Público -
11 Set
08
Portugal (ainda) não é plano
Francisco Jaime Quesado
Seria mau para os portugueses que, em 2015, 45,3 por
cento da população se concentrasse na Grande Lisboa
Segundo um estudo da ONU, em 2015 a região da Grande
Lisboa vai comportar 45,3 por cento do total da
população do país, tornando-se na terceira maior
capital metropolitana da União Europeia, logo a
seguir a Londres e Paris. Apesar da tónica colocada
no desenvolvimento do interior, através de inúmeras
acções de política pública, como é o caso do
programa Pólos de Competitividade, o certo é que o
tempo passa e Portugal parece não conseguir fugir ao
destino de ser um país que ainda não conseguiu ser
"plano" no jogo da grande competição global.
Os dados do estudo Prospectivas de Urbanização do
Mundo, do Departamento dos Assuntos Económicos e
Sociais das Nações Unidas, são muito claros. Para
além dos 45,3 por cento de concentração da população
portuguesa na Grande Lisboa (aumentando o número de
habitantes de 3,8 milhões em 2000 para 4,5 em 2015),
também a Área Metropolitana do Porto vai ter um
crescente peso na demografia portuguesa,
destacando-se em 2015 claramente como a segunda
maior área urbana do país, com 23,9 por cento do
total da população. Ainda segundo o mesmo estudo,
nas zonas rurais permanecerá apenas 22,5 por cento
da população e nas outras áreas urbanas vão viver
apenas 8,3 por cento dos portugueses.
Apesar da relativa reduzida dimensão do país, não
restam dúvidas de que a aposta numa política
integrada e sistemática de cidades médias, tendo por
base o paradigma da inovação e do conhecimento, com
conciliação operativa entre a fixação de estruturas
empresariais criadoras de riqueza e talentos humanos
indutores de criatividade, é o único caminho
possível para controlar este fenómeno da
metropolização da capital, que parece não ter fim. O
papel das universidades e institutos politécnicos,
que, nos últimos 20 anos, foram responsáveis pela
animação de uma importante parte das cidades do
interior, com o aumento da população permanente e a
aposta em novos factores de afirmação local, está
esgotado.
A política pública tem a responsabilidade de dar o
mote e marcar a agenda. Iniciativas como as Cidades
e Regiões Digitais, Acções Inovadoras de Base
Regional, entre outras, têm tido o incontornável
mérito de colocar estas temáticas na agenda e de
reforçar os infelizmente nem sempre muito fortes
níveis de cooperação e articulação entre actores
territoriais (municípios, universidades, centros
I&D, entre outros). Mas engane-se quem pense que
serão capazes por si só de alterar o panorama
global. O que está verdadeiramente em causa em tudo
isto é a assunção por parte do país de um verdadeiro
desígnio estratégico de alterar o modelo mais
recente de evolução de desenvolvimento e de
implementar pólos de competitividade ao longo do
país, fixando dessa forma riqueza e talentos que, de
outra forma, tenderão a concentrar-se unicamente na
grande metrópole.
Neste contexto, a questão surge então: que pólos de
competitividade deverá o país privilegiar e de que
forma deverão ser operacionalizados ao longo do
território? São conhecidos nesta matéria várias
experiências internacionais, que vão da Finlândia ao
conhecido modelo francês, passando pelo modelo de
organização consolidado nos últimos anos em Espanha,
através das regiões autónomas. Não há soluções
universais e deve ser atenta nesta matéria a
particular especificidade do nosso país e as
competências centrais de que dispõe. Seria muito mau
para Portugal e para os portugueses que, em 2015,
45,3 por cento da população se concentrasse na
Grande Lisboa. Portugal tem que lutar por ser plano
e isso corresponde mais do que nunca a uma exigência
colectiva. Gestor do Programa Operacional Sociedade
do Conhecimento