Público - 7 de Dezembro

Portugueses São Os Europeus Menos Informados Sobre Ciência

Por CLARA BARATA

Dados do Eurobarómetro

Dois terços dos europeus sentem-se mal informados sobre os progressos científicos, mas poucos procuram informar-se Ciência? Não sei, não estou informado/a. Essa é a atitude que caracteriza os portugueses, de acordo com o último Eurobarómetro sobre a atitude dos cidadãos da União Europeia face à ciência e à tecnologia. Dois terços dos cidadãos dos Quinze sentem-se mal informados, mas Portugal é o país onde maior percentagem da população (73,2 por cento) se confessa mal informada sobre as matérias científicas. Mas não é por sentirem falta de conhecimento que os portugueses o procuram: Portugal é também o país onde os cidadãos menos lêem artigos sobre temas de ciência e tecnologia.

O inquérito revela que 45 por cento dos habitantes dos Quinze não têm informação sobre ciência, mas também não estão interessados em tê-la. Mas, no geral, a ciência conserva prestígio, mas os cidadãos olham para os cientistas e a sua produção com sentimentos cada vez mais ambivalentes. 

Quando convidados a comentar a frase "os cientistas são responsáveis pelos maus usos que outros possam fazer das suas descobertas", o resultado foi um empate técnico: 42,8 por cento concordaram e 42,3 por cento discordaram.

De facto, um dos dados mais salientes deste Eurobarómetro é o desejo de que a ciência seja controlada: 80,3 por cento dos europeus acha que as autoridades devem obrigar formalmente os cientistas a cumprir regras éticas. 

"É impressionante verificar que esta ideia de coacção encontra-se em todo o lado, mesmo nas pessoas que se esperaria que confiassem mais nos cientistas, como as que têm um nível de educação mais elevado", sublinha o relatório final do inquérito.

Por isso talvez não seja de surpreender que afirmações propostas aos inquiridos como "a ciência e a tecnologia vão ajudar a eliminar a pobreza e a fome no mundo" tenham recebido 52 por cento de respostas negativas. A frase "graças ao progresso científico e tecnológico, os recursos naturais da Terra serão inesgotáveis" teve um nível de reprovação ainda mais baixo: 61,3 por cento discordou dela.

No entanto, nem tudo é negro: uma larga maioria de europeus (83,2 por cento) concorda que os cientistas façam investigação básica, destinada a compreender a natureza, sem objectivos estabelecidos à partida, como acontece na investigação aplicada. Mas os europeus também não estão dispostos a deixar apenas que os cientistas satisfaçam a sua curiosidade: 75 por cento quer que a investigação sirva para alguma coisa.

A área em que os europeus estão mais interessados é a medicina: 60,3 por cento cita-a como a área científica mais importante. São sobretudo as mulheres (68,4 por cento) e os idosos, com mais de 55 anos (69,5 por cento) que mais se interessam pelos progressos da medicina. Em Portugal, 66 por cento dos inquiridos escolhem esta como a área mais importante.

Mas a segunda área que mais interessa aos europeus - e na qual se nota uma subida nos últimos anos - é o ambiente. Na Irlanda, o ambiente até já ultrapassou a medicina: 38,6 por cento consideram-no o tema mais importante, enquanto 37,1 escolhem a medicina. "Aparentemente, muitos europeus consideram que salvaguardar o ambiente é uma medida de saúde pública", sublinha o relatório. Em Portugal, no entanto, essa percepção não é ainda tão acentuada: esta é a área de preferência escolhida por 36,6 por cento dos cidadãos. É ainda interessante verificar que, enquanto a medicina é mais realçada pelos cidadãos com menores níveis de educação, o ambiente é a área escolhida pelos que tiveram mais anos de formação (que deixaram a escola só depois dos 20 anos).

As questões da segurança alimentar - os alimentos geneticamente modificados e a doença das vacas loucas, por exemplo - são consideradas muito importantes pela maioria dos europeus. Os cidadãos querem saber o que têm no prato e querem ter o direito a escolher o que comem: 94,6 por cento exigem ter informação sobre os produtos transgénicos. Quanto aos efeitos negativos dos organismos geneticamente modificados sobre o ambiente - uma das áreas mais focadas pelos opositores a este tipo de manipulação -, 59,4 por cento dos cidadãos sentem-se convencidos de que estes têm efeitos negativos sobre o ambiente. No entanto, 28,7 por cento sentem-se confusos: dizem não ter opinião sobre o tema.

A maioria dos europeus, no entanto, não procura essa informação. A frequência de museus de ciência, por exemplo, é muito baixa. Menos de uma em cada cinco pessoas visitou uma instituição deste tipo recentemente e 32,6 por cento dizem mesmo que não se interessam por museus.

É através da televisão que os habitantes da Europa tentam saber o que se passa: 60,3 por cento refere-a como o principal fonte de informação. Quanto aos jornais e revistas, apenas 37 por cento os referem. Se se perguntar mais especificamente onde obtêm os cidadãos conhecimentos sobre a actualidade científica, essas proporções tornam-se ainda mais marcantes: 60,6 por cento confessam raramente ler artigos sobre ciência, e 66,4 citam a televisão como a principal fonte de informação sobre estes assuntos.

Mas, se os europeus não deitam os olhos às páginas dos jornais e das revistas, uma percentagem significativa (36,5) considera mesmo assim que os "media" apresentam os progressos da ciência e da tecnologia de uma forma demasiado negativa. No entanto, 39,1 por cento não concordam com esta visão.

Ainda assim, 53,3 por cento pensa que os jornalistas que cobrem estas matérias não têm os conhecimentos ou formação necessários para as explicar devidamente ao público. Esta desconfiança é maior entre os que se definem como "bem informados" e "interessados" em ciência.

Usar a Internet é outra forma de obter conhecimentos. Mas são os mais jovens e os mais educados que mostram o maior entusiasmo com a Internet: 53,4 por cento dos que têm entre 15 e 24 anos e 37,8 por cento dos que têm qualificações mais elevadas. Em Portugal, a Internet é bastante apreciada: metade dos portugueses diz-se entusiasmada com este novo meio de comunicação e afirma-se confiante de que vai melhorar a qualidade de vida em geral.

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