Diário de Notícias -
07 Set
08
"Sempre votei PS mas não sei se voltarei a votar"
Fernanda Câncio
Entrevista com Rui Rangel. É juiz há meia vida - 25
dos seus 50 anos e preside à Associação Juízes pela
Cidadania. Mas, se decidisse hoje, garante que não
escolheria esta via. Talvez optasse pela diplomacia
ou pelo seu sonho de menino de Angola, de onde saiu
em 1975 e onde confessa que gostaria de morrer:
piloto. Zangado com o Governo PS, no qual votou,
acusa-o de faltar à verdade. E não só garante que há
mais crime como não duvida de que a culpa é da lei
Desde que entrou em vigor o novo Código de
Processo Penal (CPP) os juízes têm sido mais brandos
nas medidas de coacção?
Isso é uma falsa questão. Não há brandura na
aplicação de regras que têm a ver com a prisão
preventiva, que julgo ser o que está subjacente à
pergunta. Sendo a prisão preventiva a última das
medidas, a mais gravosa, ao dispor dos juízes, e
aquela que tem mais impacto em termos de opinião
pública, o que se passa é que há impedimento legal.
Porque o legislador veio com dois argumentos
falaciosos, não verdadeiros, dizer que em termos
estatísticos Portugal tem presos preventivos a mais.
Basta conhecer as estatísticas para saber que
estamos nessa matéria atrás da Europa quase toda.
Além disso, cá contabiliza-se como preso preventivo
aquele que tem uma condenação e está a aguardar o
resultado do recurso. Lá fora esse preso é
contabilizado como efectivo. Depois o outro
argumento era económico: há que reduzir a população
prisional porque o Governo tem as baias apertadas e
é preciso diminuir a carga orçamental. E depois há o
argumento da liberdade e da segurança...
Mas também há o argumento ético, não? O da
possibilidade de se estar anos preso sem culpa
formada. Qual é a taxa de absolvição dos presos
preventivos em Portugal, sabe?
Reduzidíssima, isso está perfeitamente estudado. Não
lhe sei quantificar a taxa, mas é residual. Mas o
problema que coloca é de facto muito preocupante.
Tínhamos uma investigação muito mastigada, sobretudo
em determinado tipo de processos e as pessoas
ficavam para ali em prisão preventiva e depois, como
aconteceu recentemente, são libertadas e essas
situações não podem suceder, têm de ser evitadas.
Mas nós hoje o que temos? Sem atender à realidade
criminal do país e sem rigor, mudou-se a lei. Ainda
hoje estamos para compreender o pensamento da
Unidade de Missão para a Reforma Penal e em que se
baseou o Governo para alterar os pressupostos da
prisão preventiva como alterou...
A Unidade de Missão tinha juízes, magistrados,
representantes das polícias, e o novo CPP foi
aprovado pelo parlamento.
Há responsabilidades com certeza da Assembleia da
República que deixa passar assim estas leis, que
revelam falta de rigor científico e de unidade
sistémica. O PSD por exemplo aprovou o CPP e tem
responsabilidades nessa matéria. Mas o Governo não
pode sacudir a água do capote.
Está portanto a dizer que os magistrados que
fizeram parte da Unidade de Missão, incluindo o
actual ministro da Administração Interna, Rui
Pereira, foram incompetentes?
Não, mas tinham muita falta de experiência e é
preciso perceber quem na Unidade de Missão votou
contra e a favor deste e daquele artigo...
O artigo 1º do CPP, alínea j, define
"criminalidade violenta"; o artigo 202º, sobre os
pressupostos da prisão preventiva, diz que esta pode
ser aplicada quando haja indícios de que foi
cometido um crime que caiba nessa definição. O
ministro Rui Pereira baseia-se nesta relação para
dizer que a generalidade dos crimes noticiados nos
últimos dias e que tanto alarme social criaram
seriam passíveis da aplicação de prisão preventiva.
Como é, afinal?
Não basta só ir para o argumento da criminalidade
violenta para se ir para os pressupostos da prisão
preventiva. Por isso é que o argumento do Dr Rui
Pereira não é verdadeiro. O governo mudou os
pressupostos da prisão preventiva mas esqueceu-se de
harmonizar o Código Penal com essas novas regras.
Por isso é que o CDS agora quer pedir a alteração do
limite máximo do crime de violência doméstica de 5
para 6 anos. Não é possível aplicar a prisão
preventiva num crime cuja moldura penal máxima seja
4 anos.
