Diário de Notícias, 13 de Abril de 2000

"Já chega de tanta reforma!"

Famílias numerosas vão apresentar hoje uma série de exigências relacionadas com a educação dos seus filhos: em causa estão frequentes mudanças no sistema e "negociata" dos livros escolares


Cadi Fernandes

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MUDANÇA. APFN defende criação de "cartão familiar" que permita às famílias numerosas usufruir de descontos em espectáculos culturais e nos transportes

O casal, jovem, sorria embevecido com a cena: 14 pessoas sentadas à mesa de um restaurante para assinalar o Dia do Pai. Fernando Ribeiro e Castro ainda os ouviu comentar: "Que simpáticos, até trouxeram os sobrinhos para assinalar este dia..." Não era o caso. Tratava-se de um pai, de uma mãe e dos seus 12 filhos. Um episódio caricato, este, semelhante a tantos outros que Ribeiro e Castro guarda na memória. Mas a vida de uma família numerosa (com três e mais filhos) nem sempre é tão "risonha". Do ponto de vista prático, as dificuldades são muitas. No domínio da educação, nomeadamente. E é precisamente este tema - "Família e educação" - que vai estar em debate, hoje, em Lisboa, numa conferência promovida pela Associação Portuguesa de Famílias Numerosas (APFN), criada em 1999.

Ao Ministério da Educação, Fernando Ribeiro e Castro, presidente da APFN, exige a adopção de algumas medidas concretas - "muito simples" - para contrariar uma realidade com efeitos "muito negativos" na vida das famílias numerosas:

- "Acabar de vez com as frequentes reformas de ensino: não aceitamos que os nossos filhos sejam tratados como cobaias. É verdadeiramente impossível podermos acompanhar os estudos dos nossos filhos e melhor os orientarmos na sua carreira escolar, no meio de tanta reforma;

- Acabar de vez com a negociata dos livros escolares. Porque é que têm que mudar de livro de ano para ano, fazendo com que não os possamos passar de um irmão para outro, ou para um primo, ou um amigo? Mais: porque é que os livros escolares têm que ser de "edição de luxo"? Há formas bem mais baratas de elaborar as edições;

- Publicitar a correlação entre classificações dadas pelas escolas e as obtidas pelos mesmos alunos nos exames nacionais, de modo a esclarecer os pais e o País sobre a "taxa de inflação" nas notas praticada por cada escola;

- Fomentar a criação de regimes de "tempo parcial" para as crianças nas creches e estabelecimentos de ensino pré-escolar, de modo a não obrigar a que todas as crianças tenham de lá estar de manhã à noite, mesmo na situação em que um dos pais decidiu "desempregar-se" a fim de melhor acompanhar a educação dos seus filhos. Como é óbvio, nesta situação, bem desejável, de meio-tempo, só se deverá pagar meia mensalidade."

Exigências que serão ouvidas, hoje, na Escola Superior de Enfermagem de SãoVicente de Paulo, por Teresa Gaspar, representante do ministro da Educação, Guilherme d'Oliveira Martins. Em causa, afirma Fernando Ribeiro e Castro, estão os "legítimos interesses" das famílias numerosas.

Outro dos cavalos-de-batalha da APFN é a existência de um "cartão familiar" que permita às famílias numerosas usufruir de descontos, nomeadamente, em espectáculos culturais e nos transportes. Neste contexto, a APFN gostaria que fosse seguido por outras instituições o exemplo do Pavilhão do Conhecimento Ciência Viva (Parque das Nações), que, recentemente, criou o bilhete familiar, sem limite do número de filhos. Nos transportes, o objectivo é a existência de uma espécie de "passe de família", para ser usado fora das horas de ponta e aos fins-de-semana.

Em 1997, segundo dados do Instituto Nacional de Estatística, existiam 255 416 famílias com três e mais filhos (183 183 com três; 50 534 com quatro; 18 928 com cinco; 2771 com seis e mais). Só 13 % do total de famílias, portanto, têm três e mais filhos. Contudo, estas mesmas famílias são responsáveis por 26 % do total dos jovens e crianças do País.

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