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Público - 1 de Dezembro
Peço Desculpa
Peço desculpa por ser um cidadão normal, cumpridor e respeitador das leis e dos costumes. Não sou homossexual, transsexual, bissexual, prostituto ou marginal. Não pratico sexo de risco e (também) por isso não tenhosida. Não fumo charros, não me injecto, e não necessito de frequentar clínicas de recuperação de drogados e dar cabo de mim, da minha família e do mundo que conheço. Ando devagar, sempre de cinto colocado, paro nos semáforos e não acelero no amarelo, nem me atiro sobre quem passa nas passadeiras. Bebo apenas o álcool que posso suportar com absoluta lucidez, não fumo a não ser por brincadeira, não tomo antidepressivos, anabolisantes, euforizantes ou afins. Pago a totalidade dos meus impostos, respeito o princípio da autoridade e a própria, embora me apetecesse torcer o pescoço de alguns agentes da dita, e cumpro as decisões de quem dependo profissionalmente, mas às vezes não me apetecia.
Sou casado, tenho dois filhos e uma família funcional e feliz. Amo os meus pais e sinto que lhes devo quase tudo o que sou. E tento aceitar os outros como são, embora, por vezes isso seja difícil, doloroso e penoso.
Não pratico crimes de qualquer natureza, e muito menos de colarinho branco. Nunca passei facturas falsas nem nunca utilizei o dinheiro de outros em meu proveito. Não me meto em, nem armo, confusões ou desacatos em público ou em privado, sou conciliador e acredito nas virtudes da
Razão.
Nunca fiz uma viagem-fantasma, e, as poucas que fiz, paguei-as do meu bolso. Exerço sempre o meu dever cívico de votar e finjo acreditar que isso mudará algo. Nunca participei num desses concursos imbecis de televisão, nem vegetei na "casa mais conhecida do país".
Nem sempre tenho razão e engano-me muitas vezes... E tento ler (muito), embora seja selectivo nas leituras que faço. E quero valorizar-me e aprender um pouco mais e melhor que o que me ensina a insuportável indigência intelectual e moral que se vê, que se sente e que se respira todos os dias e por todo o lado.
Sinto-me quase sozinho, mas sei que o não estou. Entretanto, peço desculpa pelo que sou.
Armando Sousa e Silva, Espinho
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