Público última hora - 17 Abr
08
Fim da lei autárquica
Leonete Botelho
O projecto socialista que põe fim ao divórcio
litigioso e acaba com o conceito de culpa foi ontem
aprovado na generalidade no Parlamento, com os votos
favoráveis da esquerda e os votos contra do CDS e a
esmagadora oposição do PSD. Apesar de ter dado
liberdade de voto aos seus deputados - que resultou
em sete votos a favor e 11 abstenções nas hostes
"laranja" -, a posição oficial dos
sociais-democratas foi contra a proposta do PS.
"Torna-se mais expedita a dissolução do matrimónio
sem acautelar a sua manutenção", criticou Pedro
Santana Lopes, líder da bancada laranja, que
preferiu marcar posição apresentando, ontem mesmo,
cinco projectos de lei com "medidas de apoio à
família". Para isso, repescou alguns projectos
antigos e juntou outros, apresentando um pacote que
inclui uma Lei de Bases da Política da Família, um
projecto sobre os apoios à permanência em casa de
idosos e pessoas com deficiência, o Cartão da
Família e dois projectos de incidência fiscal para
reduzir o impacto de despesas familiares.
No debate, porém, o social-democrata Montalvão
Machado apontou dois "erros" ao projecto do PS
suficientes para a discordância de fundo: a questão
dos créditos de compensação pelo trabalho doméstico
e a decisão de acabar com a culpa no divórcio. No
primeiro caso, Montalvão Machado considera que a
possibilidade de um cônjuge ser "credor do outro"
por ter contribuído mais do que o outro para a vida
familiar vai gerar "um verdadeiro processo de
prestação de contas entre marido e mulher na altura
do divórcio". "Ter-se-á o PS dado conta da
insegurança jurídica que vai nascer, da injustiça
que se vai fazer?", questionou.
"Além do seu emprego, a mulher em Portugal tem ainda
o ónus integral do trabalho doméstico, que na Europa
é compensado com uma pensão compensatória, enquanto
nós só propomos uma compensação no momento da
partilha", explicou o socialista Jorge Strecht. "Que
o senhor não quer reconhecer que alguém deva ver
equacionado o seu esforço no dever de cooperação do
casamento isso é que eu acho estranho", ripostou.
Montalvão Machado considerou também que o conceito
de culpa no divórcio importa "justamente para não
deixar desprotegido aquele que não haja contribuído
para a ruptura", dados os efeitos materiais que a
culpa hoje produz na declaração do divórcio. "Hoje,
o cônjuge culpado não tem direito a alimentos",
lembrou, para apontar que no projecto socialista "o
responsável e autor do divórcio pode obter do outro,
transitória mas renovadamente, uma pensão de
alimentos que não lhe devia ser atribuída".
Pelo CDS, Nuno Melo tentou demonstrar que, afinal, o
PS não acaba com a culpa: "Não é por deixar de se
valorar em termos culposos o adultério, a violência,
os insultos ou a violação de deveres conjugais que
deixará de se ter de fazer a sua demonstração para
que o divórcio sem consentimento de um dos cônjuges
seja possível", afirmou.
Ninguém respondeu pelo PS, mas o líder parlamentar,
Alberto Martins, já tinha deixado claro na
apresentação inicial que "as discussões sobre culpa
e também sobre danos provocados por actos ilícitos
ficam alheias ao processo de divórcio". De facto,
essas discussões são remetidas para outras
instâncias (criminais ou de responsabilidade civil),
mas caberá sempre ao juiz avaliar se as causas
objectivas invocadas por quem pede o divórcio têm ou
não fundamento.
À esquerda as preocupações são outras. Pelo BE,
autor de dois projectos semelhantes já chumbados
pelo PS, Helena Pinto insistiu na necessidade de se
ir mais longe e aceitar o divórcio unilateral, sem
necessidade de haver justificação de motivos - a
exemplo da lei Zapatero. Alberto Martins insistiu na
inconstitucionalidade de tal solução e reafirmou que
o divórcio tem de assentar em causas objectivas.
Já António Filipe (PCP) considerou "um progresso" o
caminho trilhado pelo PS, mas alertou para a
necessidade de "apreciação cuidada" dos efeitos
patrimoniais do divórcio. "Não se deve criar uma
situação em que um cônjuge economicamente mais
favorecido coloque o outro numa situação de
vulnerabilidade", defendeu.