Diário de Notícias -
28 Abr
08
O fantasma da fome global
João César das Neves
A subida mundial dos preços alimentares é um tema
dramático. Os jornais trazem previsões aterradoras e
notícias de revoltas populares contra o preço da
comida. Regressam os medos de fome global, 200 anos
após Malthus. Para lá das vulgarizações mediáticas,
as médias mensais mundiais publicadas pelo FMI (www.imf.org/external/np/res/commod
/index.asp) mantêm-se preocupantes.
Desde o início de 2007 até ao mês passado o preço do
trigo aumentou 124%, o do arroz 85% e o do milho
41%. A subida não é só de cereais, porque o azeite
aumentou 90%, óleos de soja e de palma 108%, banana
61%, laranja 54%, cacau 56% e café 52%. A energia
também está muito cara, com o carvão a subir 140% e
o petróleo 90%, como os metais: chumbo 81%, ferro
66%, cobre 48%.
Curiosamente, os preços que mais caíram são
alimentares: carnes de vaca e porco desceram 10%, a
média do peixe 7%, camarão 15% e o chá 1%. Mas as
subidas são impressionantes. No arroz e trigo, os
bens mais sensíveis, os aumentos são os maiores dos
últimos 25 anos. Os efeitos são já dramáticos, com a
fome a surgir em certos locais.
A comida naturalmente apaixona o mundo e os
especialistas, gerando teorias contraditórias. A
tese de Malthus em 1798 previa escassez e carestia
crescentes. Esta ideia, depois rejeitada, renasceu
nos movimentos ecologistas. Entretanto surgiu uma
teoria com a consequência oposta. A "tese
Singer-Prebish" de 1950 supunha uma "degradação dos
termos de troca", com os preços das matérias-primas
a descer face aos produtos industriais, o que
exploraria os países pobres.
A verdade é que os preços dos alimentos sofrem
muitos e complexos impactos. Se os limites físicos e
ambientais serão sempre determinantes, como disse
Malthus, as impressionantes melhorias tecnológicas
nas culturas e detecção de jazidas contrariam esses
limites. O resultado tem sido uma flutuação intensa
sem tendências seculares definidas.
Qual a origem deste surto altista? Uma causa
imediata é a queda do dólar. Em euros, as subidas
são bem menores (trigo 88%, arroz 55% e milho 19%)
mas ainda significativas e no trigo mantêm-se as
mais elevadas no registo. Por outro lado, descontada
a inflação, os preços, mesmo em dólares, ainda estão
bastante abaixo dos valores do início dos anos 80.
As matérias-primas registaram uma tendência
decrescente nas últimas décadas, agora invertida. O
fantasma global ainda vem longe.
A atenção mediática centra-se em alguns efeitos
pontuais. Nervosismo internacional, maus anos
agrícolas e instabilidade sociopolítica local hão-de
passar.
Também a famigerada especulação, supostamente
dominante, só de vez em quando surge para ficar com
as culpas.
Muito mais importantes são as duas forças decisivas:
o mercado e a lei. A razão principal desta situação
é algo excelente: o recente desenvolvimento das
regiões pobres aumentou a procura de alimentos. Isso
significa que a fome está a descer, não a subir.
Curiosamente, agora que os preços alimentares estão
altos, os activistas protestam em nome dos pobres
consumidores, enquanto antes, quando estavam baixos,
protestavam em nome dos pobres produtores. Como
sempre, a subida de preços criará a correcção de
mercado. Novos investimentos nesses sectores,
desencorajados nos anos de preços baixos, tenderão a
prazo a reduzir a carestia.
Se a política o deixar, claro. Os mercados agrícolas
e alimentares são dos mais espartilhados e
regulamentados. Os governos, convencidos que apoiam
e promovem, criam enormes bloqueios e distorções, de
que a política agrícola europeia é um exemplo
terrível. As negociações globais de liberalização da
Organização Mundial do Comércio estão moribundas
sobretudo por causa do dossiê agrícola. Às pressões
rurais juntaram-se agora as ambientais, com a opção
pelo biodiesel a justificar novas manipulações.
Desde o tempo de Malthus que as boas intenções
políticas, impedindo importações e manipulando
preços, geram episódios de escassez.
A melhor solução para a carestia seria a
liberalização.
Mas como a comida apaixona o mundo, não há grandes
esperanças.