Público -
26 Set
08
Autismo? Arrogância? Ou pior do que isso?
José Manuel Fernandes
A recusa dos responsáveis dos ministérios da
Educação e do Ensino Superior em esclarecer as
irregularidades detectadas pelo PÚBLICO no processo
de acesso às universidades cria a suspeita de que
pode haver irregularidades ainda mais graves
Há vários dias que o PÚBLICO vem pedindo aos
responsáveis dos ministérios da Educação e do Ensino
Superior uma explicação para a existência de um erro
de classificação em relação a alunos colocados no
ensino superior provenientes de escolas que seguem
um currículo diferente do português. Fazemo-lo desde
dia 22.
De então para cá demos conta de elementos que
comprovam terem algumas centenas de alunos visto as
suas médias de acesso ao ensino superior calculadas
de acordo com uma fórmula mais favorável do que a
que estava, e está, em vigor. Tivemos também acesso
a documentos que comprovam que os serviços dos dois
ministérios sabiam que estavam a cometer uma
irregularidade que esperavam vir a ter a cobertura
de uma portaria do secretário de Estado Valter
Lemos. Essa portaria foi assinada há semanas, mas
não foi publicada em Diário da República e tudo
indica que isso nunca sucederá.
Face a todos estes elementos, dias a fio, o PÚBLICO
esbarrou com o silêncio teimoso dos responsáveis
pelos dois ministérios, apesar de tudo termos feito
para obter qualquer explicação para a situação. Esta
ausência indica que o Governo pretende que o caso
caia no esquecimento. Como é suportado por uma
maioria absoluta que utiliza de forma despudorada, o
Governo não parece preocupar-se com uma situação que
prejudica todos os alunos que estudam nas escolas
que não seguem os currículos portugueses e terá
prejudicado um número indefinido de candidatos ao
ensino superior que podem ter sido preteridos nas
listas de acesso a favor dos candidatos vindos
dessas escolas.
Ou seja: o silêncio do Governo prejudica todos. E
importa explicar porquê.
A existência de escolas que seguem planos
curriculares diferentes do plano oficial é um bem,
não é um mal. Um bem com décadas de boas provas
dadas em escolas de prestígio por onde passaram
muitos dos melhores quadros do país. Neste caso
concreto, as escolas em causa são as que adoptaram o
International Baccalaureate (IB), um programa de
estudos em muitos domínios mais exigente do que o
português e que, neste momento, é seguido por 2400
escolas em 129 países, abrangendo um universo de 655
mil estudantes. Ao contrário do nosso diploma do
12.º ano, o IB é reconhecido por muitas das melhores
universidades do mundo, como Oxford ou Harvard.
Desde 2005 que existe um mecanismo de equivalência
para as notas IB para que possa ser passado um
diploma aceite nas candidaturas ao ensino superior.
O que sucedeu este ano é que foi preparada uma
portaria que revia a tabela de equivalências,
nalguns casos valorizando mais a classificação IB.
Só que, apesar de não estar em vigor, a nova tabela
já foi aplicada - o que é irregular, senão ilegal.
Tanto o Ministério da Educação como o do Ensino
Superior tinham obrigação de esclarecer toda esta
situação de forma a assegurar que: a) ficasse claro
que não houve qualquer tratamento de favor
relativamente aos alunos daquelas escolas, pois, se
não for o ministério a fazê-lo, ficará uma suspeição
na opinião pública que pode prejudicar escolas e
estudantes que seguem critérios de exigência que
permitem uma equiparação internacional; b) ficasse
claro que nenhum candidato vindo de outras escolas
deixou de entrar no curso da sua preferência por ter
sido preterido devido à sobrevalorização dos
diplomas vindos do sistema IB; c) fosse explicado
que mecanismos existem ou podem ser criados,
nomeadamente através da abertura de mais vagas, para
corrigir eventuais injustiças.
Ao atrasarem uma resposta os responsáveis
governamentais tentam evitar recursos e complicações
jurídicas, da mesma forma que procuram esconder uma
irregularidade e permitir que se perceba se houve
apenas precipitação dos serviços ou a intenção de
beneficiar alguém, e quem. Isso deixa-os
indiferentes ao mal que estão a fazer às escolas que
seguem o International Baccalaureate e as vidas que
podem estar a estragar: as de todos os que
porventura não entraram no curso onde queriam entrar
e onde poderiam ter entrado.
Autismo? Insensibilidade? Arrogância? Ou vontade de
esconder uma irregularidade mais grave? O silêncio
teimoso das equipas de Maria de Lurdes Rodrigues e
de Mariano Gago obriga-nos a colocar todas as
hipóteses, até as piores.
P.S. Alguns leitores, ligados a escolas que seguem o
International Baccalaureate, têm-se dirigido ao
PÚBLICO para criticar as nossas notícias defendendo
a qualidade do seu ensino. Ora o problema não está
nas nossas notícias e até podemos aceitar que a
tabela anterior gerava injustiças relativas. O
problema é que não se corrigem injustiças com
irregularidades que podem criar outras injustiças. E
é isso que está em causa em tudo o que noticiámos e
vamos continuar a noticiar. Porque temos o dever de
o fazer.