Diário de Notícias - 29 Ago 05

 

Armadilha do moralismo antimoralista

João César das Neves

 

Vivemos num tempo de liberdade e abertura que deplora o moralismo e o reprime. À menor suspeita. Cada um faz consigo o que quer e ninguém tem nada com isso. Sendo isto verdade, só o é em parte, porque vivemos também num dos tempos mais moralistas de sempre. Sem dar por isso, boa parte das pessoas que rejeitam o moralismo praticam-no habitualmente.

O moralismo é um vício terrível, que perverte a verdadeira moral e deve ser sempre condenado. Trata-se da imposição, a si ou a outros, de uma regra ética dura e abstracta num juízo exterior e artificial, com rigidez e sem ligar a intenções, circunstâncias e enquadramento. Pior quando aquele que julga não tem o direito de o fazer, e pior ainda se a regra é tonta e arbitrária.

Nas questões religiosas é onde, normalmente, o moralismo surge com maior intensidade. Cristo denunciou com clareza esse terrível defeito, lutando incansavelmente contra o moralismo dos fariseus. Mas hoje o maior moralismo sente-se sobretudo nos que se opõem às religiões. Atacando a fé por a considerarem moralista, os laicistas não notam que são eles mesmos a cair nesse abuso. A proibição do véu islâmico nas escolas francesas, por exemplo, é uma forma de moralismo boçal que se julgava extinta há muito.

No entanto, surpreendentemente, é fora dos temas religiosos que hoje se encontra o maior moralismo. Qualquer defesa da família, da honra, da herança cultural é silenciada como moralista. Mas moralismos de sinal contrário prosperam um pouco por toda a parte.

Muitos jovens, que tanto se queixam do moralismo dos mais velhos, caem eles no mesmo, ao desprezarem o modo de vida de seus pais e tomarem o seu código de conduta, radical e descomprometido, como a única forma válida de viver. Muitos jovens hoje desprezam a sociedade e o capitalismo, ralhando ao mundo com a severidade de velhas resmungonas.

O moralismo surge também nas muitas causas que se defendem com ardor. Grande parte dos movimentos radicais antiglobalização, de libertação sexual, ecologistas ou antiamericanos padecem desse mal. A intolerância moralista chega até a extremos patéticos no combate ao fumo e à obesidade.

Talvez o máximo do moralismo se encontre, porém, nos partidos de extrema esquerda. Julgando-se inovadores e revolucionários, eles estão de facto presos num juízo tacanho que os fecha numa visão limitada e rígida. Aliás, no panorama português, co-existem nessa área lado-a-lado os dois tipos mais marcante do género o "moralista triunfante" e o "moralista acossado".

O Partido Comunista tem um código férreo, global e totalitário de consideração da realidade. Qualquer outra maneira de ver o mundo é burguesa, reaccionária, alienante. Deste modo, o marxismo nasceu como um dos moralismos mais asfixiantes de todos os tempos. Durante o século XX, ele considerou- -se como a visão do futuro, o modelo definitivo, a verdade absoluta. Era a fase do moralismo triunfante, em que o fariseu confia arrogantemente na imposição próxima do seu sistema a todos. A partir de 1989 deu-se a derrocada. Hoje os comunistas continuam tão fiéis e dedicados como sempre, mas sabem que são uma minoria em decadência. Continuam moralistas, condenando os que pensam de forma diferente. Mas estão orgulhosamente sós. É o moralismo acossado.

Quem ocupou o seu lugar na fase de moralismo triunfante foi o Bloco de Esquerda. Trata-se, sem dúvida, do movimento mais moralista da sociedade portuguesa contemporânea. Não há assunto em que não tenha sentenças para outorgar. E sempre de condenação. Os dirigentes do Bloco, dizendo-se jovens, insolentes e atrevidos, têm perante a sociedade, o sistema económico e, em geral, o mundo moderno, uma atitude de comadre indignada, a quem nada satisfaz. Basta verem um microfone para desti- larem nova censura.

O moralismo, caricatura da moral, é uma armadilha perigosa, que se insinua onde menos se espera. Por isso tantos caem nela sem reparar. Talvez até seja bom pedir desculpa, por este artigo poder ser tomado como um pouco moralista.

 

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