A violência é uma coisa terrível. Quando se exerce
sobre os mais fracos e inocentes é abominável. Mas o pior na violência é
que ela gera mais violência, suscita na resposta uma ferocidade que a
iguala e assim perpetua. Vivemos agora um fenómeno destes. Foi lançada
na semana passada uma campanha contra a violência doméstica. É
impossível discordar de tão meritório objectivo. A violência dentro da
família é uma das formas mais repelentes e injustas de crueldade. No
entanto, a forma violentíssima como a campanha foi concebida levou
muitos a duvidar seriamente dos seus resultados. Com fotos de um portão
onde se avisava «Cuidado com o marido» ou uma adaptação do voto
matrimonial jurando brutalidade, os anúncios mais pareciam violência
contra a família que contra os violentos.
A Associação Portuguesa das Famílias Numerosas (APFN, em
www.apfn.com.pt), num lúcido e sereno comunicado colocou muito bem a
questão. Louvando o propósito da iniciativa, questionou de forma
fundamentada a lógica que a suporta. Acima de tudo, apresentando os
dados relativos ao problema, o texto mostra que não é nas famílias
regulares que a questão se levanta, como a campanha sugere.
Analisando o problema por estado civil dos envolvidos, os piores casos
são entre separados (0,73% de incidência), união de facto (0,28%) e
divorciados (0,25%); só muito abaixo é que aparecem os casados (0,10%),
os viúvos (0,05%) e os solteiros (0,04%). Por outro lado, olhando para o
tipo de família-alvo de violência, vemos que a incidência de casos é
sobretudo nos de famílias reconstruídas (1,13%) e alargadas (1,03%);
depois vêm as monoparentais (0,37%) e só em último lugar as famílias
normais, nucleares (0,24%). Assim, como conclui o comunicado, se se
quiser este tipo de campanha, os cartazes em vez de dizer «cuidado com o
marido», deverão ser do tipo «cuidado com o divorciado», «... com o
monoparental», «... com o unido», «... com o reconstruído» ou «... com o
alargado».
Há ainda um problema mais grave com estas campanhas. É que as pessoas
que agridem os seus familiares de forma grave e recorrente não são,
naturalmente, pessoas normais. Por isso não reagem da mesma forma que
nós aos anúncios e apelos. Está bem documentado que as referências
agressivas ao seu comportamento, sobretudo quando públicas, os incitam a
agravar as suas fúrias. Este tipo de iniciativas pode pois servir para
consolar a consciência dos activistas ou justificar orçamentos, mas
muitas vezes aumenta o sofrimento das vítimas. Não há hoje qualquer
dúvida que a melhor forma de minorar o problema da violência familiar é
reforçar e apoiar a família. Uma família saudável e equilibrada é não só
a melhor garantia para uma vida feliz mas é já, em si mesma, essa mesma
vida. A família é como o coração. É vital, não há boas alternativas e
deve sempre ser protegida e recuperada porque quem a perde dificilmente
reconstrói uma vida normal. Todas as campanhas têm de ter essa certeza
bem presente. Portugal tem vivido ultimamente muitas condenações cegas e
genéricas.
Por causa dos recentes escândalos foram acusados globalmente muitos
sectores e profissões de forma abusiva. Mas ainda não tinha acontecido
que uma das maiores classes nacionais, a dos maridos, sofresse uma
censura tão grave. Talvez fosse bom que, como país, tomássemos
consciência desta nova forma de violência doméstica.