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Diário de Notícias - 2 de Dezembro
O fim anunciado das "ligeiras prestações mensais"
JOÃO CEPEDA
Sem dinheiro nem esperança. O consumidor português despertou para a crise quando o peso da dívida - convertida em "ligeiras prestações mensais" - já se tinha tornado insuportável. Agora, independentemente da profissão, do salário, do nível de estudos ou da idade, a esmagadora maioria das pessoas adivinha momentos de aperto e reconhece que a conjuntura não dá sequer para poupar.
A prova está nos números. Quase dois terços dos inquiridos no último estudo do Instituto Nacional de Estatística garantem que a hipótese de mudar de casa ou comprar carro está completamente arredada dos planos para curto prazo. "De certeza absoluta" que não, é a resposta escolhida por mais de 60 por cento. "Provavelmente não", acrescentam outros 30 por cento. Por contraste, não chega a um por cento o número dos que realmente considera investir nesses bens. Afinal, os primeiros na extensa lista de consumo que o crédito veio permitir.
Curiosamente, os dados não apresentam grandes disparidades consoante as diferenças de rendimento, nem tão pouco as variáveis sócio-demográficas em que são divididos. Dos agricultores aos quadros superiores, passando pelos operários e desempregados, a tendência para apertar o cinto é geral. As únicas disparidades registam-se ao nível das idades (com o escalão mais jovem, entre os 16 e os 29 anos, a mostrar mais disponibiidade para investir, sobretudo no que toca a comprar automóvel); e no sexo, onde se pode notar que as mulheres são (ainda) mais poupadas que os homens.
São os sintomas de que a euforia de 1999 vai longe. Ao prato da balança onde se acumulam as facilidades jurídicas, os benefícios fiscais, o marketing, a publicidade e, claro, o postal ilustrado de uma vida melhor, contrapõe-se agora a brutal redução do rendimento disponível.
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