Público -
25 Set
08
Só uma escola exigente é democrática
Pedro Picoito
Condenar todos os alunos à mediocridade é o melhor
que a democracia portuguesa tem para lhes oferecer?
Por estes dias, milhão e meio de alunos portugueses
voltam às aulas. Vão encontrar um sistema de ensino
burocratizado, centralista e ineficiente. Irão para
a escola que o Estado impõe aos seus pais, de acordo
com a área de residência ou de trabalho. Talvez não
tenham ainda todos os professores nos primeiros
dias, porque a colocação de contratados é um
processo nacional de tentativa e erro. Alguns
acabarão o ano sem dar todo o programa de Português
ou de Matemática por causa da indisciplina dos
colegas ou da desmotivação dos professores. Vão
encontrar, sobretudo, um sistema que, ao fim de um
século de ensino obrigatório, ainda não ultrapassou
o maior desafio da escola pública: conciliar a
igualdade de oportunidades e a procura da
excelência. É o mesmo dilema entre a paixão da
igualdade e a paixão da liberdade que Tocqueville
via no coração da democracia moderna. Na França
jacobina, a igualdade do Terror venceu a liberdade
da Revolução. Com as devidas distâncias de uma
analogia histórica, algo de semelhante se passa hoje
no ensino português.
Vejamos um exemplo: os exames nacionais. O Governo
socialista anunciou há dias, com retumbante
publicidade, que a taxa de retenções (ou "chumbos")
no ensino básico e secundário do ano passado foi a
mais baixa da década. No entanto, segundo a
Sociedade Portuguesa de Matemática e a Associação de
Professores de Português, isso aconteceu porque os
exames foram deliberadamente facilitados.
Nivelaram-se as notas para embelezar as
estatísticas. O Ministério da Educação esquece que
este admirável mundo novo da igualdade acaba também
com o incentivo à excelência. Para quê estudar, se
Maria de Lurdes Rodrigues dará a todos os alunos, no
fim do ano, outro milagre das rosas?
Mas será isso verdadeiramente democrático? Condenar
todos os alunos à mediocridade, mesmo aqueles que
pelo seu esforço chegariam mais longe, é o melhor
que a democracia portuguesa tem para lhes oferecer?
Acredito que não. Só uma escola exigente é
democrática. O ensino formal que os mais pobres não
receberem na escola dificilmente virão a receber em
contextos informais como a família ou a comunidade
local. E, sem um ensino de qualidade, entrarão na
vida activa em desvantagem - se conseguirem entrar
na vida activa.
Só um sistema que permite a real liberdade de
escolha dos pais é socialmente justo. Se as famílias
estão descontentes com uma escola, devem ter o
direito de optar por outra dentro do sistema
público. Não há real liberdade de escolha, se o
Estado limita a opção à ditadura do número da porta.
Ou à largueza da bolsa doméstica.
Essa exigência e essa liberdade só serão possíveis
com a avaliação das escolas. Não basta avaliar os
professores para melhorar o ensino. Um professor não
trabalha isolado - e, se o faz, algo vai mal. Há que
avaliar os resultados de cada escola,
responsabilizando as direcções e dando-lhes a maior
autonomia pedagógica e administrativa para criar um
projecto educativo próprio.
É urgente reforçar o peso científico dos programas.
Os alunos não têm que passar mais tempo nas aulas:
basta diminuir a carga, de resto muito ideológica,
das áreas curriculares não-disciplinares. A
disciplina de Português não tem que ensinar
tolerância e multiculturalismo, mas gramática e
ortografia. A disciplina de Matemática não tem que
ensinar a respeitar a opinião dos outros, mas que
1+1=2 (independentemente das opiniões). Só uma
escola onde se ensina que 1+1=2 pode ensinar o
respeito pelos outros. Porque respeita o
conhecimento, respeita os alunos, respeita as
famílias e respeita os contribuintes que a pagam.
O país pode fazer mais e melhor para vencer o
desafio da educação. Docente do Instituto Superior
de Educação e Ciências