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Plano + Família

Histórias em Família

Férias Campistas

Há muitos anos que acampamos.

Tudo começou por um casal amigo nos ter convidado para ir passar um dia na barragem do Pego do Altar (12 km de Alcácer do Sal).

Foi um dia inesquecível. Espaço, pouca gente, água amena e calma.

Passámos o dia a pescar (ou antes, a ver se pescávamos...), a brincar com os miúdos, jogar à bola, conversar uns com os outros...

Não havia televisão e ninguém deu por falta dela.

Foi tão bom, que repetimos a experiência.

Só que, na altura, 1987, ir a Alcácer demorava, pelo menos, duas horas e o regresso era uma incógnita: ninguém poderia adivinhar se ia demorar uma hora ou seis horas a atravessar a ponte sobre o Tejo.

Daí que nos lembrámos de experimentar acampar, passar lá um fim-de-semana, para "rentabilizar" a tortura da viagem.

Montámos as tendas junto da água.

A trezentos metros, existe um café e mercearia, e uns balneários construídos para apoio da rara população local.

No sábado à tarde, fomos procurar lenha, para fazer uma fogueira. Acendêmo-la pelas 19.00, onde grelhámos umas febras.

Ao pôr-do-sol (a hora do ataque das melgas), estávamos longe delas, junto do balneário, a lavar a loiça. Seguíamos para o café, para tomar a bica, e esperar pelo completo anoitecer (fim da hora das melgas). De regresso ao acampamento, atiçámos a fogueira, e sentámo-nos a conversar, numa característica noite alentejana, sem vento, morna, com o céu todo iluminado de estrelas, sem uma nuvem.

Daí a começarmos a tocar e a cantar foi um passo. Recordámos cantigas antigas. Lá veio a "Oliveirinha da serra", "Ó rama que linda rama", etc.

Alguém verificou que já eram duas da manhã! Ninguém se tinha apercebido! Fomos todos dormir para as tendas.

No dia seguinte, acordámos junto da água, onde estávamos. Foi uma sensação extraordinária: estarmos junto da água, sem termos que, anteriormente, ter passado pelo calvário que é uma simples ida à praia de uma família numerosa!

De facto, o "normal" é ter que acordar todos, arrumar quartos, ir ao pão, fazer o pequeno-almoço para todos, limpar a mesa e o chão por causa dos copos de leite e papa que se entornaram, juntar a "tralha" e meter toda a gente no carro (mais a "tralha"), todos devidamente apertados por o carro ser só feito para cinco (sem "tralha"), metermo-nos na "bicha" do trânsito, os indispensáveis berros de "meninos estejam calados", "olhem que os pais zangam-se", arranjar lugar para o carro (o parque já está cheio por aqueles que têm famílias menos numerosas e, por isso despacharam-se mais cedo...), etc, etc...

E, nesse dia lá estávamos todos, junto da água, acabados de acordar, e sem termos passado anteriormente pelo tal "calvário normal". Que maravilha! E o carro encostado à tenda! Nem sequer tinha sido necessário caminhar quinhentos metros ou quilómetros com a tralha até à praia!

Que maravilha!




Pelas 11.30, saímos da água, vestimo-nos, e fomos à missa em Alcácer. No regresso, comprámos uma bebidas e pão. O almoço foram umas sandes, feitas na altura, porque ninguém queria almoço, no autêntico sentido do termo, para não ter que se privar de poder estar na água!

Um dia extraordinário! Os miúdos adoraram! Tinham tido os pais consigo, cada minuto desse fim-de-semana! Nós também! Tínhamos estado com eles cada minuto do fim-de-semana!

Tínhamos estado com cada um de nós cada minuto desse fim-de-semana! E as boas experiências são para se repetir!

Estava na altura de mudar de carro. Já tínhamos cinco filhos. Tínhamos uma station R12. No porta bagagens, tinha colocado um banco de trás de um Mini, aumentando a sua "capacidade de sentar", onde três miúdos cabiam na perfeição. Mas não havia espaço para a tal "tralha"... e também sabíamos que não iríamos ficar pelos cinco!

Daí que optámos por comprar uma carrinha Datsun, de nove lugares, em segunda mão. Surgiu uma oportunidade extraordinária, e comprámos uma carrinha com um ano por bastante menos do que estávamos a ter que pensar dar pelo carro que iria substituir o já "tão explorado" R12.

Foi uma festa! Cabíamos todos! E mais: havia todo o espaço para toda "a tralha", as tais dezenas de saquinhos de plástico com "coisas indispensáveis(?)" que não sei ainda porquê aparecem sempre à última hora que temos que ir a qualquer sítio com os miúdos! Mas "prontes"(como agora se diz): o que interessava é que agora os tais sacos de plástico já não eram motivo de discussão: até para eles havia espaço. E como acampávamos "junto da água", não era necessário nenhum camelo para ter que carregar com eles desde o carro até à praia.

Escusado será dizer que continuámos, e continuamos.

Com algumas diferenças:

Já não são cinco filhos, mas doze. Dois já se casaram entretanto. Nalguns fim-de-semana, juntam-se conosco, e com o neto.

Já não é a antiga Datsun, que durante a sua vida passou por diversas transformações para se ir adaptando ao aumento da família. Foi substituída por uma Renault Trafic, que era mais espaçosa, e que cumpriu uma missão de cinco anos.

Neste ano, realizámos o sonho que fomos alimentando desde esse primeiro dia na barragem, e comprámos uma auto-caravana, mas é outra história!

O que é certo é que desde esse tal dia de 1980, desinstalámo-nos, passámos a gozar as férias e fins-de-semana na barragem, levando amigos nossos conosco, passando férias e fins-de-semana ainda mais baratos do que se tivéssemos ficado em casa.

Qualidade de vida (e qualidade de férias) não implica gasto de dinheiro!

Apenas imaginação, desinstalação, vontade de fazer e experimentar, evidentemente gastando-se de acordo com as suas possibilidades. Mas, sobretudo, querer estar uns com os outros, ter a valorização e reforço da família como primeiro objectivo das férias.

Muita gente diz que não gosta de campismo, mas não experimentou. Há milhares de formas de fazer campismo. Uma delas, e infelizmente a que mais se vê, consiste em milhares de pessoas decidirem ir todas viver em tendas ou rolotes, dentro de uma cerca a que chamam parque de campismo, com as tendas todas encostadas umas às outras, de tal modo que, quando se ouve um espirro, não percebemos se foi um filho nosso ou outra pessoa qualquer dentro da tenda ao lado!

Outra forma é procurar-se um sítio tranquilo, a uma distância conveniente de meios de apoio, e acampar-se com um número suficiente de pessoas que garanta um mínimo de segurança. Normalmente, vamos com mais uma família, mas já houve um fim-de-semana em que eram cinquenta!

Enfim, a mensagem é: Boas férias! Usem-nas! Não é preciso gastar muito dinheiro para se ter umas férias tranquilas, repousantes, com a família, onde haja espaço para todos poderem beneficiar desses dias de "recarga". E onde até haja espaço para os tais sacos de plástico com "coisas indispensáveis".