Público - 15 de Dezembro

Resultados Miseráveis a Milhões de Custo 
Por SANTANA CASTILHO

O PISA - Programme for International Student Assessment - divulgou mais um relatório dos estudos que, sistematicamente, produz sobre as competências adquiridas por estudantes de vários países. Entre os 32 tratados, estamos no nosso lugar cativo: a cauda. 

A imprensa, designadamente este jornal, ocupou-se profusamente da divulgação dos resultados, dissecando ainda o significado dos indicadores e das correlações estabelecidas. Ocorre-me acrescentar algumas reflexões. 

A questão essencial da política educativa, pela qual o Governo é obviamente responsável por interposto ministro da Educação, seria, a propósito da divulgação deste libelo acusatório à sua ineficácia, dizer-nos o que tenciona fazer para ultrapassar o mais hipotecante de todos os atrasos do país: a impreparação da sua juventude. Lamentavelmente, o que vimos respigado pela comunicação social, das declarações do ministro da Educação, foram redundâncias, lamúrias de que estamos saturados e sinais sérios de incapacidade de fazer o que é preciso. 

Dizer que "não há aqui nenhuma surpresa especial, mas a confirmação de informações que já tínhamos e que têm de ser levadas a sério" é redundante e muito pobre para ministro. Qual seria a alternativa? Levar a brincar? 

Retomar o estafado discurso da esquerda inoperante, tentando desculpar-se com "a carga histórica, social, política e educativa" do "país que temos" continua a ser pobre e próprio dos ministros que, para nosso azar, temos tido. Teria antes apreciado a coragem de denunciar a falência dos colegas que o antecederam ou compreendido, no mínimo, o silêncio diplomático da corporação dos "boys". É que 27 anos de tal lamúria são saturantes. 

Mas, definitivamente derrotante e indutor de incapacidade foi assistir à invocação de iniciativas, que ampliarão o desastre, como instrumentos de correcção do mesmo. O ministro da Educação referiu concretamente as reformas curriculares dos ensinos secundário e básico e o "Estudo Acompanhado", por esta última instituído, como contribuições para a inversão da situação. Nada de mais errado. São tão-só as últimas produções de 27 anos de laxismo e de experiências pedagógicas absolutamente tontas. A leitura dos preâmbulos dos decretos-leis que as instituem patenteia a retoma cíclica de velhos problemas como se eles fossem novos e atacados, então, pela primeira vez. É um repegar patético de missões, ignorando o fracasso sucessivo de outras idênticas, anteriormente assumidas com as mesmíssimas parangonas preambulares. 

A Educação em Portugal vive de modas, como a alta costura. Por pano de fundo, a mesma futilidade. Tome-se o ensino da Matemática como exemplo. O ensino baseado no treino repetitivo de processos foi vilipendiado pelas teorias da chamada Matemática Moderna, que endeusou a teoria dos conjuntos e o pensamento abstracto. Mas a preponderância das suas teses foi passageira, dando lugar a uma tendência de regresso ao passado, logo destronada em favor do anglo-saxónico "problem solving". Seguiu-se a abordagem "contextualizante", dominada pela preocupação de utilizar as realidades diárias como veículo pedagógico por excelência. Sem paixões e com senso comum, já o meu velho professor de instrução primária, incapaz de debitar duas linhas de discurso pedagógico sob a égide de qualquer destes modismos, os utilizava a todos para me ensinar a fazer contas. 

O nosso drama é não serem reconhecíveis, nas práticas gestionárias vigentes, nenhuns sinais de orientação para a eficácia. À explosão da procura social da educação e à mudança da filosofia e dos objectivos do sistema, que se sucederam à "revolução dos cravos", não correspondeu qualquer visão estratégica que determinasse processos gestionários eficazes ou, pelo menos, minimamente capazes de responder à nova lógica, como os anteriores respondiam à que então vigorava. Os últimos 27 anos foram de rotundo laxismo. 

A análise previsional não se faz, ou quando se faz não se aplica. As decisões são casuísticas e desprovidas de medidas preparatórias que lhes assegurem o êxito. Como consequência, resulta o estrondoso falhanço de todas as reformas, decididas sem previsão de consequências nem garantia de meios, ridicularizadas pelas discrepâncias patentes entre a grandiloquência dos objectivos e a miséria das realizações. 

A profissionalização da gestão educacional e a sua orientação para a eficácia é o primeiro e o mais determinante problema para obstar a resultados miseráveis a milhões de custo. 

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