem no
comum dos portugueses", deixando o apelo para que se
mobilizem e não baixem os braços perante as
dificuldades. "Somos capazes de vencer quando os
desafios são maiores. Não se deixam vencer pelo
pessimismo ou pelo desânimo", apelou.
Imune às críticas, o primeiro-ministro, José
Sócrates, sublinhava, no final da cerimónia nos
Paços do Concelho, a "consonância perfeita" entre o
discurso do Presidente da República e o Governo,
sobretudo no apelo à mobilização dos portugueses
para enfrentarem as dificuldades.
"Gostei muito do discurso do senhor Presidente da
República, em particular do apelo que fez à
mobilização dos portugueses para terem energia e
ambição no sentido de que sejam enfrentadas as
dificuldades", afirmou Sócrates. "Como aliás tenho
sempre dito. As dificuldades do presente resolvem-se
com acção, com vontade e com ambição e não com um
baixar de braços."
Já às prioridades de actuação política defendidas
por Cavaco Silva, o primeiro-ministro responde com a
estabilidade das contas públicas e as medidas
sociais tomadas pelo Governo. "Há três anos atrás
Portugal tinha uma gravíssima situação financeira,
mas agora já não temos esse problema. Portugal tem
as contas públicas em ordem e isso é um património
do país que devemos sublinhar e manter", defendeu. E
optou por sublinhar os resultados "muito
importantes" das medidas tomadas pelo Governo no
combate à pobreza.
"Nestes últimos três anos, saíram da pobreza mais de
130 mil idosos. O Governo não só fez como está a
fazer tudo para tirar mais pessoas da situação de
pobreza", reivindicou, enumerando medidas como o
complemento solidário para idosos, o aumento dos
abonos de família e o complemento pré-natal.