Público -
24 Set
08
Não é defeito, é feitio
Rui Tavares
O cidadão informado poderia estar a par da bolha do
imobiliário há, pelo menos, dois anos. Bastaria ler
a imprensa. Uma capa já antiga da The Economist
trazia uma casa em queda; a única questão era saber
se o embate iria ser mais ou menos brutal.
E há economistas como Dean Baker, que escreveu sobre
isto há seis anos; Nouriel Roubini, que acertou em
todas as etapas da crise; ou o falecido Hyman Minsky,
que descreveu teoricamente o que se está a passar.
Então e os gestores dos bancos de investimentos - os
cinco maiores dos quais faliram, foram vendidos ou
mudaram de ramo nos últimos dias - não sabiam o que
se estava a passar? Não me cheira. Além de serem
pagos a peso de ouro, trata-se de gente
inteligentíssima. A questão é que não tinham
incentivo para agir de outra forma. Pior ainda:
tinham incentivos para agir como agiram.
Não é defeito; é feitio. Agora é comum dizer que os
lucros foram privados e os prejuízos vão ser do
público. Mas isso não é uma novidade nem se
restringe à economia. Passar o risco para a
sociedade não é um exemplo do mau funcionamento da
coisa; é um exemplo de como a coisa tem funcionado.
O debate sobre a Guerra do Iraque foi assim; alguns
enganaram-se, todos sofreram as consequências. Os
que se tinham enganado, salvo honrosas excepções,
não se deram por achados e passaram a exigir que se
lhes fizesse a vontade no Irão.
Por isso há sempre este momento na dança - no
Iraque, no Katrina, no imobiliário - em que se diz:
"Ninguém podia prever o que se passou!". Poupem-nos.
A economia tem crescido na última geração mas os
cidadãos comuns são tratados como enteados - nas
pensões, na educação, e por aí adiante. Os outros
são tratados como filhos a quem se pagam todas as
dívidas depois de terem estourado o dinheiro da
família no casino. E, verdade seja dita, parece não
haver outro remédio.
Há maneiras melhores e piores de o fazer, porém, e
enquanto a fasquia do risco não for distribuída de
forma mais justa - se a compra de dívidas não tiver
como contrapartida uma mudança de regras -, haverá
responsabilidades a pedir. Afinal, não foi por
milagre que coisas que não são bancos puderam passar
a comportar-se como bancos sem darem as garantias
que os bancos têm por lei de dar. Foi por acção
legislativa de alguns dos nossos representantes
eleitos.
Digo "nossos" porque isto não se limita aos EUA. A
cultura de passar os riscos para o público foi comum
e partilhada por Governos de direita e de esquerda,
americanos e europeus. O mesmo Nouriel Roubini que
passámos a ter de escutar com atenção nesta crise
escreve no Financial Times que os bancos europeus
estão em risco por terem comprado muitos dos
"produtos tóxicos" financeiros que estiveram na
origem disto tudo. Os economistas Daniel Gros e
Stefano Micossi avisam que se os bancos americanos
eram demasiado grandes para os deixarmos falhar, os
bancos europeus são demasiado grandes para os
conseguirmos salvar país a país.
Onde está Durão Barroso? Quando o conhecíamos, era
um dos mais dogmáticos sacerdotes do mercado. Hoje
está desaparecido em combate. Esta crise financeira
global vai precisar de regulação global; mas antes
que ela chegue precisamos de nova (e melhor)
regulação europeia. Eu não estou optimista. Os
americanos, ao menos, têm uma escolha entre mudar de
defeitos e mudar de feitio nas próximas eleições.
Historiador