Público
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30 Set
08
Lavagem ao cérebro no banco de trás
José Vítor Malheiros
Se todos recusassem, talvez os publicitários
percebessem que o nosso tempo e o nosso olhar são
nossos e não deles
Quando nos sentamos, o ecrã fica pertinho dos nossos
olhos, a dois palmos apenas. Mesmo quando não há
ecrã, o campo visual à nossa frente já não oferece
grande abertura, com os encostos de cabeça, o
retrovisor, o taxímetro, o ecrã do GPS e os vários
autocolantes no vidro, mas sempre é possível ir
espreitando pelo meio de tudo isso através do
pára-brisas e ver as ruas por onde seguimos. Com o
ecrã que está nas costas do encosto de cabeça do
assento da frente torna-se impossível olhar em
frente para outra coisa que não seja... o ecrã. O
olhar é desviado sem apelo. A alternativa é torcer o
pescoço e espreitar pela janela, mas o movimento
colorido no ecrã, na margem do nosso campo visual,
continua a atrair inevitavelmente o olhar. O
resultado podem ser náuseas, quando se continua a
tentar olhar pela janela, ou um estado de
hipnoestrabismo, se se ceder à atracção do ecrã. E,
em qualquer dos casos, uma enorme irritação. Não nos
esqueçamos que estamos a pagar ao ritmo do taxímetro
pelo tempo que dura a lavagem ao cérebro.
O ecrã serve para mostrar publicidade e foi
inventado por um génio do marketing - talvez mais do
que um, uma ideia tão boa pode não ter sido
concebida por um único génio - para tentar atingir
aquele Santo Graal que consiste em ter todos os
cidadãos do planeta a ser alvo de publicidade 24
horas por dia, sem intervalos para pensar ou agir
autonomamente. Acontece que havia este slot
totalmente desperdiçado: o tempo que as pessoas
passam nos táxis, às vezes a olhar pela janela
feitas parvas, por vezes a folhear o jornal, outras
vezes a falar com o taxista ou em ocupações
igualmente improdutivas. E havia aqueles encostos de
cabeça inúteis. O nosso génio lembrou-se de que era
possível "acrescentar-lhes valor" com uns ecrãzinhos
de televisão onde será possível exibir anúncios.
Os argumentos a favor são os habituais: a
publicidade permite que o consumidor faça escolhas
conscientes e informadas. Como a publicidade é
excelente para as empresas e como o que é bom para
as empresas é bom para todos nós, é evidente que
estes ecrãs são bons para nós. E a prova final de
que estes ecrãs são óptimos é que até são usados nos
Estados Unidos.
É verdade que estes televisores têm o inconveniente
de acrescentar mais um pouco de ruído ao ambiente já
de si acusticamente agressivo dos táxis, onde ao
barulho do trânsito se somam o rádio da central, a
telefonia e o ocasional telefonema respondido aos
berros, mas o que é isso ao pé do benefício
civilizacional da publicidade?
Os ecrãs por enquanto ainda não têm anúncios e só
têm "conteúdos" - curiosidades, informações
turísticas -, mas um dia, se deus quiser, estarão
cheios de anúncios. É só esperar que os anunciantes
se dêem conta de como os ecrãs acrescentam valor aos
encostos de cabeça e aos próprios táxis (e, por que
não dizê-lo, aos próprios utentes dos táxis).
Como a desfaçatez dos gurus do marketing não tem
limite quando espreita a possibilidade de ganhar um
euro, não vale a pena esperar daí razoabilidade. E
como a acção reguladora do Estado também não prima
pela defesa dos cidadãos, o melhor será dar a mais
este atentado à escassa liberdade que o quotidiano
nos permite a resposta do mercado: não comprar.
Pelo meu lado, passarei a pedir ao telefone táxis
sem TV e, se apanhar algum na rua, pedirei de
imediato ao motorista para o desligar. Se todos
fizessem assim, talvez os publicitários percebessem
que não têm o direito de nos roubar a calma, o
direito a divagar, a reflectir, a não fazer nada, a
andar na cidade sem mensagens comerciais a
entrar-nos pela cara dentro e que o nosso tempo e o
nosso olhar são nossos e não deles. Jornalista