Expresso - 9 de Dezembro

Um país honesto 

HÁ UM segredo que a corporação vitivinícola não pretende revelar ao país. É que não ainda não foi inventado o modelo económico que demonstre que os alegados 40 milhões de contos do imaginado prejuízo do sector se devem à redução da taxa permitida de alcoolemia no sangue (TAS) para 0,2 gramas de álcool por litro de sangue (g/l), na condução automóvel. Mas, estranhamente, estes números coincidem com a estimativa de ganhos que a redução do custo em vidas humanas possibilitada pela nova lei, segundo os parâmetros aprovados pela União Europeia - de 200 mil contos por vítima mortal da estrada. 

Atendendo a estes valores, a possibilidade de salvar até 200 vidas pela introdução da nova TAS teria como efeito directo um benefício para o país de 40 milhões de contos por ano. Como é então possível que o Parlamento possa ceder de forma tão abjecta aos argumentos falaciosos apresentados pela corporação vitivinícola? As informações disponíveis permitem inferir que a mesquinhez dos interesses eleitorais das máquinas partidárias se sobrepôs claramente ao interesse nacional. Mas tal não explica porque razão, se exceptuarmos as posições públicas de meia dúzia de comentaristas, toda a sociedade portuguesa optou por manter um incomodado silêncio. Esta constatação é tanto mais surpreendente quanto, segundo os únicos dados fiáveis disponíveis (o estudo pan-europeu SARTRE II), uma clara maioria dos condutores portugueses advoga a redução da TAS para valores inferiores a 0,5 g/l.

A Prevenção Rodoviária Portuguesa, o Automóvel Clube de Portugal (ACP), a Ordem dos Médicos, o Serviço Nacional de Bombeiros, a Igreja católica, e uma miríade de entidades que, directa ou indirectamente, têm o dever de se pronunciar em relação ao gravíssimo problema da sinistralidade rodoviária, preferiram não o fazer em relação à polémica da suspensão da TAS de 0,2 g/l. Este silêncio colectivo é tão pesado que um Cândido julgaria que até a comunidade islâmica em Portugal está de acordo com esta suspensão.

NO fundo, todos sabemos - embora não gostemos de o admitir - que se o Parlamento é um espelho do país isso se deve ao facto de os deputados serem portugueses normais, nem mais nem menos honestos que os seus concidadãos. Ora, o que a polémica da suspensão da TAS de 0,2 g/l revela é um muito baixo grau de consciência da sociedade portuguesa em relação ao problema da sinistralidade rodoviária. Isto mesmo é evidenciado no já referido SARTRE II.

É conhecido o adágio que lembra que, mais que os criminosos que nos querem matar, devemos temer os homens honestos que nada fazem para o impedir. A sociedade portuguesa - e o seu Parlamento - revela-se, nesta medida, uma sociedade de homens e mulheres honestos, sem capacidade de intervenção cívica em relação a questões que têm uma óbvia dimensão nacional.

Portugal revela-se assim um país profundamente corrupto, em que as esferas do poder são extensamente dominadas por corporações de interesses particulares. Estas, herdeiras daquelas que medraram durante o Estado Novo, encontraram na frágil democracia actual o terreno ideal para consolidarem uma influência determinante no campo político. Tudo porque não existe em Portugal, além do obsoleto quadro partidário, uma sociedade civil digna desse nome, capaz de intervir e participar de forma construtiva nos processos decisórios.

MANUEL JOÃO RAMOS (Presidente da Associação dos Cidadãos Auto-Mobilizados)

[anterior]