Público -
08 Abr
08
A fortuna, o azar e o reflexo
Helena Matos
Os regulamentos evitam que caiamos em tentação, no
dia-a-dia não existe mal nem bem
Podem as criancinhas portuguesas estar descansadas
que não serão mais sujeitas àquelas traumáticas
experiências de as máquinas de bolas não darem
sempre chocolates de igual valor. Se o "cliente não
sabe o que vai sair" estamos, segundo a ASAE,
perante um jogo de fortuna e azar. Nem mais. O
desconchavo deste tipo de argumentação é enorme e
apetece perguntar: donde vieram estas almas? Nunca
fizeram furos nas barracas da Feira Popular? Não
sabem que a graça resultava e resulta exactamente de
poder sair o chocolate maior? Ou de não sair
chocolate algum?
Saber, sabem, mas sabem também que o poder deixou de
ser uma questão de ideologia para se tornar num
exercício de paternalismo. Os governos não governam.
Cuidam de nós. A ASAE não inventa regulamentos,
simplesmente aplica com especial entusiasmo alguns
dos milhares de regulamentos aprovados pelos nossos
governos, regulamentos esses que só não nos tornaram
ainda a vida de todo impossível porque o marasmo vai
imperando nos serviços públicos. Mas esses
regulamentos aí estão à espera que um qualquer
António Nunes lhes pegue.
Como se tal não fosse já suficiente, todos os dias
alguém reivindica ainda mais um regulamento. Por
exemplo, a propósito da violência nas escolas, o
presidente da Confederação Nacional de Associações
de Pais (Confap), Albino Almeida, não fala de filhos
nem de pais, apesar de oficialmente representar
estes últimos e de o próprio Ministério da Educação
contribuir com dezenas de milhares de euros para a
actividade em prol dos pais que a Confap promoverá.
O presidente da Confap fala, sim, de televisão - "Os
ídolos de hoje não são os pais nem os professores.
São aqueles que, numa novela, marcam relações
sexuais por telemóvel dentro de um colégio privado"
-, para logo em seguida exigir que o Estado faça uma
"correcta avaliação" do alvará dos canais de
televisão e que o retire "se preciso for".
Naturalmente a Confap e não sei quantos outros seus
clones integrariam o organismo que faria a "correcta
avaliação" da programação das televisões. E assim o
senhor Albino Almeida poderia dormir descansado: os
seus filhos fariam dele um ídolo porque os episódios
dos Morangos com Açúcar seriam devidamente
supervisionados. Claro que em seguida ter-se-ia de
fazer a "correcta avaliação" da programação das
rádios, o controlo da Internet, das letras das
canções... tudo para que o senhor Albino Almeida não
tivesse de exercer directamente a sua autoridade de
pai e continuasse na sua regulaçãozinha.
Mas se é lastimável que o presidente da Confap
reivindique que o Estado intervenha (ainda mais!)
nas televisões, absolutamente preocupantes são as
declarações do presidente do Supremo Tribunal de
Justiça (STJ), Noronha de Nascimento. Quando
interrogado sobre a violência nas escolas, o
presidente do STJ também optou por não falar da sua
área de poder e saber, preferindo, sim, fazer
considerandos sobre a pobreza, a riqueza e a
distribuição da população no território nacional:
"Se há gente a mais no litoral, se não há emprego,
se fecha a indústria, o que é que a gente nova vai
fazer? Estamos a falar de gente nova, porque não são
as pessoas de 50 ou 60 anos que estão a criar
problemas. O que vão fazer as pessoas que estão a
começar a vida? (...) A escola é um reflexo disto. A
indisciplina vem de fora da escola. As escolas
problemáticas são aquelas cujos alunos vêm de
bairros problemáticos. Não são os alunos
problemáticos das escolas que vão para os bairros. O
problema da escola não é autónomo."
Mais misteriosa do que a incerta data em que os pais
foram os ídolos dos filhos referida por Albino
Almeida é esta "gente nova" que estando a "mais no
litoral" compensa o desemprego batendo nos
professores. Em quantos casos de violência nas
escolas é que os protagonistas vinham de famílias
com problemas económicos? Desde quando é que os
filhos dos desempregados são "problemáticos"? Onde
estão os estudos que o provam?
O Estado socialista que nunca fomos ganhou fastio ao
povo. Se o mar avança pelo litoral a culpa é do
turismo de massas. Se as escolas públicas ensinam
mal e são incapazes de impor disciplina a culpa é da
massificação do ensino. Se o comércio dito
tradicional agoniza a culpa é das massas que
preferem endividar-se nos centros comerciais das
periferias.
As massas não quiseram acompanhar o esforço
revolucionário das elites mas estas vingaram-se bem
da desfeita: acabaram os cursos, vestiram-se a rigor
e ocuparam os lugares que há tanto esperavam por
eles na administração pública e na política. Desde
então não mais cessaram de produzir regulamentos
supostamente apolíticos mas que se imiscuem mais na
vida do povo do que qualquer constituição o fez e
que transformaram os cidadãos numa espécie de
criança-utente que tem o direito e o dever de
esperar que o pai-governo lhe dê subsídios ou
contratos, casinhas ou empreitadas, escolas ou
hospitais. Os regulamentos evitam que caiamos em
tentação, no dia-a-dia não existe mal nem bem, pois
feita a devida ressalva à nossa condição de
contribuintes onde todos somos presumíveis
delinquentes, não passamos dum reflexo, como explica
Noronha de Nascimento.
Os donos dos regulamentos dizem-nos quando começam
os saldos, qual o fim a que se pode destinar um
edifício, arrogam-se o direito de saber quanto custa
o vestida da noiva e o que se comeu no copo-d"água
(a Páscoa e o Ano Novo ficam de fora do
interrogatório até quando?) e agora nem os brindes
de chocolate escapam. Porque não se sabe o que vai
sair - dizem. Pois é, a vida era isso: era não
sabermos o que ia sair. Dos cursos, das paixões, dos
filhos, dos trabalhos... não sabíamos de facto o que
ia sair. E acreditámos que isso era a liberdade.
Jornalista