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Expresso - 9 de Dezembro
MÁQUINA DA VERDADE
Portugal pela negativa
«Não se percebe como os responsáveis pela educação, no PS e no PSD (que determinaram, sem diferenças visíveis, a educação em Portugal), não sentem a necessidade de uma reforma profunda. De um choque de responsabilidade, autoridade e disciplina. De uma inversão de marcha. É tão triste esta acomodação...»
AQUI HÁ uns tempos, o PS espalhou pelo país um cartaz no qual apelava aos cidadãos para que vissem «Portugal pela positiva». Poderemos tentar fazê-lo, eivados já do espírito natalício, um espírito que, pelo menos do ponto de vista comercial, começa cada vez mais cedo.
Um bom ponto para começarmos será no que respeita ao estudo da OCDE sobre literacia em leitura, matemática e ciências. Analisam-se estudantes com cerca de 15 anos, o futuro dos países, e não os «marretas» já de certa idade, culturalmente, sempre dispostos a dizer mal de tudo. Ora bem, Portugal, entre 32 países (28 dos quais da OCDE), ocupa um estrondoso 26º lugar, sempre abaixo da média, independentemente do critério utilizado. Em leitura, derrotamos surpreendentemente o México; em matemática, voltamos a dar cabo do México e ainda da Grécia e do Luxemburgo; e em ciências esmagamos o Luxemburgo e ainda o México. Resultado, somos melhores do que o México! (Será que o Luxemburgo tem estes resultados devido à enorme comunidade portuguesa?). Isto no que respeita aos países da OCDE, porque, como devemos olhar pela positiva, é bom que se refira que o Brasil, a Letónia e a Rússia também ficam atrás de nós. É pena o estudo não se ter alargado ao Burkina
Faso, à Papua, à Coreia do Norte e a outros países do terceiro mundo para termos oportunidade de reforçar o nosso orgulho. Mas adiante.
O Governo, pela voz do ministro da Educação, disse que já esperava estes resultados. O que quer dizer que o Executivo está consciente - outro motivo de orgulho - e apontou algumas soluções para o caso: reorganização curricular e reformulação de programas. Não é original, mas é o que temos (e o que já tivemos mil vezes). Estamos, no entanto, certos que desta vez é que é. Afinal, convém olhar pela positiva.
Há, no entanto, outra forma de Portugal poder subir nos «rankings». Basta um pouco de imaginação. Por exemplo, pedir à OCDE que inclua nos estudos de literacia, que ocorrerão de três em três anos, outra sorte de variáveis. Como a irresponsabilidade na transmissão de conhecimentos. Não ficaríamos, seguramente, nos últimos lugares. Outra hipótese é entrar em linha de conta com a falta de autoridade dos professores - aí está uma área onde, quase certamente, seremos campeões, tendo em vista os esforços de sucessivos ministros e ministérios nessa área. Também o grau de experiências pedagógicas efectuadas com os nossos filhos seria um bom tema a incluir - nisso, acredita-se, seremos os melhores. Ou o desperdício - uma vez que nós, ricos e mãos-largas, gastamos em educação mais do que muitos países, embora com muito menos resultados. Enfim, é necessária imaginação e audácia.
De outro modo, ser-nos-á impossível olhar este país pela positiva. Teremos, infelizmente, de o olhar de forma oposta e durante alguns bons anos. Porque estes são os indicadores de um futuro pouco brilhante. O que não se percebe é como os responsáveis pela educação, no PS e no PSD (que determinaram, sem diferenças visíveis, a educação em Portugal), não sentem a necessidade de uma reforma profunda. De um choque de responsabilidade, autoridade e disciplina. De uma inversão de marcha. É tão triste esta acomodação...
E-mail: hmonteiro@mail.expresso.pt
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