Armadilha do moralismo
antimoralista
João César das Neves
Vivemos num tempo de
liberdade e abertura que deplora o moralismo e o reprime. À
menor suspeita. Cada um faz consigo o que quer e ninguém tem
nada com isso. Sendo isto verdade, só o é em parte, porque
vivemos também num dos tempos mais moralistas de sempre. Sem
dar por isso, boa parte das pessoas que rejeitam o moralismo
praticam-no habitualmente.
O moralismo é um vício terrível, que perverte a verdadeira
moral e deve ser sempre condenado. Trata-se da imposição, a
si ou a outros, de uma regra ética dura e abstracta num
juízo exterior e artificial, com rigidez e sem ligar a
intenções, circunstâncias e enquadramento. Pior quando
aquele que julga não tem o direito de o fazer, e pior ainda
se a regra é tonta e arbitrária.
Nas questões religiosas é onde, normalmente, o moralismo
surge com maior intensidade. Cristo denunciou com clareza
esse terrível defeito, lutando incansavelmente contra o
moralismo dos fariseus. Mas hoje o maior moralismo sente-se
sobretudo nos que se opõem às religiões. Atacando a fé por a
considerarem moralista, os laicistas não notam que são eles
mesmos a cair nesse abuso. A proibição do véu islâmico nas
escolas francesas, por exemplo, é uma forma de moralismo
boçal que se julgava extinta há muito.
No entanto, surpreendentemente, é fora dos temas religiosos
que hoje se encontra o maior moralismo. Qualquer defesa da
família, da honra, da herança cultural é silenciada como
moralista. Mas moralismos de sinal contrário prosperam um
pouco por toda a parte.
Muitos jovens, que tanto se queixam do moralismo dos mais
velhos, caem eles no mesmo, ao desprezarem o modo de vida de
seus pais e tomarem o seu código de conduta, radical e
descomprometido, como a única forma válida de viver. Muitos
jovens hoje desprezam a sociedade e o capitalismo, ralhando
ao mundo com a severidade de velhas resmungonas.
O moralismo surge também nas muitas causas que se defendem
com ardor. Grande parte dos movimentos radicais
antiglobalização, de libertação sexual, ecologistas ou
antiamericanos padecem desse mal. A intolerância moralista
chega até a extremos patéticos no combate ao fumo e à
obesidade.
Talvez o máximo do moralismo se encontre, porém, nos
partidos de extrema esquerda. Julgando-se inovadores e
revolucionários, eles estão de facto presos num juízo
tacanho que os fecha numa visão limitada e rígida. Aliás, no
panorama português, co-existem nessa área lado-a-lado os
dois tipos mais marcante do género o "moralista triunfante"
e o "moralista acossado".
O Partido Comunista tem um código férreo, global e
totalitário de consideração da realidade. Qualquer outra
maneira de ver o mundo é burguesa, reaccionária, alienante.
Deste modo, o marxismo nasceu como um dos moralismos mais
asfixiantes de todos os tempos. Durante o século XX, ele
considerou- -se como a visão do futuro, o modelo definitivo,
a verdade absoluta. Era a fase do moralismo triunfante, em
que o fariseu confia arrogantemente na imposição próxima do
seu sistema a todos. A partir de 1989 deu-se a derrocada.
Hoje os comunistas continuam tão fiéis e dedicados como
sempre, mas sabem que são uma minoria em decadência.
Continuam moralistas, condenando os que pensam de forma
diferente. Mas estão orgulhosamente sós. É o moralismo
acossado.
Quem ocupou o seu lugar na fase de moralismo triunfante foi
o Bloco de Esquerda. Trata-se, sem dúvida, do movimento mais
moralista da sociedade portuguesa contemporânea. Não há
assunto em que não tenha sentenças para outorgar. E sempre
de condenação. Os dirigentes do Bloco, dizendo-se jovens,
insolentes e atrevidos, têm perante a sociedade, o sistema
económico e, em geral, o mundo moderno, uma atitude de
comadre indignada, a quem nada satisfaz. Basta verem um
microfone para desti- larem nova censura.
O moralismo, caricatura da moral, é uma armadilha perigosa,
que se insinua onde menos se espera. Por isso tantos caem
nela sem reparar. Talvez até seja bom pedir desculpa, por
este artigo poder ser tomado como um pouco moralista.