Público - 5 de Dezembro

Relatório internacional sobre competências

Dez por Cento dos Alunos Portugueses Aos 15 Anos Têm Dificuldades em Perceber o Que Lêem

Por ANDREIA SANCHES

É o maior estudo internacional sobre as competência dos alunos de 15 anos em três domínios: literacia em leitura, matemática e científica. Portugal está no pelotão dos mais fracos, longe das médias da OCDE. E mesmo os estudantes mais competentes são piores do que os melhores da maior parte dos países. Só Lisboa e Vale do Tejo consegue uma "performance" em leitura que compete com a da OCDE.

Metade dos alunos portugueses com 15 anos de idade tem níveis de literacia em leitura muito baixos. No espaço da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE), o país só se sai melhor do que o México e o Luxemburgo, ficando alinhado com o desempenho médio da Alemanha e da Grécia. Na literacia científica, só o México e o Luxemburgo são piores. Em matemática, Portugal, Polónia, Itália, Grécia e Luxemburgo partilham o penúltimo lugar, à frente também do México. Não é surpreendente, mas o investimento que nos últimos anos o Estado tem feito na educação poderia fazer acreditar que melhores "performances" seriam possíveis, tendo em conta o que se passou noutros Estados da OCDE (como a Irlanda) que, há alguns anos, tinham resultados semelhantes aos portugueses.

O mais preocupante é que dez por cento dos jovens em Portugal não conseguem sequer atingir o valor mínimo de literacia em leitura (a média da OCDE é 6 por cento), ficando abaixo do nível 1. Tecnicamente, podem saber ler mas não são capazes de realizar tarefas simples propostas no âmbito do PISA ("Programme for International Student Assessment"), um mega-estudo internacional sobre as competências dos jovens nascidos em 1985. Portugal integra assim - com a Grécia, o Luxemburgo e a Alemanha, por exemplo - um grupo onde uma percentagem preocupante de rapazes e raparigas terá grandes dificuldades de integração no mercado de trabalho ou em qualquer esquema de educação e formação ao longo da vida.

Absolutamente determinante nos resultados parece ser o ano de escolaridade frequentado pelos jovens. É que os desempenhos médios dos alunos de 15 anos portugueses que frequentam o 10º e 11º anos são muito melhores, ao ponto de, nalgumas áreas, chegarem a superar a média correspondente ao espaço da OCDE.

O problema são os outros, os que aos 15 anos frequentam entre o 5º e o 9º ano - uma fatia ainda considerável que vem provar, uma vez mais, que ficar para trás um ou mais anos, no percurso escolar, pode condenar ao insucesso.

No total, 32 países entraram nesta primeira fase do PISA - um estudo que se destaca de outros projectos internacionais sobretudo porque pretende aferir até que ponto é que os jovens conseguem usar os seus conhecimentos e competências para resolver desafios da vida real. De três em três anos, serão recolhidos novos dados. No ano passado, cerca de 265 mil alunos (4600 portugueses) foram chamados a submeter-se ao primeiro "exame" especial que técnicos e representantes dos governos elaboraram e testaram. Desta vez, a literacia em leitura foi o domínio de eleição - dois terços das questões colocadas versavam competências nesta área, pelo que é este o domínio mais rico em análise e cruzamento de variáveis.

Os piores entre os piores

O relatório do PISA faz mais do que listar países a partir das médias dos resultados de cada um - diz a OCDE que essa análise pode servir para aferir a qualidade das escolas e dos sistema educativos, mas não dá o retrato completo das dificuldades ou pontos fortes de cada grupo de estudantes. E é quando se afina a análise que alguns aspectos voltam a acentuar a modéstia dos desempenhos portugueses.

Desde logo, se dividirmos o grupo de alunos portugueses que prestou provas e analisarmos os que tiveram resultados mais fracos nos três domínios de literacia testados, chega-se à conclusão que os piores alunos lusos têm classificações ainda mais baixas do que os piores da OCDE - diferenças na casa dos 30 pontos.

A questão seguinte é, inevitavelmente: e como é que se comportam os alunos portugueses mais "brilhantes", quando comparados com a "nata" do espaço da OCDE? Na verdade, brilham pouco. Os jovens portugueses com maiores níveis de literacia em leitura, ciências ou matemática são, em média, piores do que os colegas com melhor desempenho nos restantes países.

Os especialistas tentaram também perceber se um país que apresenta uma percentagem elevada de alunos com maus resultados está "condenado" a ter poucos jovens com um desempenho próximo da excelência. Para se chegar a uma conclusão: não é sempre assim. Esta não é uma questão de somenos importância: "Atendendo a que uma média elevada na performance dos alunos de 15 anos faz prever a existência de uma força de trabalho altamente qualificada, os países com estes níveis de desempenho terão, a curto prazo, uma vantagem económica e social considerável", como sublinha a OCDE. 

E uma vez mais a análise não favorece o quadro português. Entre 15 e 18 por cento dos alunos da Austrália, Canadá, Finlândia, Nova Zelândia e Reino Unido conseguiram um desempenho máximo. Por outro lado, qualquer um destes países apresenta uma pequena percentagem de jovens com literacia em leituria abaixo de 1. Já a Alemanha, com uma percentagem de alunos no nível 1 ou menos 1 em leitura que ronda os 23 por cento (não muito longe dos 27 por cento portugueses), consegue ter 9 por cento de jovens no nível 5. Em Portugal, são apenas 4 por cento, o mesmo valor apresentado pela Espanha. A OCDE não esconde as desvantagens destes resultados no que diz respeito à competitividade de um país. 

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