Expresso - 15 de Dezembro

Competitividade e investimento

«O tempo indica a necessidade de medidas na área da educação, ou seja, do aperfeiçoamento da qualidade humana do país e a melhoria da confiança das instituições. A burocracia na constituição de empresas é um dos exemplos apresentados. O número de dias necessários para a aprovação é de longe o mais elevado em Portugal, com 99 dias, contra os 90 da Alemanha, 83 da Espanha, 53 da Grécia, 25 da Irlanda, 11 do Reino Unido e 7 dos Estados Unidos.»

PORTUGAL não é um dos destinos preferidos do investimento directo estrangeiro (IDE), sobretudo no que se refere a grandes iniciativas. Desde a concretização do projecto Autoeuropa, já lá vão uns anos, que a razão primeira é a falta de competitividade do país. A conclusão não é nova, mas traz uma vez mais à liça a questão das alterações necessárias para dotar Portugal da competitividade necessária para poder aspirar a novos grandes projectos de investimento estrangeiro. O tema foi tratado num livro - Portugal como destino de IDE - Estado da Competitividade da Economia Portuguesa - de António Nogueira Leite e José Ferreira Machado, apresentado esta semana. A palestra teve lugar na Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento (FLAD) e os dois catedráticos da Universidade Nova de Lisboa, que contaram com o apoio da Câmara de Comércio Americana em Portugal, mostram as debilidades do país nos planos político, económico e do capital humano.

Os conferencistas concluíram com duas recomendações: «horizontalidade» e «tempo». A horizontalidade refere-se a uma série de medidas de política, como seja um ambiente macroeconómico previsível e estável, bem como eficácia e transparência da administração pública, sobretudo ao nível dos gastos, pois, segundo os conferencistas autores do livro, «economias com despesas públicas correntes mais elevadas tenderão a ser destinos menos atraentes para a localização das actividades económicas», isto porque tenderão a ter «cargas fiscais mais elevadas». Assim, afirmam que os gastos elevados do Estado acabam por ser os verdadeiros impostos.

O tempo indica a necessidade de medidas na área da educação, ou seja, do aperfeiçoamento da qualidade humana do país e a melhoria da confiança das instituições. A burocracia na constituição de empresas é um dos exemplos apresentados. O número de dias necessários para a aprovação é de longe o mais elevado em Portugal, com 99 dias, contra os 90 da Alemanha, 83 da Espanha, 53 da Grécia, 25 da Irlanda, 11 do Reino Unido e 7 dos Estados Unidos. Quanto à confiança, Portugal é para os investidores internacionais um dos menos conceituados, muito atrás da Irlanda e da Espanha, e até de países como a Argentina, a Nigéria ou o Chile.

A qualidade do capital humano é outro dos problemas reconhecidos em Portugal para atrair investimento directo estrangeiro. A taxa de iliteracia triplica a da Espanha e da Grécia, é quase nove vezes superior à da Irlanda, República Checa e Hungria. A taxa de iliteracia funcional, que abrange aqueles que aprenderam a ler e escrever e depois deixaram de fazer uso dessas faculdades, é também o dobro do da Irlanda, Estados Unidos, Alemanha e República Checa. Quanto aos níveis de escolaridade, Portugal tem muito menos licenciados que Espanha, Irlanda, Grécia, Polónia, Hungria e República Checa. Portugal tem, por isso, falta de engenheiros qualificados em número suficiente.

Uma análise do ponto de vista dos empregadores revela que a ciência é ensinada de forma menos adequada no ensino obrigatório em Portugal que em países como a Espanha, Irlanda, Grécia, Polónia, República Checa e Hungria. O estudo conclui ainda que o sistema educativo português é dos que menos satisfaz as necessidades de uma economia competitiva, superando apenas a Grécia entre os países analisados.

A recuperação deste atraso implica um esforço «sério e persistente» e «demorará décadas», afirmam os dois catedráticos. No entanto, concluem que não existe «falta de investimento na educação, dado que este tem acompanhado a evolução dos países mais avançados». A questão, dizem, põe-se mais ao nível de um demasiado experimentalismo, muitas vezes descoordenado e onde não se premeia o mérito, por isso afirmam que «o retorno desse investimento é que deve ser questionado pois, manifestamente, os resultados não estão a aparecer».

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