Público - 5 de Dezembro

Tarefas de Leitura Que Impliquem Grande Rigor Dificultam a Vida Aos Portugueses

Raparigas mais competentes

Uma pequena história, um diagrama, um formulário - são apenas exemplos de textos que foram apresentados aos alunos de 15 anos na parte do teste do PISA que pretendia aferir os níveis de literacia em leitura. Na espaço da OCDE, seis em cada dez jovens conseguiram situar-se no nível 3 ou mais. Em Portugal, aconteceu apenas com 48 por cento. E mais de um quarto dos alunos situa-se no nível 1 ou menos 1. Mas uma análise dos resultados por item testado revela "nuances" que estas médias globais não desvendam: desde logo, que os alunos portugueses não se dão bem com textos informativos extensos, em que as respostas exigem grande precisão. Esta é uma das tarefas onde os lusos se afastam ainda mais dos valores médios da OCDE.

Em compensação, obtêm globalmente um maior sucesso relativo quando o texto proposto é uma narrativa e se lhes pede que interpretem e reflictam sobre o conteúdo, "o que apela para conhecimentos prévios do sujeito". Em poucas palavras: o que implica uso de maior rigor penaliza os portugueses - mas também os gregos, os mexicanos e os espanhóis; se os textos forem dramáticos (por exemplo, um excerto de uma peça de teatro), também será certo que o resultado será pior. O relatório português, elaborado pelo Gabinete de Avaliação Educacional (Gave), não aprofunda muito as razões desta situação, mas tudo indica que está ligada às práticas de leitura dos alunos e de ensino de leitura nas escolas portuguesas.

Outro dado curioso é o facto de Portugal ser um dos países onde a diferença entre o desempenho das raparigas e dos rapazes é evidente. Elas são leitoras mais competentes do que eles, conseguindo em média mais 25 pontos nos itens de leitura. Na OCDE, a diferença média ronda os 32 pontos. E em todos os países analisados a percentagem de rapazes que se situam no nível 1 ou menos 1 na escala de literacia em leitura é sempre superior à das raparigas. O facto de as raparigas lerem por prazer com bastante mais frequência do que os rapazes pode ser uma das causas para que assim seja. 

O que distingue os competentes?

A relação entre os resultados no PISA no domínio da leitura e o perfil pessoal do alunos é também bastante evidente. Em Portugal, os estudantes que foram testados fizeram um teste de rapidez de leitura. Para além disso, e tal como os seus colegas de outros países, tiveram de preencher um questionário onde se lhes pedia que explicitassem as suas estratégias de estudo. Estão motivados? São perseverantes? Recorrem muito à memória? Definem o que devem estudar antes de começar? - são apenas exemplos de perguntas para as quais a OCDE queria respostas.

Os alunos com um nível de literacia igual ou superior a 4 distinguem-se por várias coisas: lêem mais rapidamente, têm um sentimento de pertença à escola, interessam-se pela leitura, têm uma boa imagem académica de si próprios, têm algumas estratégias de estudo. Esforço e perseverança são assinalados por estes jovens como essenciais para o desempenho escolar. Já a memorização é mais utilizada pelos alunos com piores desempenhos.

Posto isto, "é fundamental que a escola proporcione aos estudantes a tomada de consciência da existência de diferentes estratégias de estudo e aprendizagem", alerta o Gave. É igualmente "importante que os alunos se sintam na escola como fazendo parte integrante da instituição e que reconheçam a necessidade do esforço e da perseverança para serem bem sucedidos". É que, pelos menos aparentemente, isso faz muita diferença. 

Curiosamente, as notas que os professores de português deram aos alunos testados no âmbito do PISA têm pouco a ver com os resultados que estes vieram a obter nos testes de literacia. O Gave conclui que isso quer dizer que "o que é apreciado na avaliação que se faz nas nossas escolas tem pouco a ver com as competências implicadas" no PISA.

A.S.

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