Público -
17 Set
08
Cavaco Silva junta-se a Pinto Monteiro no apelo
para que magistrados sejam ouvidos
Ricardo Dias Felner
Numa altura em que o conflito entre o sistema
judicial e o Governo sobe de tom, o Presidente da
República fez um elogio aos juízes na presença do
primeiro-ministro, José Sócrates
A semelhança entre as palavras do procurador-geral
da República, Pinto Monteiro, proferidas na véspera,
e a declaração que Cavaco Silva fez ontem deixam
pouca margem de dúvida sobre a sintonia entre ambos
quanto ao braço-de-ferro que o executivo mantém com
os juízes. A mensagem de ambos foi muito clara: o
Governo deve ouvir os agentes da justiça, porque
eles, melhor do que ninguém, sabem o que se passa na
justiça.
Falando durante a cerimónia dos 175 anos do Supremo
Tribunal de Justiça, o Presidente da República
sublinhou o "prestígio" do poder judicial para, logo
de seguida, reclamar "a necessidade de escutar
atentamente o que dizem aqueles que aplicam as leis
e vivem a difícil realidade do quotidiano
judiciário".
A declaração foi tanto mais importante quanto 24
horas antes o procurador-geral da República
expressara publicamente a mesma opinião, com
palavras muito próximas destas. "É necessário que
ouçam quem aplica a lei, porque quem aplica é que
sabe os resultados", afirmara Pinto Monteiro, numa
cerimónia no Centro de Estudos Judiciários, que
contou com a presença do ministro da Justiça,
Alberto Costa.
Como pano de fundo estão as alterações às leis do
Código Penal e do Código do Processo Penal - aquilo
que juízes, procuradores, polícias e partidos da
oposição dizem ser uma das razões fundamentais para
a "onda de criminalidade" que assustou o país
durante o Verão.
Alberto Costa voltou esta segunda-feira a defender
esta reforma - que diminuiu as possibilidades de
aplicação da prisão preventiva, entre outras
alterações -, embora admitindo a possibilidade de
ela ser aperfeiçoada.
Cavaco Silva, parecendo aproveitar esta abertura,
lembraria que os operadores judiciais devem ter uma
palavra nesse processo. "Jamais conseguiremos
avançar nas mudanças (...), se dispensarmos o saber
feito de experiência e o enraizamento na realidade",
disse, fazendo o elogio das magistraturas.
Manifestou o seu "respeito" e "apreço" por elas e
depois recusou a possibilidade de juízes e
procuradores serem atacados. "Devemos ter presente
que os tribunais são um pilar essencial do Estado de
direito democrático e que qualquer ofensa à
dignidade e ao prestígio do poder judicial constitui
uma ameaça grave para a democracia de qualidade a
que aspiramos", afirmou Cavaco Silva.
O Presidente da República aludiria ainda à "garantia
da estabilidade" que uma instituição como o Supremo
Tribunal de Justiça representa, por oposição à
"constante transformação" das "leis" e dos
"códigos".
A terminar, Cavaco Silva pareceu deixar um recado às
partes desavindas: portem-se bem e estejam à altura
das funções. Exigiu dos magistrados "um alto sentido
de responsabilidade"- afirmando que eles são
"modelos de comportamento" e dispõem de um "imenso
poder" - e apelou a todos, "começando pelos agentes
políticos, para que tudo façam para garantir a
dignidade do exercício da função judicial".
Apesar de estarem presentes na sessão as mais altas
figuras do Estado, a intervenção que mais aplausos
mereceu foi a de António Hespanha. Falando durante
quase 45 minutos, o professor de Direito lembrou que
políticos e juristas são "dois corpos que sempre se
digladiaram" , tendo a propósito referido uma
atitude antiga por parte da magistratura. "Obedeçam
mas não cumpram", disse Hespanha, pondo conselheiros
do STJ e dezenas de juristas presentes na sala a
rir. O primeiro-ministro manteve o semblante
carregado.