Então Rui Pereira está a fazer uma interpretação
errada do Código de que ele é co-autor, quando diz
que basta um crime ser caracterizado como
criminalidade violenta para se poder decretar a
prisão preventiva?
Está a fazer uma interpretação política, que lhe
convém relativamente ao erro que cometeu. Mas
digo-lhe mais: não basta o limite da pena ser mais
de 5 anos, é preciso que haja perigo de fuga, de
continuação da actividade criminosa...
Esses são os pressupostos que já existiam.
Sim, a alteração foi a da moldura penal, por isso
não adianta fazer alterações avulsas como a da lei
das armas. Eu percebo que como se ganham e perdem
eleições com a segurança o Governo não quer ficar
com o ónus deste aumento de criminalidade.
Houve um aumento de criminalidade, tem a certeza?
Há um aumento de criminalidade! De 15%, assumido
pelo gabinete coordenador de segurança. Andaram a
negar...
Refere-se ao aumento em relação a 2007, quando a
criminalidade desceu em relação a 2006?
Não, desculpe, não é quando houve uma descida! Isso
é a forma como se trabalha a estatística! Que podem
ser trabalhadas pelos detentores das estatísticas...
Bom, ou se acredita nos números existentes ou
não. A fonte é a mesma. Trata-se de crimes
reportados às polícias...
O que diminuiu em 2007 foi aquele tipo de
criminalidade associado aos homicídios, etc,
continuamos a ter cifras de homicídios baixas...
Sempre tivemos, comparativamente com o resto de
Europa, um baixo número de homicídios. Agora os
furtos e os roubos não diminuíram. E aumentou o
crime que mais preocupa os cidadãos, que é quando
vai à bomba de gasolina ou ao multibanco e é vítima
de um assalto... Perturba o dia a dia, é um sinal de
cerceamento de liberdade e falta de segurança.
Depois, começa a haver um conjunto de fenómenos
criminogénicos em Portugal que não existiam, e não
há estudos sobre isso, nem preocupação com isso.
Como homicídio daquele senhor, dono de um bar
chamado Avião, que é morto com uma bomba quando está
ao volante do seu carro com pessoas ao lado. É
aquele assalto a uma carrinha de valores com
explosivos...
Fala de criminalidade organizada.
E porquê? Porque hoje, com a abertura das
fronteiras, todos os dias entram em Portugal pessoas
que praticam crimes e voltam a sair sem que as
autoridades portuguesas saibam sequer que estiveram
em território nacional. É um problema estrutural.
Não digo que toda a onda de criminalidade tenha a
ver com a alteração das leis processuais penais, não
faço essa injustiça ao governo. Há outras razões
estruturais: dificuldades económicas e sociais,
problemas culturais, há cada vez mais pobres e cada
vez menos ricos, a classe média está em
destruição... São problemas que levarão muito tempo
a ser resolvidos. E não se resolvem criando um
sistema legislativo absolutamente permissivo, em que
os criminosos também lêem jornais, ouvem rádio e
vêem TV...
E ouvem os juízes a dizer que agora podem cometer
crimes à vontade porque não vão ara prisão
preventiva. Mas há outras medidas de coacção, não
há? Prisão domiciliária com pulseira electrónica,
apresentação periódica, caução...
A prisão domiciliária é uma forma de prisão
preventiva... Não deixa de ser, embora não exista o
tal limite relacionado com a pena. Mas tem
requisitos muito apertados. É preciso que o arguido
tenha casa e consinta...
Também pode ir para uma instituição.
E acha que há muitas instituições para onde enviar
as pessoas? Depois tem de ter um quadro familiar
estável, que acolha, o parecer positivo do Instituto
de Reinserção Social... Ora a tipologia da maioria
dos nossos criminosos não se enquadra nessa
situação. Mas a questão é que a medida que cria
tranquilidade social é a prisão preventiva, não é
nenhuma das outras, à excepção da prisão
domiciliária, que tem o problema dos requisitos. E o
Governo acaba por vir nesse sentido: primeiro disse
que a prisão preventiva não podia ser usada como
estava a ser usada, enviando um sinal de
permissividade. Agora, a prisão preventiva é que
serve, alterou a Lei das Armas...
Diz que a não utilização da prisão preventiva é
um sinal de permissividade e que só a prisão
preventiva tranquiliza. Mas a prisão preventiva só
deve ser decretada quando haja perigo de fuga ou
continuação da actividade criminosa, não para
tranquilizar a população, certo?
Sempre combati a lógica de se prender para
investigar. Sempre combati. Não é esa a minha
filosofia, nem nunca foi. Sempre foi "investiga-se
para prender". Nem nunca foi defender que a única
medida de coacção possível e lógica era a prisão
preventiva...
