Público -
30 Ago
08
Apoio aos mais pobres paga livros mas não
material escolar
Andreia Sanches
As famílias carenciadas recebem até 12,5 euros para
material escolar, mas o custo do cabaz é maior.
Por vezes as escolas exigem de mais, dizem os pais
Réguas, marcadores, borrachas, mochilas - as que têm
a marca da série Morangos com Açúcar são
especialmente populares. E contas de cabeça. Muitas.
Ana Dias, 33 anos, doméstica, tem dois filhos no 1.º
ciclo do ensino básico e não precisa de máquina de
calcular: "Em livros vou gastar cerca de 40 euros...
Não sei se são todos obrigatórios, são os que me
pediram. Duas mochilas custaram 30 euros. Agora,
falta o resto do material escolar."
Feitas as contas a tudo o que acha que os dois
filhos precisam, conta gastar 150 euros. "É muito",
desabafa, enquanto caminha com as crianças eufóricas
por um dos múltiplos corredores dedicados ao
"regresso às aulas" no Continente, no Centro
Comercial Colombo, em Lisboa.
Não é a única. O ano lectivo começa entre 10 e 15 de
Setembro, mas os pais já começaram a prepará-lo.
Muitos aproveitam o que resta das férias para
investir tempo (e dinheiro) nas negociações com os
miúdos: compra-se este caderno de capa preta, a 58
cêntimos? Ou aquele que tem o desenho de uma aranha,
é muito mais colorido, mas custa 2,49 euros?
De acordo com o novo diploma que rege a acção social
escolar publicado este mês - e que permitirá,
segundo o Governo, que o número de alunos apoiados
tenha o maior aumento de sempre e atinja os 711 mil
-, as famílias mais carenciadas (as que pertencem ao
escalão A) têm direito a entre 100 e 140 euros para
a compra de manuais (conforme o ano de escolaridade)
e a entre 11 e 12,50 euros para comprar material
escolar. Quem está no escalão B tem direito a cerca
de metade.
O objectivo Governo, lê-se no diploma, é dar mais um
passo no sentido da "progressiva gratuitidade dos
manuais escolares do ensino básico para os alunos de
famílias carenciadas". Será que chega?
O assessor de imprensa do Ministério da Educação
(ME), Rui Nunes, faz saber que as quantias fixas
para as famílias mais pobres para compra de livros
"só são ultrapassadas com a aquisição dos manuais de
Educação Física, Educação Visual e Tecnológica e
Educação Musical, dos 5.º e 7.º anos".
A Associação Portuguesa de Editores e Livreiros (APEL)
não divulgou ainda o custo médio do cabaz dos
manuais escolares obrigatórios para cada ano de
escolaridade. Mas tendo em conta os valores médios
apresentados no ano passado e os aumentos permitidos
para este, estima-se que um aluno do 2.º ciclo
precise de, em média, 80 euros para comprar os
manuais essenciais. E no 3.º ciclo de 137 euros.
Estes montantes não incluem o custo dos livros de
fichas. Nem dos manuais de Educação Musical,
Educação Física e Educação Visual - que só deixarão
de ser obrigatórios em 2010, mas que, segundo a APEL,
poucos alunos compram. E também ocultam o facto de,
dentro de cada ciclo, haver grandes oscilações de
ano de escolaridade para ano de escolaridade.
Já no ensino secundário é mais difícil fazer contas.
A APEL não costuma divulgar o custo do "cabaz médio"
neste nível de ensino face ao grande número de
disciplinas e de títulos no mercado.
20 euros em cadernos/afins
As famílias mais pobres com filhos no 10.º, 11.º ou
12.º anos receberão 120 euros de apoio. Vasco
Teixeira, da APEL, admite que o custo com manuais do
secundário possa atingir até 180 euros. Rui Nunes
lembra que "o Governo propõe-se garantir a
gratuitidade dos manuais para os alunos das famílias
mais carenciadas a frequentar a escolaridade
obrigatória" e o "12.º ano está já fora da
escolaridade obrigatória".
No que diz respeito ao material escolar, os apoios
do Estado (até 12,5 euros para as famílias mais
pobres) são uma ajuda, mas ficam aquém do que a
generalidade dos pais gastará. O PÚBLICO apresentou
no Continente duas listas: uma com o material que
uma escola pediu a um aluno do 1.º ano, do 1.º
ciclo; outra com o que foi pedido a um aluno do 9.º
ano.
Pediu ajuda a um funcionário da loja e escolheu os
produtos mais baratos, o que significa em muitos
casos marcas da casa.
Para lápis, canetas, cadernos, blocos, pastas e
afins seriam necessários, no primeiro caso, cerca de
20 euros; e no segundo 21 euros. Este cabaz exclui
os cobiçados cadernos "das marcas da moda" e na hora
de escolher a máquina de calcular pedida ao
estudante do 9.º ano, optou-se por uma de bolso, só
com as funções básicas. Também faltam a mochila, o
dicionário, o papel de lustro para os trabalhos
manuais dos mais pequenos, as tintas e tudo o mais
que, diz quem sabe, pode por vezes ser pedido pelos
professores. "As escolas pedem tudo e mais alguma
coisa", queixa-se Ana Dias. Facilmente as despesas
disparam.
"Mania das grandezas"
"Algumas escolas são muito exigentes e têm a mania
das grandezas", admite Albino Almeida, presidente da
Confederação Nacional das Associação de Pais. "Por
exemplo, nos materiais para Educação Visual: é o
compasso que tem que ser da marca não sei quantos, a
tinta da outra marca, quando por vezes há mais
barato..."
Mas para além das exigências das escolas, há as das
crianças. "Os cadernos com os bonecos são os mais
caros", diz Isabel Ferreira, 39 anos, professora,
duas filhas. "Mas elas preferem cadernos com bonecos
e como é para o ano inteiro..." Concede.
Isabel Ferreira tem uma filha no 7.º ano e outra no
10.º. Só em manuais escolares diz já ter gasto cerca
de 400 euros - já com o desconto de 15 por cento a
que têm direito os professores. "Mais de metade foi
com os livros do 10.º ano."
Pelas duas mochilas e restante material diz que não
gastará menos de 150 euros. "Sei que podia poupar
mais." Podia, por exemplo, pedir livros emprestados
a colegas, explica. Mas falta-lhe a coragem. "Acho
que elas merecem livros novos." A ideia é esta: com
cadernos bonitos e livros a estrear, o ano só pode
correr melhor.
