que o
individualismo e a permissividade moral aumentaram, os valores tradicionais
da família e da crença em Deus não saíram abalados. São conclusões
de uma extensa recolha de dados que auscultou atitudes em relação a
valores e normas em 32 países europeus.
A liberdade individual aumentou na Europa, o que
se nota pela crescente aceitação de formas
contemporâneas de maternidade e coabitação. Mas a maior permissividade
não retirou terreno à família tradicional (cerca de 80 por cento
consideram-na um aspecto "muito importante da sua vida") e ao casamento.
Para apenas 19 por cento, é uma instituição "fora de moda".
A França (36 por cento), o Luxemburgo (32
por cento) e a Bélgica (30 por cento) têm
as maiores minorias. Ao mesmo tempo, a larga maioria (cerca de 85 por
cento) continua a acreditar que uma criança só cresce feliz se tiver presentes
o pai e a mãe.
Esta análise da "consciência da
Europa" pretendeu indagar das convergências ou
divergências dos europeus no que toca aos valores. Este estudo, que conhece
agora a sua terceira versão (com dados de 1999 e 2000), foi também feito
em 1980 e em 1990.
Uma onda de crescente secularização na Europa
tirou autoridade à Igreja (só 19 por cento
depositam muita confiança nesta instituição). Os coordenadores do
estudo a nível europeu, Loek Halman e Jan Kerkhofs, da universidade holandesa
de Tilbung, dizem mesmo que, a falar-se de uma "crise institucional"
na Europa, só se aplica à Igreja.
Mas não foi a polarização entre crentes e
não crentes que saiu reforçada com a perda
de terreno da Igreja - a maioria dos países registou uma diminuição no
número de agnósticos (a média europeia é de cinco por cento) e o
número dos que dizem não acreditar
conheceu uma ligeira diminuição (dez por cento).
Em suma, não se registou uma diminuição do
número de crentes em Deus (são cerca de 77
por cento). Em alguns países até se registou, comparando este estudo
com o de há uma década, um aumento. Foi o caso de Portugal, onde os valores
ascendem a 79 por cento, assim como a Finlândia, Lituânia e Alemanha.
Assim, assiste-se a uma nova dicotomia: entre os
que aderem a crenças tradicionais
(religiões institucionais) e os que adquiriram modernas crenças,
comentam Halman e Kerkhofs. Por exemplo, a crença numa "fé pessoal",
que se reflecte em algum tipo "de força ou espírito vital",
ganhou terreno em alguns países, como a
Bélgica e a Holanda, e também na Letónia e República
Checa.
A perda de terreno da Igreja teve também
consequências ao nível moral. O que é
certo e errado já não é definido em referência a Deus, mas sim em
relação a convicções pessoais e às
circunstâncias. Apesar da oposição da Igreja, a contracepção,
o aborto, o divórcio, a homossexualidade e a eutanásia são cada
vez mais aceites, o que leva os coordenadores do estudo a crer que um certo
"relativismo moral", associado a um clima mais permissivo, é
neste momento predominante na grande Europa.
De facto, nos dados de 1981, verifica-se que
questões como a eutanásia ou a homossexualidade eram apenas aceitáveis
em países de tradição mais liberal, como a Holanda e a Dinamarca.
O ambiente continua a estar na lista de
preocupações dos europeus, assim como a
necessidade de combater a poluição. Mas uma coisa é falar, outra é agir.
Quando se pergunta se estão dispostos a fazer algum tipo de sacrifício
para que as coisas mudem (pagar impostos
especiais, ter cortes de ordenado), poucos
mantêm a boa vontade - menos do que acontecia no inquérito de há uma década,
referem os investigadores. A excepção continuam a ser os países do Norte,
Holanda, Dinamarca, Suécia e Islândia.
O estigma dos ciganos
Em vésperas de entrada para a moeda única
europeia, o sentimento de pertença à
Europa é partilhado por uma minoria dos inquiridos da União Europeia.
No estudo de há dez anos, identificavam-se
com a Europa 17 por cento, actualmente são
apenas 15 por cento. No todo europeu, apenas três em cada 100
europeus dizem identificar-se com a Europa. O Luxemburgo é a honrosa excepção
(13 em cada 100). Continua a existir uma identificação imediata com o
que está mais próximo: 49 por cento põem a sua cidade em primeiro
lugar, 13 por cento, a província onde
vivem, 28 por cento, o país.
A constante entrada de imigrantes em muitos
países europeus é um teste aos sentimentos
de tolerância. De 1990 para 1999 verifica-se no espaço comunitário
uma redução pouco acentuada do preconceito, de 12 para 11 para cento.
Onde se atingem valores alarmantes de xenofobia é precisamente nos países
que tradicionalmente exportam mão-de-obra. Na Hungria, 62 por cento não
gostariam de ter na vizinhança imigrantes, na Bulgária são 24 por
cento e na Roménia 21 por cento.
O grupo que reúne maior consenso de sentimentos
de intolerância em toda a Europa são os
ciganos. No total dos 32 países em análise, uma média de 40 por
cento não gostariam de ter como vizinhos cidadãos de etnia cigana.