Público - 30 de Dezembro

 Meninos Procuram uma família

Oeiras
Há mais de quatro anos que a Casa do Parque recolhe dezenas de crianças em risco

Catarina Serra Lopes, Vera, Carla e Tiago (nomes fictícios) são alguns dos dez meninos que, desde há algum tempo, vivem na Casa do Parque, um centro de acolhimento para menores em risco na Outurela, concelho de Oeiras, que foi criado em 1997. Apesar do ar traquinas e do olhar vivo que desmente tristezas, são algumas das muitas crianças com um passado repleto de maus tratos, abusos sexuais, famílias toxicodependentes, alcoólicas ou com graves problemas mentais. Retiradas da família biológica por ordem judicial, passam agora os seus dias numa casa onde tudo se faz para que se assemelhe a um lar, à espera do que o futuro lhes tem reservado.

Para já, o presente destes meninos, com idades entre os 0 e os 12 anos, é vivido numa casa térrea, cercada por um jardim e com uma horta ao fundo, ali para os lados de Carnaxide. Dezenas de brinquedos, edredons garridos, desenhos colados nas paredes, cadeiras e mesas pequeninas, beliches e berços. Quatro berços, pacotes de fraldas, biberons, rocas e peluches, porque também há quem fique sozinho mal nasça. É o caso de Rui, um bebé com pouco mais de um ano, acolhido ao terceiro dia de vida pela Casa do Parque, por alegada incapacidade mental dos pais. Doze meses depois, Rui é uma das muitas crianças que continua à espera que os tribunais concluam o longo processo de escolher uma das várias famílias que durante anos esperam ter alguém a quem chamar filho. Até lá, vai ficar no quarto dos Bebés, mesmo ao lado do quarto dos Índios e do quarto dos Putos, refúgio do Carlos, do Helder, do Pedro e de outros rapazotes com idades entre os três e os 12 anos.

Sofia Trigo, directora da casa, conta histórias de meninos que, quando chegam ao centro, "não falam, não sorriem, mas comem, comem muito, tudo de uma vez, com medo de não voltarem a ter comida." Com olhares assustados, "vitimas de uma profunda negligência e de um total abandono." Muitos nem têm boletim de vacinas e escola é uma palavra distante da qual não sabem muito bem o significado. Depois "começam a adaptar-se ao espaço e à nova família" - educadoras, auxiliares, cozinheiras e todas as outras crianças. "Passado algum tempo, são já meninos perfeitamente normais, que riem, brincam, vão à escola e têm bom aproveitamento", afirma Sofia Trigo.

Apesar do período estipulado para a permanência num centro de acolhimento ser de seis meses, muitas destas crianças acabam por ficar na Casa do Parque durante mais de três anos, à espera que as famílias biológicas tenham condições para as vir buscar, ou que a adopção se concretize. Caso contrário, seguirão para internatos, onde poderão permanecer até serem independentes.

Nesta época de festas, Rui, Helder, Vera, Carla e todos os outros foram colocados em casas de famílias de apoio que os recebem periodicamente, durante fins-de-semana e férias. Depois vai ser o regresso à Casa do Parque, à escola, ao jardim e à horta. À espera de um futuro.

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