Diário de Notícias - 01 Dez 03
A violência da violência
João César das Neves

A violência é uma coisa terrível. Quando se exerce sobre os mais fracos e inocentes é abominável. Mas o pior na violência é que ela gera mais violência, suscita na resposta uma ferocidade que a iguala e assim perpetua. Vivemos agora um fenómeno destes. Foi lançada na semana passada uma campanha contra a violência doméstica. É impossível discordar de tão meritório objectivo. A violência dentro da família é uma das formas mais repelentes e injustas de crueldade. No entanto, a forma violentíssima como a campanha foi concebida levou muitos a duvidar seriamente dos seus resultados. Com fotos de um portão onde se avisava «Cuidado com o marido» ou uma adaptação do voto matrimonial jurando brutalidade, os anúncios mais pareciam violência contra a família que contra os violentos.

A Associação Portuguesa das Famílias Numerosas (APFN, em www.apfn.com.pt), num lúcido e sereno comunicado colocou muito bem a questão. Louvando o propósito da iniciativa, questionou de forma fundamentada a lógica que a suporta. Acima de tudo, apresentando os dados relativos ao problema, o texto mostra que não é nas famílias regulares que a questão se levanta, como a campanha sugere.

Analisando o problema por estado civil dos envolvidos, os piores casos são entre separados (0,73% de incidência), união de facto (0,28%) e divorciados (0,25%); só muito abaixo é que aparecem os casados (0,10%), os viúvos (0,05%) e os solteiros (0,04%). Por outro lado, olhando para o tipo de família-alvo de violência, vemos que a incidência de casos é sobretudo nos de famílias reconstruídas (1,13%) e alargadas (1,03%); depois vêm as monoparentais (0,37%) e só em último lugar as famílias normais, nucleares (0,24%). Assim, como conclui o comunicado, se se quiser este tipo de campanha, os cartazes em vez de dizer «cuidado com o marido», deverão ser do tipo «cuidado com o divorciado», «... com o monoparental», «... com o unido», «... com o reconstruído» ou «... com o alargado».

Há ainda um problema mais grave com estas campanhas. É que as pessoas que agridem os seus familiares de forma grave e recorrente não são, naturalmente, pessoas normais. Por isso não reagem da mesma forma que nós aos anúncios e apelos. Está bem documentado que as referências agressivas ao seu comportamento, sobretudo quando públicas, os incitam a agravar as suas fúrias. Este tipo de iniciativas pode pois servir para consolar a consciência dos activistas ou justificar orçamentos, mas muitas vezes aumenta o sofrimento das vítimas. Não há hoje qualquer dúvida que a melhor forma de minorar o problema da violência familiar é reforçar e apoiar a família. Uma família saudável e equilibrada é não só a melhor garantia para uma vida feliz mas é já, em si mesma, essa mesma vida. A família é como o coração. É vital, não há boas alternativas e deve sempre ser protegida e recuperada porque quem a perde dificilmente reconstrói uma vida normal. Todas as campanhas têm de ter essa certeza bem presente. Portugal tem vivido ultimamente muitas condenações cegas e genéricas.

Por causa dos recentes escândalos foram acusados globalmente muitos sectores e profissões de forma abusiva. Mas ainda não tinha acontecido que uma das maiores classes nacionais, a dos maridos, sofresse uma censura tão grave. Talvez fosse bom que, como país, tomássemos consciência desta nova forma de violência doméstica.

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