Público - 5 de Dezembro
Campanha de Choque na TV para Prevenir
Sinistralidade
Por RICARDO DIAS FELNER
A partir de amanhã
Protagonistas dos filmes para televisão são
paraplégicos e tetraplégicos vítimas
de acidentes de automóvel
É o terceiro botão a contar de cima da camisa.
Os dedos indicadores de Hélder tentam
dominá-lo, inexplicavelmente hirtos, como se fossem dois paus a
agarrar um grão de arroz. É uma luta serena, num quarto sereno -
antigo -, forrado com papel de parede. A
cabeça contorce-se em esforço, os olhos, meigos,
interpelam fugazmente o telespectador. Juntam-se os polegares, os gestos
tornam-se mais bruscos - as falanges, descoordenadas, procuram abrir a
ranhura do tecido. Há, finalmente, um sorriso que anuncia a vitória, tarefa
prosaica de abotoar. A voz "off" remata: "A próxima vez
que conduzir depressa, lembre-se de Hélder".
Seguiram-se mais dois vídeos, em situações
semelhantes, o mesmo ambiente de quarto
familiar, a mesma angústia, outras vítimas: Henrique, em cima da cama do
quarto, a tentar descalçar o sapato; Teresa procurando abrir um
envelope com uma faca. Dois minutos de
duração para cada um, com as vítimas em primeiro
plano, sem artifícios - sem outros truques a não ser a canção triste
de Aimee Mann, soando baixinho.
No final, entre a assistência, ouviu-se um
suspiro colectivo, amargurado - aliviado.
Era o primeiro sinal do choque que os três filmes publicitários - inseridos
na campanha para a Prevenção Rodoviária Portuguesa que amanhã vai para
o ar - deverão causar nas audiências a partir de quinta-feira.
Realismo "soft"?
Entre os convidados para a sessão de
apresentação, que ontem teve lugar no Museu
do Automóvel, em Lisboa, ninguém tinha dúvidas em afirmar que o
estilo da comunicação para 2002 significa
uma ruptura de estilo. "As alegorias e as metáforas
já não servem para este tipo de campanha", disse o presidente da PRP,
Luís Caeiros.
O secretário de Estado da Administração
Interna, Rui Pereira, fez um discurso
emocionado, no final. "Esta campanha não é uma campanha de cosmética",
salientou, virando-se depois para os intérpretes dos filmes da vida
real, que se encontravam entre a assistência: "Eu sei que o mais
fácil é tentar esquecer. Mas eu percebi,
pelo que vi, que sois pessoas com fibra moral.
Espero que o vosso sacrifício pessoal de intimidade sirva de exemplo para
os outros automobilistas", concluiu.
O presidente da Associação de Cidadãos
Auto-Mobilizados, Manuel João Ramos, considerou
também a campanha "positiva", lamentando, contudo, "que
não tivesse surgido há dez anos".
João Ramos elogiou o realismo dos filmes, mas apelidou-os,
ainda assim, de "soft", face ao contexto português, e de não
terem uma componente didáctica. "Não
nos diz o que fazer para que isto não aconteça.
Esquece-se de lembrar que há um infractor, que muitas vezes é um criminoso",
criticou.
Os "actores" foram encontrados no
Centro de Reabilitação de Alcoitão, onde são
recuperadas vítimas de acidentes rodoviários. Filipa Robalo, da BBDO,
a empresa de publicidade responsável pela
produção e realização, elogiou o seu empenho
desde o início. "Estavam sempre bem dispostos e não se importavam
de repetir." O momento "mais
difícil" - acrescentou - foi "quando viram pela primeira
vez o resultado".
A campanha na rádio começa na próxima semana
e constará sobretudo de relatos orais de
acidentes. Os "outdoors", com a imagem das vítimas nas
cadeiras de rodas e a frase "É só
para lembrar", só começarão no entanto a aparecer no dia
18 de Dezembro (depois das eleições autárquicas...). Ao todo, serão ainda
realizados mais nove filmes do género daqueles que foram ontem apresentados.