| Público - 4 de Dezembro
O Aumento da Delinquência Juvenil
Por GRAÇA FRANCO
Uma justiça que manda duas semanas para a
prisão de Custóias um jovem de dezassete anos porque este não tem
quinze contos para pagar a multa por falta de licença de pesca e manda
para casa - com um simples puxão de orelhas
do tribunal... dado aliás com a maior discrição - um grupo de
adolescentes de quinze anos, depois de provado que violaram, em grupo,
uma colega da mesma idade, legitima não só o chamado "direito à
indignação" como justifica a desobediência do PÚBLICO à ordem
do Tribunal de Famalicão de manter em segredo o teor desta segunda
sentença.
Isto não significa, no entanto, que fosse
necessariamente melhor uma justiça que mandasse "encarcerar"
os cinco violadores, condenando-os, com grande probabilidade à
permanência no mundo da marginalidade para toda a vida, e que mandasse
em liberdade com uma vaga admoestação o jovem pescador ilegal, com a
sub-reptícia mensagem de que há leis para cumprir e outras para não
ligar nenhuma. Mensagem aliás que a sociedade já interiorizou em
demasia, "vide" o recente comportamento dos deputados, do
Governo e da própria presidência da República em casos como os da
polémica aprovação da Lei da Programação Militar.
Há-de haver um meio termo para pôr fim ao
disparate, mas ele não pode, nem deve, estar no discurso repressivo
cego.
No caso de Famalicão, contudo, não devemos
limitar-nos ao justificado escândalo em relação à
"injustiça" de uma Justiça que parece ter dois pesos e duas
medidas totalmente desproporcionados (ainda que os tribunais fossem
diferentes e os dois casos em apreciação sejam dificilmente
comparáveis).
Nem devemos ficar pela elaboração de processos
de intenção (que correm o risco de ser também injustos em relação
às motivações da juíza em causa), apressando-nos a concluir que a
justiça de mão pesada "só funciona para pobres que não podem
pagar multas de quinze contos" e "a justiça de mão
leve" se fica a dever ao simples facto de a vítima ser uma menor
em risco, já vítima de maus tratos e pobre, e os agressores serem
"meninos da classe média que podem pagar bem as respectivas
defesas". Convém sobretudo que nos perguntemos sobre a raiz destes
crimes e da crescente espiral de violência da delinquência juvenil.
Se não cuidarmos já das causas destes
fenómenos, vamos acabar a mudar de passeio quando avistamos um grupo de
crianças, ou vamos simplesmente enveredar, como já acontece no Brasil,
pelo sistema de viver rodeados de grades e
arame farpado na ilusão de estarmos protegidos dos nossos próprios
filhos.
E como a génese do problema nem sequer é dupla
- é pelo menos quádrupla, pobreza, exclusão e abandono dos jovens e
ausência de referências -, é bom que repensemos desde já se
pretendemos continuar a fomentar uma sociedade onde se recusa todos os
valores e aceita como único dogma o "relativismo casuístico e
politicamente correcto", capaz de tudo considerar como bom ou mau,
justificando-o com as convicções mais íntimas da consciência
individual ou as circunstâncias específicas de cada indivíduo. Uma
sociedade onde se admite como único Deus "o prazer imediato"
e como único valor de integração e reconhecimento social não o
"ser" mas o "ter".
Isto significa pensar se queremos continuar a
criar cada vez em maior número esses pequenos monstros capazes de
violar, roubar e matar para satisfazer as suas mais elementares
necessidades ou os seus mais elementares caprichos, seja garantir a
subsistência própria ou simplesmente possuir uns ténis de marca,
passar uma noite na discoteca ou conseguir ter sexo com a mulher
desejada mesmo contra a sua vontade.
Embora em Portugal a descoberta do fenómeno dos
"gangs" juvenis seja um fenómeno relativamente recente - na
sucessão de acontecimentos do último Verão - e as violações
colectivas não pareçam estar ainda na ordem do dia com
a violência com que se fazem sentir aqui na Bélgica, na França ou na
Grã- Bretanha, o facto é que o aumento da delinquência juvenil é um
fenómeno crescentemente preocupante e nem sequer exclusivo da sociedade
europeia.
Em Março, na Florida, um rapaz de 14 anos foi
condenado a prisão perpétua por ter assassinado uma menina de seis
anos enquanto imitava um combate de "catch" e um adolescente
de 15, que matou dois companheiros e feriu outros 13 numa escola de S.
Diego, arriscou, pouco tempo depois, a mesma pena na Califórnia.
Aqui, contudo, o discurso repressivo parece
ganhar cada vez mais peso, com o departamento de Justiça a registar uma
diminuição recorde (menos 56 por cento) entre 95 e 99 no número de
menores presos por homicídio e uma redução nas condenações por
crimes como "violações e agressões" de 36 por cento.
Na mesma linha, na Grã-Bretanha, a idade de
responsabilidade penal passou desde 1998 dos 18 para os 10 anos. Na
Alemanha e na França permanece nos 18, mas a maturidade psicológica do
delinquente ou as circunstâncias podem fazê-la descer para 14 ou 13
anos, como no caso francês.
Mesmo assim, os polícias não têm mãos a
medir com a crescente criminalidade dos menores, com taxas de
crescimento da ordem dos dez por cento desde o inicio do ano, ou de 60
por cento nos subúrbios de Paris e em alguns dos bairros mais
desfavorecidos.
Tal como na Bélgica, em França os menores
estão fortemente organizados em "gangs" onde o rito
iniciático de adesão ao grupo passa frequentemente pela participação
em "violações colectivas". Aí pelo menos elas são vistas
como "passaporte de entrada no mundo do crime" e uma espécie
de garantia de permanência nesse mundo, uma vez que o crime é cometido
em grupo e a cumplicidade gerada desta forma é o primeiro elo da cadeia
que garante o não regresso à vida normal.
Mas nem sempre é assim. Os juízes de menores,
de Bruxelas, a braços com a crescente generalização deste tipo de
crimes - muitas vezes cometidos na própria escola -, alertam para o
facto de os adolescentes participantes não terem uma clara ideia da
gravidade dos seus actos, desculpando-se com o comportamento
"provocante da vítima", o seu "passado de permissividade
sexual efectivo ou suposto", etc...
Neste tipo de crimes é sobretudo a ausência de
valores que se faz sentir, alertam os especialistas, o adolescente
sente-se com uma espécie de direito absoluto ao seu prazer imediato e
ao do seu grupo, com total desrespeito pela pessoa da vítima vista
apenas como "um objecto". É esta cultura hedonista e
materialista que nos deve fazer pensar. Como é também a mesma cultura
de base materialista e consumista que acentua a exclusão dos mais
fracos e dos mais pobres (com destaque para as minorias menos
integradas).
Os meninos da rua do Brasil surgiram assim
condenados a uma pobreza e ignorância extremas, sem nada a ganhar e
nada a perder, não hesitaram em conquistar pela força o direito a ter
pelo menos de vez enquanto o que " os outros"
tinham... sempre.
O fenómeno espalhou-se ao mesmo tempo que se
acentuou a dispersão do rendimento em sociedades como a europeia até
aqui muito mais igualitárias. O jovem excluído ou negligenciado passa
rapidamente de vítima a agressor e vê legitimada esta violência no
facto de a sociedade não lhe reconhecer qualquer valor, ou lhe dar a
menor possibilidade de integração até que ele exiba o número
suficiente de sinais exteriores de riqueza (roupas de marca, objectos de
consumo, etc... ) que lhe permita o acesso à "normalidade".
[anterior] |