Até porque as pessoas não ficam lá sempre, há um
prazo para a prisão preventiva.
Sim, claro. Mas não se pode estabelecer o limite dos
cinco anos sem explicar porquê. E não há no mundo
diplomas desta dimensão, estruturais, que tenham
sido postos em vigor em 15 dias após serem entregues
aos juízes. Isto criou embaraços e perturbações no
sistema. E isto que está a acontecer não é
surpresa...
O que é que não é surpresa?
Esta hecatombe e esquizofrenia legislativa do
governo e esta onda de criminalidade que não vale a
pena esconder.
Se há uma onda de criminalidade, em que baseia
essa relação tão clara entre ela e a alteração
legislativa?
Foram colocados na rua 50% dos presos preventivos.
Dir-me-á que algumas dessas pessoas estavam presas e
não deviam estar presas. Mas a esmagadora maioria
foi posta em liberdade porque a moldura do crime
pelo qual estavam indiciados era inferior a 5
anos...
Está a dizer que vieram cá para fora cometer
crimes. Mas esses preventivos estavam presos à
espera de julgamento. É expectável que um ano depois
muitos tenham sido julgados e, se os pressupostos da
prisão preventiva eram correctos, condenados - e
presos de novo.
Sim, admito que sim, que alguns já tenham sido
julgados e ficado em prisão efectiva, outros teriam
já esgotado na prisão preventiva a pena possível,
alguns poderão ter sido absolvidos... Mas alguns
deles podem ter fugido. Eu não quero trabalhar nos
ses, quero trabalhar com realismo... E aguardo que o
Governo, depois de passar a onda de criminalidade,
ponha cá fora estatísticas para sabermos se algumas
destas pessoas, que estão a praticar crimes, não são
pessoas que foram postas em liberdade, por via da
alteração do Código.
Foi anunciado o pedido de um estudo ao sociólogo
Boaventura Sousa Santos, sobre o efeito da alteração
do CPP...
Para mim já não era preciso estudo nenhum. Era bom
ter estudos era antes, não é depois de casa
arrombada trancas à porta. Devia ter-se feito antes
um estudo sobre o impacto da lei antes de serem
aprovadas. Mas não, legislou-se para acudir a casos
concretos.
Falemos então da responsabilidade civil dos
juízes, a propósito da decisão sobre Paulo Pedroso.
Como vê a possibilidade de doravante os juízes
poderem ter de indemnizar por eventuais erros
grosseiros?
Não posso, como sabe, comentar casos concretos. Mas,
em geral, posso dizer que, primeiro, não há nenhum
cidadão nem nenhum juiz que fique satisfeito quando
as coisas não correm bem, e designadamente existam
situações em que a pessoa é presa preventivamente e
depois é colocada em liberdade sem que se lhe seja
atribuída culpa. E posso dizer que o processo Casa
Pia é um case study que deveria ser estudado a
propósito daquilo que de bom e de mau a justiça fez
e aquilo que de bom e de mau a comunicação social
fez. A justiça cometeu aí vários erros - não vou
analisá-los, nem posso, mas acho que a
responsabilidade civil extracontratual foi mais uma
vingança do Governo contra os juízes. Um dia vamos
analisar a política do Governo em relação à Justiça
e chegar-se-á à conclusão de que nunca foi tão
maltratada e espezinhada como neste período. E digo
isso algum lamento, até porque não precisava de
dizer isto, mas sempre votei PS, e estou à vontade
para fazer estas críticas.
Sempre votou e vai deixar de votar?
Não sei, aí já não lhe respondo, ficava a saber
tanto como eu. Mas voltando à responsabilidade
civil: a irresponsabilidade dos juízes, de que se
falava, não era assim, havia a possibilidade de
pedir uma indemnização em caso de haver dolo, ou
seja, intencionalidade, num erro. O Governo
acrescentou ao dolo a negligência ou erro grosseiro.
Como muito bem disse o Presidente da República no
seu veto, isto poderá não só levar a um aumento da
litigância, com os cidadãos a pôr processos a juízes
de cada vez que achem que a coisa não lhes correu
bem, como à criação de uma pressão psicológica
tremenda sobre os juízes, que estarão mais
preocupados em autodefender-se e em fazer uma
decisão formalmente correcta do que procurar
proferir uma decisão justa e verdadeira. Os juízes
são homens...
Às vezes esquecem-se disso.
É verdade. Sabe que eu quando tenho de criticar o
sistema, critico-o também.
