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Público
- 28 Set 06
Uma geração enganada
Rui Ramos
Há-de ser duro, aos 50 ou aos 60 anos, ver
desmoronar-se o mundo em que se viveu. Mas é talvez
ainda mais duro, aos 20 ou aos 30 anos, ver
desmoronar-se o mundo em que se ia viver. É o que
está a acontecer a muitos dos portugueses mais
novos. Esta semana, os sinos oficiais continuaram a
dobrar pelo mundo para o qual foram criados e
preparados. Era um mundo em que qualquer curso
universitário significava um emprego e em que havia
empregos vitalícios. Um mundo em que as regalias
eram regularmente acrescentadas e em que as reformas
vinham cada vez mais cedo. Para os jovens actuais,
esse foi o mundo dos avós e dos pais. Já não vai ser
o deles. Cada novo anúncio das várias comissões de
reforma e revisão nomeadas por este Governo faz
empalidecer a fotografia da vida como era há cinco
ou dez anos. Tudo parece que foi há muito tempo.
Acontece que estas mudanças não chegaram
gradualmente ou com aviso prévio. As notícias
apareceram em catadupa, de repente, em meados de
2005, depois de garantida a maioria absoluta de José
Sócrates. Até aí, o país (lembram-se?) andou
convencido de que só tinha um problema, chamado
Santana Lopes. Nesses tempos, era preciso ser um
leitor fiel de Medina Carreira para perceber que o
mal não estava apenas no primeiro-ministro e que a
eleição de Fevereiro de 2005 nunca poderia ser o fim
de todas as dificuldades. Agora, até os modelos que
então nos venderam são vistos a nova luz. Só agora
sabemos que, afinal, os escandinavos, os espanhóis e
os irlandeses não andam prósperos apenas porque
puseram muita gente na escola, mas porque sofreram
"ajustamentos" dolorosos há dez ou há vinte anos.
Não era isso que nos tinham contado. Não espanta,
por isso, que muita gente nas gerações mais novas
tenha sido apanhada em contramão, desprevenida, com
as qualificações e atitudes desadequadas para o
mundo que surgiu em Portugal nos últimos meses.
Essa falta de preparação nota-se, por exemplo, no
ensino superior, nessa forma mais benigna de
abandono escolar que é a fuga aos cursos "difíceis".
Difícil, segundo parece, é por definição todo o
curso que tenha a ver com "matemática". Percebe-se
porquê: em 2005, os exames de Matemática do 9.º ano
produziram 70 por cento de negativas. Em parte por
causa disso, as áreas de licenciatura mais
produtivas continuam a ser aquelas em que os
lamentos sobre a saturação do "mercado" são maiores.
Não se trata de um simples caso de imprevidência ou
irracionalidade. Os estudantes e as suas famílias
reagiram simplesmente aos estímulos que lhes foram
administrados. E esses estímulos passaram todos, até
há pouco tempo, por um sistema de ensino em que a
inclusão era mais importante do que a qualidade, e a
auto-estima mais importante do que o esforço
disciplinado.
Em poucas áreas os equívocos foram maiores do que no
ensino. Em Portugal, inquéritos à origem social dos
estudantes e contas sobre o rendimento previsível
dos licenciados levaram sistematicamente à ideia de
que um diploma era um "privilégio": para os
bem-aventurados, era uma forma de se reproduzirem;
para os outros, um meio de ascenderem. Era de facto
assim. Mas a partir daí imaginou-se que a questão
era expandir esse "privilégio" administrativamente,
da maneira mais barata e expedita. A facilidade
passou a ser encarada como um princípio de justiça
social. A mínima referência à qualidade levava a
suspeitas de "elitismo".
Gerações sucessivas atravessaram um sistema de
ensino calafetado em geral contra qualquer forma de
avaliação externa, onde a aquisição de competências
e de conhecimentos foi frequentemente secundária em
relação a objectivos de suposta inclusão social.
Durante anos, enquanto o Estado, sempre em expansão,
absorveu metade dos licenciados, tudo correu mais ou
menos bem, por entre discussões inconclusivas acerca
das "reformas estruturais". Foi assim quase até ao
Verão de 2005. Então, subitamente, o mundo mudou.
Agora, talvez demasiados jovens estejam condenados a
descobrir que passaram pelo equivalente escolar das
fábricas de têxteis e de calçado mais obsoletas.
Pedem-lhes agora para competir num "mercado global".
Hão-de perceber, da pior maneira, que o sistema de
ensino não os habilitou verdadeiramente para nada
que não fosse o mundo que acabou. Que vão fazer? Ou
antes: que podem fazer?
Houve em Portugal gerações que gozaram a festa.
Haverá um dia gerações que já não vão esperar festa
nenhuma. Mas há, neste momento, gerações que foram
convidadas para uma festa que acabou antes de eles
chegarem. Histórias destas nunca terminam bem.
Historiador |