Diário de Notícias - 2 de Dezembro

"O Ocidente deixou-se embalar pela tecnologia"
FILOMENA NAVES

Auguravam-lhe uma carreira brilhante como cientista. Quando terminou o doutoramento, em 1972, com o Nobel François Jacob por patrono e a biologia molecular em plena explosão, o seu rumo parecia traçado. Mas não foi assim. No mesmo ano em que se doutorou, Matthieu Ricard decidiu tornar-se monge. Abraçava o budismo tibetano e seguia os passos de um mestre e lama refugiado no Nepal, fugido do Tibete ocupado. Mas o que levou o jovem Matthieu Ricard a escolher, há 29 anos, um caminho aparentemente oposto daquele que parecia ser o seu percurso natural?

"Foi uma continuação do que já iniciara", explica. Queria acima de tudo "tentar compreender a origem do universo, da vida e de como tudo funciona, incluindo o corpo e o espírito humanos. A etapa seguinte era perguntar-me: quem sou? Qual é o sentido da existência? Qual é a natureza última do espírito?"

Entre 1962 e 1972, através de leituras e das viagens que todos os anos fazia à Índia, deu-se conta de que na ciência, à excepção das descobertas excepcionais, "passa-se muito tempo numa dispersão horizontal". Ao longo da vida "contribui-se, quando muito, com mais um gotinha para o todo". E depois, o que realmente pretendia "era conhecer a natureza do espírito e o sentido da existência". A ciência não aspira a esse conhecimento. A abordagem espiritual e filosófica tornou-se o mais importante.

Não diminui, no entanto, o valor ao método científico. "Tanto melhor se compreendermos os fenómenos do mundo físico à luz da ciência", diz, "mas para mim não é indispensável. Dar sentido à existência é".

No Ocidente, diz Matthieu, "deixámo-nos embalar" pela tecnologia. "Esquecemos a distinção entre o que é essencial e o conhecimento, sem dúvida apaixonante, mas não necessariamente indispensável, do mundo físico".

E se a sociedade do sucesso se perdeu do essencial no dia-a-dia frenético subordinado à produção (também de conhecimentos), o seu sistema de educação é o espelho desta forma de viver "civilizada", que oscila sem controlo entre a necessidade acéfala de acumular bens e o desperdício irrespeitoso. Com simplicidade, o monge põe o dedo na ferida: "Estuda-se filosofia a partir dos 15 anos, mas já é um pouco tarde para se iniciar a reflexão sobre o sentido da existência. Devia-se começar muito cedo a reflectir sobre o que se quer da vida. Não apenas sobre o diploma a tirar ou a profissão a escolher, mas sobre o que fazer para tornar a vida rica e plena, para o bem próprio e dos outros. As crianças colocam-se estas questões muito cedo, mas o sistema educativo não tem qualquer resposta para elas".

Na sua visão, está aqui a grande falha do Ocidente: a falta de respostas para as grandes perguntas. No budismo tibetano, algo essencial, por exemplo, é a igualdade entre todos os seres sem excepção, que têm em comum a procura da felicidade e do bem-estar. "Não apenas do bem-estar físico, mas total. Todas as relações entre um ser e os outros deveriam ser condicionadas por esta igualdade fundamental. A vida para cada um nós, e para cada animal, mesmo um pequeno verme, é o dom mais precioso, ainda que não lhe seja possível formulá-lo intelectualmente".

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