Diário de Notícias - 31 de Dezembro

A derrota da ciência

Passa hoje um aniversário memorável, os dez anos do desaparecimento da União Soviética. Para muitos, essa efeméride simboliza apenas o fim de uma tirania e a vitória da liberdade e do desenvolvimento. Mas, além do triunfalismo natural, existe uma outra lição, muito mais preciosa, dessa experiência. E ela fala-nos dos perigos sérios que hoje nos espreitam.

A URSS não foi apenas o paroxismo do comunismo, o apogeu da burocracia ou "o império do mal". Ela foi também a consumação de um grande sonho da humanidade.

A União Soviética pretendeu ser, antes de mais, a primeira sociedade totalmente controlada pela ciência moderna. Usando as técnicas mais sofisticadas da política, economia e sociologia da época, pretendia-se planear a vida da humanidade, para conseguir a maior justiça, progresso e felicidade para todos.

O "socialismo científico", de Marx e Lenine, vinha na sequência directa do optimismo racionalista, iluminista e positivista, num crescendo de confiança da humanidade na sua força intelectual. E com boas razões, pois a ciência resolveu velhos mistérios da natureza e melhorou maravilhosamente a nossa vida, com a medicina, a indústria, a comunicação, etc. Fiada nesse sucesso, a URSS atirou-se ao esforço supremo e generoso de erradicar os piores males da história, a miséria, a desigualdade, a injustiça. Claro que o realismo forçava a simplificações pragmáticas. Mas o sonho era sublime.

Hoje, sabemos bem o seu triste fim. Mas isso não nos deve cegar à sua beleza e credibilidade. É bom não esquecer que, uma dúzia de anos após a Revolução de Outubro, a Grande Depressão mostrou à evidência as piores previsões dos comunistas acerca do capitalismo. Os males da vida social sem planeamento científico, a confusão, a pobreza e a iniquidade do Ocidente, punham em relevo a sabedoria da sociedade racional e ordenada da URSS. Logo a seguir, a guerra repetia a mesma lição. Foi nas infindáveis estepes da Rússia, mais do que em qualquer outro campo, que Hitler foi derrotado. Em 1945, perante a Europa destruída, o sonho da sociedade científica foi mais forte do que nunca. Quase todos os países do mundo adoptaram, então, métodos de planeamento semelhantes aos soviéticos. A URSS era um caso de sucesso.

O que é que correu mal? Porque é que o sonho de uma sociedade cientificamente planeada falhou, tão fragorosamente? Hoje, dez anos depois, no meio das celebrações da vitória, é bom ouvir um pedaço da sabedoria de um russo: "Há uma verdade simples que só se pode aprender pelo sofrimento: na guerra, não são as vitórias que são uma bênção, mas as derrotas. Os governos precisam de vitórias e os povos precisam de derrotas. As vitórias dão origem ao desejo de mais vitórias. Mas depois de uma derrota é liberdade que os homens desejam e normalmente obtêm-na. Um povo precisa de derrota, tal como um indivíduo precisa de sofrimento e de infortúnio: eles trazem consigo o aprofundamento da vida interior e geram uma elevação espiritual." (Alexander Solzhenitsyn, in The Gulag Archipelago, 1918-1956, Collins/Fontana, 1974, vol.1, p.272.)

Esta "verdade simples" de Solzhenitsyn teve aplicação evidente na Segunda Guerra. Os derrotados, Alemanha, Itália e Japão, conseguiram a liberdade e a prosperidade, enquanto a URSS, a grande vencedora, caiu esmagada pela sua vitória.

A aplicação da ciência, apesar de bem-intencionada, esqueceu a dimensão irredutível da pessoa humana. No meio dos esforços bem-intencionados de melhorar a vida de todos, atropelou-se a identidade e a personalidade dos indivíduos. Foi isso que, acima de tudo, destruiu a URSS.

A mesma ideia se pode aplicar, hoje, à guerra fria. A Rússia, que a perdeu, está em busca da liberdade. O Ocidente, que já vencera a Segunda Guerra, triunfou outra vez, o que o levou a desejar mais vitórias. Os avanços tecnológicos, a globalização, a Internet são as batalhas em que nos lançámos. A nossa vida baseia-se, hoje mais do que nunca, em melhorias nascidas da aplicação da ciência. A abundância promete uma sociedade de delícias para todos. As nossas esperanças são hoje tão elevadas como as dos idealistas da URSS. Mas os perigos são quase palpáveis.

O pior não é o terrorismo ou a crise financeira. Vivemos já bem presente o Gulag dos embriões congelados. O aborto já matou mais inocentes que as purgas estalinistas. Estão à porta a ameaça da clonagem humana e outros horrores. Em todos estes casos, a justificação é a dos "fins terapêuticos" da tecnologia. A ciência pretende apenas melhorar a nossa vida e conseguir a maior justiça, progresso e felicidade para todos. Mas esquece a dignidade da pessoa humana, atropelada na ânsia de mais vitórias científicas. No Ocidente democrático, como na URSS comunista, isso significa desastre.

No meio dos sucessos da globalização e da biotecnologia, o problema actual é precisamente o da falta de "aprofundamento da vida interior" e da ausência de "elevação espiritual". Que se aprendem no sofrimento e no infortúnio.

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