E depois é castigado, como se passou a propósito
das suas declarações críticas em relação a uma
decisão judicial no chamado caso Esmeralda. Como
está esse processo?
Foi convertido em processo disciplinar, que está a
correr. Ainda não posso falar disso.
Mas a decisão sobre a eventual negligência
grosseira será sempre apreciada por um juiz... Um
colega, portanto. Isso não garante justiça?
Ponha-se no papel do juiz, e de ter três ou quatro
acções contra si. E ter de, não só continuar a
decidir e a fazer justiça como a ter de procurar
defesa num tribunal qualquer para provar que não
cometeu um erro grosseiro.
Mas a negligência grosseira na decisão de um juiz
não é algo que o choca?
Evidentemente que sim... A negligência grosseira é
um erro temerário, crasso, indesculpável. Imagine o
juiz condenar a 15 anos de prisão por um crime que
só permite 10. É prejudicar uma pessoa de modo
indesculpável.
Que achou da tomada de posição do
procurador-geral da República, que falava de um
excesso de garantismo do sistema?
Não tenho a ideia de que se tenha um modelo
excessivamente garantístico, não acompanho o PGR
nessa posição. O que creio é que é preciso baixar a
tensão, o excesso de ruído, porque não é bom para o
Estado de Direito, e fragiliza-se o sistema. É
preciso procurar um novo paradigma de entendimento
entre Governo e magistraturas. E infelizmente
existem fossos, desconfianças, desmotivações que são
complicadas.
Está a falar de um gritaria que também tem sido
protagonizada pelos magistrados...
Sim, a culpa não morre solteira.
"Já assisti a atitudes indecorosas de juízes"
Já entrou numa sala de audiências como arguido ou
testemunha? Que sentiu?
Ser arguido não é crime nenhum. Mas nunca fui
arguido. Testemunha já fui algumas vezes e,
evidentemente, o sentimento é sempre de respeito e
mesmo de algum constrangimento, que mesmo sendo juiz
senti. Há uma série de regras e de simbolismo que
criam constrangimento.
Nunca assistiu a um daqueles julgamentos em que
os juízes desfrutam os arguidos e testemunhas - e às
vezes os advogados -- com apartes e risos?
Sim, já assisti, sobretudo quando estava na Boa
Hora, a situações de tratar mal testemunhas ou
arguidos... Já assisti a atitudes, comportamentos
indecorosos que não compartilho e não dignificam
nada os juízes e a justiça.
Porque é que quis ser juiz?
Quando era miúdo a profissão que me fascinava era
aviador, piloto. Depois, mais crescido, pensei na
judicatura e na diplomacia. Sou juiz há 25, 26 anos,
metade da minha vida. Antes eu tinha um grau de
fascínio pela judicatura, agora há uma desilusão. Já
fui juiz do Cível, do Fiscal, agora sou juiz do
crime, e gosto. Mas entendo que nas condições em que
a justiça funciona, com o número de processos que há
e a falta de condições... Veja, sou juiz de um
tribunal superior. Tenho um gabinete razoável,
alguns nem isso têm. Mas vê estes processos? Tenho
de tirar as cópias das peças que vou analisar e
scanar. Perco um dia inteiro a scanar processos
quando podia estar a decidir. Mas não tenho ninguém,
um funcionário para me assessorar, para me tirar uma
fotocópia ou para me scanar um processo. Da forma
como está a justiça em Portugal, se hoje tivesse de
optar, não seria por esta carreira.
Qual seria, então?
Fascina-me a política. Também gosto muito de dar
aulas, e acho que teve jeito para ensinar. Por isso
fiz o meu mestrado e estou a tentar fazer o meu
doutoramento, estou a tentar terminar a tese, sobre
a Justiça.
Diz que está desiludido. Antes era melhor?
Não, em termos de instalações era pior até. E em
termos de processos... Eu sempre fui uma vítima,
cheguei ao Tribunal de Albufeira em 1982 e aquilo
estava completamente parado, entupido de processos.
Foi o meu primeiro tribunal, estive em Loures em
estágio e fui para Albufeira, em que o incumprimento
era total. O sítio onde eu trabalhava, qualquer
cavalariça tinha maior dignidade. Estive lá dois
anos, apanhei um princípio de esgotamento. Mas
sempre fui um homem de trabalho, se for preciso
trabalhar pela noite dentro trabalho e por isso o
meu serviço está sempre em dia e por isso falo como
falo. Não me preocupa o trabalho, preocupa-me é o
desprestígio da instituição e o descrédito que o
cidadão hoje evidencia em relação à Justiça.