Público - 13 de Dezembro

Europa Individualista Continua a Valorizar Deus e a Família

Por CATARINA GOMES

Ciganos são os maiores alvos de intolerância

Preocupações com o ambiente mantêm-se, mas diminuiu vontade de sacrifícios para o melhorar

O estudo "Valores Europeus", que ontem foi apresentado em Bruxelas, parece um recado aos mensageiros da tão afamada "crise de valores". Se é verdade que o individualismo e a permissividade moral aumentaram, os valores tradicionais da família e da crença em Deus não saíram abalados. São conclusões de uma extensa recolha de dados que auscultou atitudes em relação a valores e normas em 32 países europeus.

A liberdade individual aumentou na Europa, o que se nota pela crescente aceitação de formas contemporâneas de maternidade e coabitação. Mas a maior permissividade não retirou terreno à família tradicional (cerca de 80 por cento consideram-na um aspecto "muito importante da sua vida") e ao casamento. Para apenas 19 por cento, é uma instituição "fora de moda". A França (36 por cento), o Luxemburgo (32 por cento) e a Bélgica (30 por cento) têm as maiores minorias. Ao mesmo tempo, a larga maioria (cerca de 85 por cento) continua a acreditar que uma criança só cresce feliz se tiver presentes o pai e a mãe.

Esta análise da "consciência da Europa" pretendeu indagar das convergências ou divergências dos europeus no que toca aos valores. Este estudo, que conhece agora a sua terceira versão (com dados de 1999 e 2000), foi também feito em 1980 e em 1990.

Uma onda de crescente secularização na Europa tirou autoridade à Igreja (só 19 por cento depositam muita confiança nesta instituição). Os coordenadores do estudo a nível europeu, Loek Halman e Jan Kerkhofs, da universidade holandesa de Tilbung, dizem mesmo que, a falar-se de uma "crise institucional" na Europa, só se aplica à Igreja.

Mas não foi a polarização entre crentes e não crentes que saiu reforçada com a perda de terreno da Igreja - a maioria dos países registou uma diminuição no número de agnósticos (a média europeia é de cinco por cento) e o número dos que dizem não acreditar conheceu uma ligeira diminuição (dez por cento). 

Em suma, não se registou uma diminuição do número de crentes em Deus (são cerca de 77 por cento). Em alguns países até se registou, comparando este estudo com o de há uma década, um aumento. Foi o caso de Portugal, onde os valores ascendem a 79 por cento, assim como a Finlândia, Lituânia e Alemanha.

Assim, assiste-se a uma nova dicotomia: entre os que aderem a crenças tradicionais (religiões institucionais) e os que adquiriram modernas crenças, comentam Halman e Kerkhofs. Por exemplo, a crença numa "fé pessoal", que se reflecte em algum tipo "de força ou espírito vital", ganhou terreno em alguns países, como a Bélgica e a Holanda, e também na Letónia e República Checa.

A perda de terreno da Igreja teve também consequências ao nível moral. O que é certo e errado já não é definido em referência a Deus, mas sim em relação a convicções pessoais e às circunstâncias. Apesar da oposição da Igreja, a contracepção, o aborto, o divórcio, a homossexualidade e a eutanásia são cada vez mais aceites, o que leva os coordenadores do estudo a crer que um certo "relativismo moral", associado a um clima mais permissivo, é neste momento predominante na grande Europa. De facto, nos dados de 1981, verifica-se que questões como a eutanásia ou a homossexualidade eram apenas aceitáveis em países de tradição mais liberal, como a Holanda e a Dinamarca.

O ambiente continua a estar na lista de preocupações dos europeus, assim como a necessidade de combater a poluição. Mas uma coisa é falar, outra é agir. Quando se pergunta se estão dispostos a fazer algum tipo de sacrifício para que as coisas mudem (pagar impostos especiais, ter cortes de ordenado), poucos mantêm a boa vontade - menos do que acontecia no inquérito de há uma década, referem os investigadores. A excepção continuam a ser os países do Norte, Holanda, Dinamarca, Suécia e Islândia.

O estigma dos ciganos

Em vésperas de entrada para a moeda única europeia, o sentimento de pertença à Europa é partilhado por uma minoria dos inquiridos da União Europeia. No estudo de há dez anos, identificavam-se com a Europa 17 por cento, actualmente são apenas 15 por cento. No todo europeu, apenas três em cada 100 europeus dizem identificar-se com a Europa. O Luxemburgo é a honrosa excepção (13 em cada 100). Continua a existir uma identificação imediata com o que está mais próximo: 49 por cento põem a sua cidade em primeiro lugar, 13 por cento, a província onde vivem, 28 por cento, o país.

A constante entrada de imigrantes em muitos países europeus é um teste aos sentimentos de tolerância. De 1990 para 1999 verifica-se no espaço comunitário uma redução pouco acentuada do preconceito, de 12 para 11 para cento. Onde se atingem valores alarmantes de xenofobia é precisamente nos países que tradicionalmente exportam mão-de-obra. Na Hungria, 62 por cento não gostariam de ter na vizinhança imigrantes, na Bulgária são 24 por cento e na Roménia 21 por cento.

O grupo que reúne maior consenso de sentimentos de intolerância em toda a Europa são os ciganos. No total dos 32 países em análise, uma média de 40 por cento não gostariam de ter como vizinhos cidadãos de etnia cigana. 

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