Público -
11 Set
08
Quanto custa o litro de democracia?
Miguel Gaspar
O petróleo está outra vez mais barato. E já nos
sentimos menos angustiados quando vamos a uma área
de serviço. Mais barata, a gasolina é mais
democrática - independentemente do número de
octanas. Mas a democracia, hoje em dia, está a ficar
parecida com uma bomba de gasolina. Se o preço do
combustível subir muito, os camionistas bloqueiam
estradas, a economia mete a marcha-atrás, o
consumidor fica aflito - e os governos entram em
pânico.
Felizmente para todos, o século XXI trouxe uma
grande invenção, que é a democracia a gasóleo.
Angola ou Rússia são bons exemplos desse tipo de
democracia. Tal como a gasolina pode ser medida em
octanas, essas "democracias" são medidas através da
incidência do partido no poder. Nas primeiras
eleições em 16 anos, verificou-se que a democracia
angolana tem agora 82 por cento de índice de partido
no poder. Na Rússia, esse índice anda à volta dos 70
por cento. O ponto comum aos dois regimes é,
evidentemente, serem movidos a petróleo.
Por isso é interessante perguntar quanto custa o
litro de democracia nos dias que correm. Em Angola,
os observadores da União Europeia declararam que as
eleições não foram livres nem justas, mas decorreram
num clima de serenidade, apesar de tudo. Já o nosso
Presidente, o nosso primeiro e o nosso presidente da
Comissão Europeia foram mais entusiásticos. Em
particular o nosso primeiro, que se declarou
"satisfeito" com um processo que considerou
"transparente, livre e democrático". E se fosse ali
no Beato (onde em tempos se imaginou que havia
petróleo) valeria aquela coisa de não haver cadernos
eleitorais ou boletins de voto suficientes? É tudo
uma questão de critério. As eleições angolanas foram
consideradas um exemplo para África porque, ao
contrário do Quénia e do Zimbabwe, lá não dão
pancada na oposição. Mas, ao contrário do Quénia e
do Zimbabwe, a oposição não estava em posição para
ganhar.
O preço da democracia em África, portanto, é barato.
Num certo sentido, é possível pensar que o preço da
democracia estará cada vez mais indexado ao preço do
crude. Se não dependesse tanto do petróleo e do gás
russos, a UE estaria a usar outro tom com Moscovo.
Mas que capacidade de resistência teriam as
democracias europeias se a Rússia cortasse a
torneira do combustível este Inverno?
A crise actual é o resultado de um processo que está
virado do avesso há muito tempo - basta lembrar o
Kosovo. Só se ouve falar na importância da adesão da
Geórgia e da Ucrânia à NATO. No entanto, como muitos
analistas têm defendido, o importante é alargar mais
para leste a União Europeia e não a NATO. Mas a
Europa não dará um passo em relação a Kiev, por
causa dos russos. E isso mesmo com Moscovo isolada -
até agora só a Nicarágua reconheceu a independência
da Abkházia e da Ossétia do Sul. Enquanto os EUA
falam cada vez mais na expansão da NATO na Europa,
os europeus falam cada vez menos no alargamento da
UE.
Há dias, o colunista do Financial Times Gideon
Rachamn escreveu que defender a democracia na
Ucrânia e na Geórgia "é uma forma de manter a
esperança que a Rússia, um dia, vire as costas ao
autoritarismo". Aproximar a Ucrânia da UE permite
manter viva a expectativa, de que a Rússia deixe um
dia de ser imune ao contágio democrático. No longo
prazo, o que conta é a forma como a Rússia evoluirá,
mas isso deixou de ser uma preocupação.
A nossa convicção na democracia parece estar a
desaparecer. E isso enfraquece o peso da UE a nível
global. Estamos menos dispostos a dar o litro pela
democracia, em nome do realismo do litro de
gasolina. E o que acontecerá quando o litro de
democracia ficar demasiado caro?