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Público - 1 Dez 3
Os Media Ou a Vida
Por FERNANDO ILHARCO
Muito se tem falado da influência dos media, em especial da televisão, na
educação e no desenvolvimento e modelação da criança e dos jovens. Sendo
um aspecto central para o tipo de sociedade que podemos ser, e,
seguramente, do mundo português onde vamos viver, não é menos relevante o
papel dos media, da televisão sobretudo e, muito em especial dos
telejornais, na educação, não apenas das crianças e dos jovens mas também
dos adultos. Por um lado, porque são esses adultos, investindo horas e
horas, todos os dias, em histórias de crime, de voyeurismo, de escândalo e
de vinganças, que inapelavelmente no passar dos dias passam àquelas mesmas
crianças e jovens o quadro conceptual mais fundo do que é o mundo, os
homens, a relevância, os valores e, no limite, quem, cada um deles, para
ele mesmo, é. Quando pais e filhos não estão de acordo sobre quem deve ser
expulso da casa do "big brother", sobre que telenovela ver ou a que
concurso concorrer, tudo o que há de mais essencial foi há muito deixado
para trás. Este aspecto é tanto mais importante quanto mais pertinente se
tornam os ajustamentos da sociedade portuguesa a um contexto cultural do
mundo pós-Guerra Fria em alteração profunda, mas ainda de caminhos em
aberto. É também neste quadro que muito tem vindo a ser estudado no
domínio da educação, ou talvez apenas do ensino, já que a educação parece
mais estar a ser esquecida na sua entrega aos media, em particular à
televisão.
O sistema de ensino é vital, porventura decisivo, mas não é tudo. Sabe-se
que existe uma correlação positiva entre a estrutura educacional, avaliada
pelos graus de ensino, e o nível de desenvolvimento, de prosperidade e de
riqueza de um país, avaliados, por exemplo, por indicadores como o poder
de compra ou o PIB "per capita". No entanto, o que muitas vezes fica por
dizer é que existe também uma forte correlação entre aquela última
variável, o desenvolvimento e a prosperidade de um país, e o tipo de
cultura desse mesmo país. Assim, tomando em consideração, por exemplo, o
estudo de Hofstede levado a cabo nos anos 70 e 80, e voltado a ser
trabalhado nos anos 90, é fácil constatar-se que quanto mais uma cultura
nacional favorecer a iniciativa individual, a responsabilidade de cada um
por si próprio e pelos seus, a coragem pela inovação, pelo risco, a
recompensa pelo mérito, pelo trabalho e pelos resultados obtidos, e quanto
mais fácil, natural e igualitária for a relação entre subordinados e
superiores hierárquicos, quanto mais normal e corrente for o acesso ao
poder e à autoridade, quanto mais uma população assumir a natureza
obviamente semelhante entre governantes e governados, mais elevados são a
riqueza, a prosperidade e o desenvolvimento desse mesmo país. Quer isso
dizer, ou antes sugerir, que o tipo de cultura de um país, por isso, os
valores, os comportamentos, as atitudes e as práticas em curso, determinam
ou pelo menos condicionam activamente o seu nível de prosperidade. Se
assim é, o que de alguma forma nos surge como evidente, é que a escola, o
sistema de ensino, é mais uma consequência da sociedade que somos do que
uma causa do país que podemos ser. Se assim é, então a questão é a de como
se pode intervir na cultura de um país?
Como se muda uma cultura? Lentamente e rapidamente. Aquela, corre sempre,
na chegada ao mundo de novas pessoas, de novas práticas, de inovações que
surpreendem, que chegam e não mais nos abandonam. A última, nas
revoluções, como se sabe. Entre uma e outra está a escola, o sistema de
ensino. A escola, a forma e a substância do que a escola for, ou seja, a
maneira como nós mesmos, como cultura que hoje somos, formos capazes de
pensar, de entender e de mudar quer a escola "tout court", quer, em termos
mais alargados e bem mais ambiciosos, o próprio quadro educativo da
sociedade portuguesa, é em muito e possivelmente essencialmente uma das
mais decisivas e essenciais manifestações estratégicas da cultura
nacional. Neste quadro, deve destacar-se a conferência internacional
"Direitos e Responsabilidade na Sociedade Educativa", levada a cabo a
semana passada na Fundação Gulbenkian, em Lisboa. Pensar a educação, o
ensino, a família, os media, a sociedade civil e o Estado; pensar,
analisar e estudar problemas e caminhos num mundo novo, de novas
possibilidades, desafios e ameaças, e talvez, sobretudo, de novas pessoas,
novos homens e mulheres, todos eles, em si mesmo, genuínos começos e
possibilidade deste mesmo mundo, deste mesmo país e sociedade.
O sistema de ensino, do pré-escolar às pós-graduações universitárias, é um
meio, um instrumento, de nas sociedades contemporâneas modelarmos o tipo
de ser que somos. Mas é o que é. Ou antes não pode ser o que nunca esteve
destinado a ser: o espaço da família, da sociedade civil, da cultura de
uma comunidade em dado espaço e momento no tempo. Numa era em que a
realidade são os media, em que a televisão é o final, é precisamente pelos
e nos media que reside um importante contributo para a modelação dos
valores. Questionou-se na conferência da Gulbenkian: se o ministério é da
educação e não apenas do ensino, porque não tem então sob sua tutela os
media, em particular a televisão? Se os media são o contexto em que somos,
em que novos e velhos, estudantes, profissionais e reformados, estão
imersos, então porque não abordá-los e pensá-los como questões
genuinamente educacionais, culturais?
Neste quadro tem-se falado nestes últimos tempos da obra impar de Hannah
Arendt. No cerne da visão de Arendt, lançada sobre e para o mundo,
distingue-se o labor, a actividade dos homens pelo seu ganha-pão, o ganhar
a vida no dia a dia, para poder dormir, viver em segurança, criar a
sua família, do trabalho, ou seja, a criação de obras, de diferenças
absolutas, as quais uma vez concebidas e lançadas no mundo o transformam
em todos os dias que o futuro nos reserva. O trabalho, a criação, na
essência, a arte é o traço humano da própria humanidade no mundo. E esta é
uma imensa arma, uma enorme força que qualquer sociedade tem sobre os seus
jovens, que dançam horas sem fim, como se viajassem por todo o universo
dentro. Pela arte e pela cultura faz-se uma sociedade.
Laborar é uma coisa, trabalhar é outra. Uma cultura depende do tipo de
trabalhos que for capaz de fazer. O labor permite que por cá continuemos a
andar. O trabalho, cada trabalho, muda o mundo; muda a presença de uma
comunidade no mundo, por isso, as suas esperanças e possibilidades, ou
seja, a sua cultura e assim genuinamente o que ela vai ser, o que
humanamente significa precisamente o que ela já é. O ensino que temos pode
ser um espelho do país que vamos ser, mas a educação que somos, hoje, o
tipo de obras que formos capazes de pensar e de erguer é algo que pode
alterar o ensino de hoje. E nesta quadratura do círculo, entre os media na
vida, a capacidade de pensarmos os media como vida, como cultura, educação
e contexto, faz toda a diferença. Faz a diferença entre o esquecimento e o
seu contrário, o que é precisamente o que a educação é.
fmilharco@hotmail.com
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