Público - 10 de Dezembro

"Têm 15 Anos e Não Percebem o Que Lêem" 

Não posso deixar de expressar a minha preocupação (para dizer o mínimo) face aos medíocres resultados obtidos pelos nossos alunos, segundo o estudo da OCDE e de que dá conta o PÚBLICO na sua edição de 5 de Dezembro. Não posso, igualmente, deixar de subscrever inteiramente a opinião de José Manuel Fernandes sobre "a nossa tragédia". Infelizmente, é tudo verdade; estamos a caminhar para o abismo, estamos a formar analfabetos camuflados de doutores; pior, estamos a educar ignorantes nas mais diversas áreas, e a única coisa que o sr. ministro da Educação tem a dizer é: "Não há aqui nenhuma surpresa especial..." Não há, de facto, qualquer surpresa especial, sr. ministro; basta entrar numa sala de aulas (como eu e muitos outros professores, diariamente) para saber que assim é. Mas este facto, dramático e preocupante, não pode servir de desculpa e, muito menos, ser utilizado pelo sr. ministro da Educação, como se a situação que vive este país, também no que diz respeito à educação, não fosse grave, alarmante e vergonhosa. 

Para evitar que se pense que tudo se trata de uma tempestade num copo de água, talvez fosse importante afastar momentaneamente os números e as estatísticas (por vezes tão maçadores) e utilizar uma linguagem mais corriqueira (perdoar-me-ão a expressão) para explicar que a maioria dos alunos deixou de compreender o significado de expressões como comentar um resultado ou uma afirmação ("'stora, não percebo a pergunta..."), considerar uma situação ou exercício ("'stora, o que é que é para dizer nesta pergunta?"), ou, simplesmente, distinguir entre dois terços e três meios ("então, pode-se dividir um número mais pequeno por um maior?")! 

Esta é a nossa realidade, que, como todos sabemos, se deve ao cada vez menor grau de exigência e crescente laxismo com que (quase) tudo se faz neste país. E a maioria dos alunos conhece esta realidade e sabe usá-la da melhor maneira, contornando as tarefas escolares e evitando a todo o custo trabalhar e progredir satisfatoriamente nos estudos. A grande questão é: será possível ou credível, até, criticá-los ou condená-los, quando o país em que vivemos não só premeia, como fomenta e cultiva, a política do desenrascanço, do deixar-andar, da mediocridade e do facilitismo? 

M. S. Costa, Cascais

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