Diário de Notícias - 28 de Agosto

A "chave" do sucesso escolar

Algumas escolas justificam que, por trás de cada projecto educativo, há "tradições" que ajudam. Outras justificam o fracasso

Leonor Figueiredo

Joana de Belém

José Manuel Oliveira

AVALIAÇÕES. Há muitas razões possíveis para umas escolas secundárias terem melhores médias que outras

Porque razão os alunos de determinadas escolas têm melhores médias? Se alguém pensar que este sucesso se deve apenas à qualidade dos professores, está redondamente enganado. Por detrás está todo um projecto educativo, com "truques" que podem ser a chave de tão bons resultados. O DN falou com directores que nos explicam porque obtiveram as maiores médias.

A directora do Colégio Mira Rio, no Restelo, Lúcia Alves Mendes, que pela lista do DN conseguiu o 2º melhor posicionamento nacional, e o 1º lugar em Lisboa (em médias no ensino secundário), disse ao nosso jornal que "a razão está na criação de hábitos de trabalho, de estudo, de saber pensar. E isto quem faz são a escola e os pais". Algumas particularidades estão, porém, associadas a este colégio. A maior parte dos seus alunos frequentam-no desde os três anos de idade e depois continuam a escolaridade naquele estabelecimento. Mas, a partir do 1º ano, só aceitam raparigas porque, segundo a directora, "o rendimento é superior se as raparigas estiverem separadas dos rapazes. O seu esquema de pensar é diferente". 

A criação de "perceptoras" e "monitoras" é outra das bases do seu funcionamento. "É obrigatório que cada aluna tenha a sua perceptora, que é docente e estabelece a relação com os pais. A perceptora está informada sobre tudo o que se refere à aluna, como estão as coisas a correr", sublinha a responsável. E neste colégio, onde "toda a gente sabe quem é quem", há ainda a figura da "monitora", normalmente uma boa aluna que acompanha em determinadas disciplinas, outras alunas mais fracas".

Uma das tradições do Colégio Mira Rio é a meia-hora livre todas as manhãs, que serve para o aluno estudar o que quer. "Neste período as monitoras ajudam as mais "fracas", ou as alunas escolhem como ocupar estes 30 minutos. Assim gerem o seu tempo".

Um bom relacionamento "e intenso" com os pais é outra das linhas que o colégio privilegia, assim como a estabilidade do corpo docente. "Não formamos gente para a universidade, mas para a sociedade", salienta Lúcia Alves Mendes, frisando que "incentivamos os alunos a não serem médios, mas a brilharem numa das áreas, sem cultivar o perfil do "marrão" que põe os estudos acima de tudo. Queremos que os alunos saiam daqui bons e úteis cidadãos".

A escola dos Salesianos do Estoril obtém também, tradicionalmente, bons resultados. Este ano ficaram em 7º lugar a nível nacional e foram os quartos melhores no distrito de Lisboa. "A nossa pedra basilar é o espírito positivo", refere, ao DN, o padre David Bernardo, director pedagógico da Escola Salesiana de Santo António.

Também nos Salesianos a maioria dos alunos entra aos três anos de idade para a secção infantil e depois prossegue na primária e no 1º ciclo, sendo o corpo docente "bastante bom e estável". 

Para o padre David Bernardo a palavra de ordem da casa é "olhar para o futuro, pensar que o trabalho dignifica e saber que é bom viver a vida com qualidade".

"Triste e surpreendida". Foi este o sentimento expresso ao DN por Ana Maria Menezes, presidente do Conselho Executivo da Escola Secundária Padre António Martins Oliveira, de Lagoa, uma das que obteve a 71ª. posição no ranking dos cem estabelecimentos de ensino do país com piores médias.

Para esta responsável, tal é "chocante", na medida em que "temos belíssimos professores de carreira, sendo esta a quarta melhor escola do Algarve a esse nível".

Em seu entender, o sector da hotelaria "vive muito à custa de estudantes das escolas secundárias", o que provoca uma "desmotivação muita grande" pelo ensino em Maio ou Junho, devido aos salários que podem auferir no mercado de trabalho com contratos até finais de Setembro. 

A ideia de "facilitismo" no ensino foi outra das justificações encontradas por Ana Maria Menezes para a má classificação daquele estabelecimento, impondo-se agora uma "reflexão" tendente a "alterar esta situação". 

A escola secundária Carolina Michaellis, no Porto, não foi a escola mais bem posicionada no ranking das cem melhores mas ocupa o 16º lugar da lista, tendo conseguido bons resultados de aproximação entre a classificação interna de frequência e a nota de exame.

Para Justiniano Santos, presidente do Conselho Directivo, isto significa que "há uma correspondência razoável entre a prática lectiva no que diz respeito aos objectivos e conteúdos, da qual o exame nacional é um bom aferidor".

"Nesta escola não se pratica inflação de notas", garante Justiniano Santos, explicando desta forma a ligeira disparidade entre classificações. Com uma média de disciplinas de 12,6 valores, o diferencial entre as duas notas é bastante animador.

No extremo oposto, apresentando enormes disparidades entre as notas de frequência e a nota de exame, na ordem dos 7,4 valores negativos, encontra-se o Externato Nossa Senhora do Perpétuo Socorro. Uma diferença abismal à qual o DN não conseguiu obter nenhum comentário da direcção, que se encontra de férias.

Isolamento penaliza os alunos

Os acessos que servem Pampilhosa da Serra penalizam duplamente os alunos da única escola com ensino secundário deste concelho do distrito de Coimbra _ uma das piores classificadas nos exames nacionais do 12.º ano. O presidente do conselho directivo da Escola Básica Integrada de Pampilhosa da Serra disse à Lusa discordar das estatísticas do Ministério da Educação, sustentando que "os dados são viciados à partida", porque não consideram especificidades de cada escola. "Temos poucos alunos, se a um exame forem dois e um obtiver negativa, ficaremos com um resultado de 50 por cento de chumbos", disse. 

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