Correio da Manhã - 31 Ago 05

 

350 euros por aluno
Escola: início do ano lectivo custa às famílias 490 milhões

Tiago Sousa Dias

Os livros e o material escolar estão mais caros e as famílias têm de abrir os cordões à bolsa

As famílias portuguesas vão gastar, este ano, cerca de 490 milhões de euros na compra de livros e restante material escolar para os quase 1,4 milhões de alunos matriculados nos ensinos básico e secundário, o que dá uma média de 350 euros por estudante. Um valor próximo ao salário mínimo nacional (374 euros).

Pelos dados recolhidos junto das principais livrarias e papelarias, e confirmados pelas associações de pais e de famílias, trata-se do regresso às aulas mais caro de sempre.

Dois factores contribuem para esta situação: o preço dos livros, que estão mais caros 5 a 10 por cento do que no ano passado, ou seja, um aumento acima do dobro da inflação (2,1 por cento); e a subida da taxa do IVA, que afecta todo o material, desde os cadernos às mochilas ou aos compassos, para além das habituais correcções impostas pela inflação. Para as famílias, estamos perante um escandaloso exagero.

Estes dados reflectem contas feitas por baixo porque, em nossa opinião, a maioria das famílias vai gastar mais de 350 euros por cada filho, em tudo o que implica o início das aulas, o que para muitas representa um esforço titânico, disse ao Correio da Manhã Carlos Aguiar Gomes, professor e presidente da Associação de Famílias.

Sendo certo que, para o primeiro ano de escolaridade, a despesa ronda os 150 euros. Em alguns cursos do secundário a factura pode subir até aos 700 euros.

PAGAMANETOS EM PRESTAÇÕES

Para amenizar o choque financeiro que o regresso às aulas representa para boa parte das famílias portuguesas, muitas optam por fazer encomendas em finais de Junho, logo que têm conhecimento da lista de manuais, e ir à livraria buscar a remessa em três vezes.

Temos muitos casos de pessoas que encomendam os livros, que é o que mais pesa no total dos gastos, e vêm buscar alguns em Junho, outros em Julho e os restantes agora em finais de Agosto, disse ao CM Rui Sá, da livraria Bragabooks.

Quanto aos preços, este livreiro confirma que os aumentos, este ano, foram muito pesados, já que vão dos 30 cêntimos em livros do primeiro ciclo do básico, até dois euros em alguns livros do secundário. Relativamente ao material escolar, fonte da Staples disse ao CM que os preços são os mesmos, mais os dois por cento do IVA.

"O ESTADO ROUBA AS FAMÍLIAS"

O presidente da Associação das Famílias Numerosas (AFN) considera que os preços exorbitantes dos livros escolares, que todos os anos têm de ser comprados, são um autêntico assalto que o Estado faz às famílias portuguesas. Fernando Ribeiro e Castro diz que, nesta questão do ensino, o Governo está mais preocupado com o sucesso da indústria educativa que gravita à volta do Ministério dito da Educação, do que com a saúde financeira das famílias. Um dos aspectos mais criticados pela AFN prende-se com o facto de os livros escolares não poderem ser reutilizados, sublinhando Fernando Ribeiro e Castro que é inconcebível que se façam manuais para serem gastos em apenas um ano. O presidente da AFN lembra que o Governo anterior preparou um diploma que, embora não sendo óptimo, já ajudava e que este Governo, incompreensivelmente, meteu-o na gaveta.

COMEÇOU A CORRIDA AOS HIPERMERCADOS

Apesar de ser dia da semana, a tarde de ontem foi bastante concorrida nos hipermercados da região de Lisboa visitados pelo CM. O período de férias conjugado com o fim do mês e com o fim-de-semana deverá aumentar a afluência aos espaços comerciais, que apostam sobretudo nas campanhas de regresso às aulas.

Luísa Santos, de Camarate, ainda não comprou todo o material escolar para os filhos. Tem de ir aos poucos, porque gasta-se muito dinheiro, conta à porta de um hiper de Telheiras. Tem dois filhos a estudar um no 7.º ano e a filha no 11.º. Já gastei uns 50 euros, os livros é que vai ser pior, deve custar tudo uns 250 euros ou mais, frisa. O filho João vai repetir o ano mas com manuais diferentes. Deviam dar de uns anos para os outros, reclama Luísa Santos.

Numa ronda por alguns hipermercados da região de Lisboa, encontram-se ofertas para todas as bolsas. As mochilas variam entre os 3,49 e os 35,90, mas o que está na moda são os trolley os mais caros ultrapassam os 50 euros. Os cadernos mais baratos custam 0,35 euros (A5), 0,49 (A4) e 1,69 (A3 cavalinho). Se aos cadernos juntarmos as etiquetas, saiba que 60 pequenos autocolantes custam 64 cêntimos. Um conjunto de 12 lápis compra-se por 1,53 e pode-se adquirir um conjunto de afia e duas borrachas por 0,59. Os dicionários também são necessários um bilingue Inglês/Português custa 13,23. E para conhecer o Mundo, um globo iluminado pode custar 18,99 euros. No total, conte sempre com umas largas dezenas de euros, só para equipar o seu filho.

CUSTOS ELEVADOS

CIÊNCIA E ARTES

Estas são as áreas, ao nível do Ensino Secundário, que mais entram aos bolsos dos pais. Por um lado os manuais são mais caros e, por outro, o gasto em materiais é incomparavelmente superior às outras áreas. Em Belas Artes, por exemplo, o regresso às aulas pode chegar ou até ultrapassar os 900 euros.

O SUBSÍDIO DE FÉRIAS

Para as famílias numerosas, com cinco ou mais filhos a estudar, o início do ano lectivo provoca uma autêntico rombo orçamental. Apesar de comprarem em quantidade e, logo, a preços mais baixos, há casos em que a factura é superior a 1.500 euros. E o que vale é o dinheiro do subsídio que devia ser das férias.

PRIVADOS DE LUXO

É certo que são só para quem pode, mas não pode deixar de referir-se que os colégios privados fazem aumentar, pelo menos para o dobro, o custo do regresso às aulas. É que, para além dos livros e todo o material, os pais têm de pagar, já em Setembro, a matrícula e a primeira mensalidade. Tudo junto pode superar os 850 euros.

 

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