Diário de Notícias - 5 de Dezembro

O bê-á-bá e pouco mais

CADI FERNANDES

Os alunos portugueses de 15 anos têm um desempenho médio modesto em literacia de leitura, matemática e ciências, comparativamente com os seus "pares" da OCDE, revela o estudo internacional PISA (Programme for International Student Assessment).

Comecemos pela literacia de leitura, onde o panorama nacional é preocupante.

Definiram-se cinco níveis: cinco (tarefas sofisticadas de leitura, como compreensão detalhada de textos, inferência das informações relevantes, avaliação crítica); quatro (tarefas difíceis, como localizar informação implícita e avaliar criticamente um texto); três (tarefas de complexidade moderada, como localizar segmentos de informação e estabelecer relações entre as várias partes do texto); dois (tarefas básicas, como localização simples de informação e compreensão do significado de parte bem definida do texto) e um (tarefas menos complexas, como localizar uma única peça de informação e identificar o tema principal do texto).

Ora bem, ora mal, a situação média dos alunos portugueses é, simplesmente, "preocupante", reconhece o Ministério da Educação (ME) perante a eloquência dos resultados. "O valor da média portuguesa situa-se abaixo da média da OCDE e muito distanciada dos países que obtiveram melhores classificações médias."

Onde Portugal se destaca é precisamente no nível 1, o mais baixo (17 % de alunos contra uma média de 12 % no espaço da OCDE). Aliás, a nossa "superioridade" é proporcional à "inferiodade" dos níveis (25 % no dois; 27 % no três, 17 % no quatro e 4 % no cinco, tendo as médias da OCDE sido, respectivamente, de 22 %; 29 %; 22 %; e 9 %).

O panorama é desolador, mas o pior está ainda por dizer. Falamos da percentagem de alunos que não atingiram sequer o nível 1, revelando sérias dificuldades em usar a leitura como um instrumento efectivo para a extensão de conhecimentos e competências noutras áreas. Nesta situação encontram-se 10 % dos alunos portugueses. A média no espaço da OCDE é de 6 %, afirma-se no estudo. Trata-se de alunos que poderão estar em risco não só na transição inicial da educação para o trabalho, mas também na possibilidade de usufruírem de outras aprendizagens ao longo da vida.

Em linhas gerais, os alunos portugueses revelam grandes dificuldades perante textos dramáticos, como um excerto de uma peça de teatro, e textos informativos extensos, que exigem respostas de grande rigor, como a identificação precisa de informações.

De entre todos os 32 países "avaliados" (27 da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Económico mais o Brasil, Letónia, Liechtenstein e Rússia, envolvendo 256 mil estudantes), o melhor classificado é a Finlândia e o pior, o Brasil, Estado que "arrecada" o último lugar nas três valências analisadas - leitura, matemática e ciências.

No conjunto, Portugal fica em 26.º lugar em matéria de leitura. Atrás, só a Rússia, a Letónia, o Luxemburgo, o México e o Brasil. A Espanha está em 18.º lugar.

Atendendo à distribuição regional dos resultados no nosso País, o ME salienta que, "enquanto a região de Lisboa e Vale do Tejo se encontra próxima da média da OCDE, as outras regiões distanciam-se em média de 50 ou mais pontos".

No domínio da leitura, "as raparigas apresentam, em média, melhores resultados do que os rapazes, sendo esta diferença estatisticamente significativa".

Os instrumentos utilizados foram testes de "papel e lápis", com um tempo máximo de resolução de duas horas, caracterizados por respostas de escolha múltipla e outras que requeriam mais elaboração.

Em Portugal, a informação foi recolhida em 2000 em 149 escolas - 138 públicas e 11 privadas -, envolvendo 4604 jovens de 15 anos a frequentar entre o 5.º e o 11.º anos de escolaridade.

Neste primeiro ciclo do estudo foi dada preponderância à avaliação da literacia em leitura. Está prevista para 2003 a realização do segundo ciclo, no qual o enfoque incidirá sobre a literacia matemática. Em 2006, terminará o terceiro ciclo do estudo com uma recolha mais intensiva no domínio das ciências.

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