científicos, mas poucos procuram
informar-se Ciência? Não sei, não estou informado/a. Essa é a
atitude que caracteriza os portugueses, de acordo com o último
Eurobarómetro sobre a atitude dos cidadãos da União Europeia face à
ciência e à tecnologia. Dois terços dos cidadãos dos Quinze
sentem-se mal informados, mas Portugal é o país onde maior percentagem
da população (73,2 por cento) se confessa mal informada sobre as
matérias científicas. Mas não é por sentirem falta de conhecimento
que os portugueses o procuram: Portugal é também o país onde os
cidadãos menos lêem artigos sobre temas de ciência e tecnologia.
O inquérito revela que 45 por cento dos habitantes dos Quinze não
têm informação sobre ciência, mas também não estão interessados
em tê-la. Mas, no geral, a ciência conserva prestígio, mas os
cidadãos olham para os cientistas e a sua produção com sentimentos
cada vez mais ambivalentes.
Quando convidados a comentar a frase "os cientistas são
responsáveis pelos maus usos que outros possam fazer das suas
descobertas", o resultado foi um empate técnico: 42,8 por cento
concordaram e 42,3 por cento discordaram.
De facto, um dos dados mais salientes deste Eurobarómetro é o
desejo de que a ciência seja controlada: 80,3 por cento dos europeus
acha que as autoridades devem obrigar formalmente os cientistas a
cumprir regras éticas.
"É impressionante verificar que esta ideia de coacção
encontra-se em todo o lado, mesmo nas pessoas que se esperaria que
confiassem mais nos cientistas, como as que têm um nível de educação
mais elevado", sublinha o relatório final do inquérito.
Por isso talvez não seja de surpreender que afirmações propostas
aos inquiridos como "a ciência e a tecnologia vão ajudar a
eliminar a pobreza e a fome no mundo" tenham recebido 52 por cento
de respostas negativas. A frase "graças ao progresso científico e
tecnológico, os recursos naturais da Terra serão inesgotáveis"
teve um nível de reprovação ainda mais baixo: 61,3 por cento
discordou dela.
No entanto, nem tudo é negro: uma larga maioria de europeus (83,2
por cento) concorda que os cientistas façam investigação básica,
destinada a compreender a natureza, sem objectivos estabelecidos à
partida, como acontece na investigação aplicada. Mas os europeus
também não estão dispostos a deixar apenas que os cientistas
satisfaçam a sua curiosidade: 75 por cento quer que a investigação
sirva para alguma coisa.
A área em que os europeus estão mais interessados é a medicina:
60,3 por cento cita-a como a área científica mais importante. São
sobretudo as mulheres (68,4 por cento) e os idosos, com mais de 55 anos
(69,5 por cento) que mais se interessam pelos progressos da medicina. Em
Portugal, 66 por cento dos inquiridos escolhem esta como a área mais
importante.
Mas a segunda área que mais interessa aos europeus - e na qual se
nota uma subida nos últimos anos - é o ambiente. Na Irlanda, o
ambiente até já ultrapassou a medicina: 38,6 por cento consideram-no o
tema mais importante, enquanto 37,1 escolhem a medicina.
"Aparentemente, muitos europeus consideram que salvaguardar o
ambiente é uma medida de saúde pública", sublinha o relatório.
Em Portugal, no entanto, essa percepção não é ainda tão acentuada:
esta é a área de preferência escolhida por 36,6 por cento dos
cidadãos. É ainda interessante verificar que, enquanto a medicina é
mais realçada pelos cidadãos com menores níveis de educação, o
ambiente é a área escolhida pelos que tiveram mais anos de formação
(que deixaram a escola só depois dos 20 anos).
As questões da segurança alimentar - os alimentos geneticamente
modificados e a doença das vacas loucas, por exemplo - são
consideradas muito importantes pela maioria dos europeus. Os cidadãos
querem saber o que têm no prato e querem ter o direito a escolher o que
comem: 94,6 por cento exigem ter informação sobre os produtos
transgénicos. Quanto aos efeitos negativos dos organismos geneticamente
modificados sobre o ambiente - uma das áreas mais focadas pelos
opositores a este tipo de manipulação -, 59,4 por cento dos cidadãos
sentem-se convencidos de que estes têm efeitos negativos sobre o
ambiente. No entanto, 28,7 por cento sentem-se confusos: dizem não ter
opinião sobre o tema.
A maioria dos europeus, no entanto, não procura essa informação. A
frequência de museus de ciência, por exemplo, é muito baixa. Menos de
uma em cada cinco pessoas visitou uma instituição deste tipo
recentemente e 32,6 por cento dizem mesmo que não se interessam por
museus.
É através da televisão que os habitantes da Europa tentam saber o
que se passa: 60,3 por cento refere-a como o principal fonte de
informação. Quanto aos jornais e revistas, apenas 37 por cento os
referem. Se se perguntar mais especificamente onde obtêm os cidadãos
conhecimentos sobre a actualidade científica, essas proporções
tornam-se ainda mais marcantes: 60,6 por cento confessam raramente ler
artigos sobre ciência, e 66,4 citam a televisão como a principal fonte
de informação sobre estes assuntos.
Mas, se os europeus não deitam os olhos às páginas dos jornais e
das revistas, uma percentagem significativa (36,5) considera mesmo assim
que os "media" apresentam os progressos da ciência e da
tecnologia de uma forma demasiado negativa. No entanto, 39,1 por cento
não concordam com esta visão.
Ainda assim, 53,3 por cento pensa que os jornalistas que cobrem estas
matérias não têm os conhecimentos ou formação necessários para as
explicar devidamente ao público. Esta desconfiança é maior entre os
que se definem como "bem informados" e
"interessados" em ciência.
Usar a Internet é outra forma de obter conhecimentos. Mas são os
mais jovens e os mais educados que mostram o maior entusiasmo com a
Internet: 53,4 por cento dos que têm entre 15 e 24 anos e 37,8 por
cento dos que têm qualificações mais elevadas. Em Portugal, a
Internet é bastante apreciada: metade dos portugueses diz-se
entusiasmada com este novo meio de comunicação e afirma-se confiante
de que vai melhorar a qualidade de vida em geral.