Público - 6 Dez 03

Quatro em Cada Cinco Condutores Circulam em Excesso de Velocidade Dentro das Povoações
Por SOFIA RODRIGUES

A grande maioria dos condutores que atravessam povoações circula em excesso de velocidade. O mesmo acontece nas auto-estradas, em que quase metade viajam acima do limite e 15 por cento ultrapassam os 139 quilómetros por hora (km/h). Estas são algumas das conclusões de um estudo levado a cabo pelo Laboratório Nacional de Engenharia Civil (LNEC) sobre velocidades praticadas nas estradas portuguesas, entre 2000 e 2002, ontem apresentado em Lisboa.

Em estradas que passam no meio de povoações, quatro em cada cinco (78 por cento dos condutores) viajam acima do limite (50 km/h), não só durante o dia como de noite, ultrapassando muitas vezes em 20 quilómetros o máximo permitido por lei, o que contribui para uma alta sinistralidade em acidentes com peões.

Segundo o mesmo estudo, quando um carro colhe um peão a mais de 70 quilómetros por hora, os casos fatais atingem os 90 por cento. Mesmo a 65 km/hora, 45 por cento dos atropelamentos resultam na morte de quem seguia a pé.

O estudo, encomendado pela Direcção-Geral de Viação (DGV), mostra também, com dados de 2002, que numa via urbana (como, por exemplo, a Avenida Gago Coutinho, em Lisboa), a maioria (68 por cento) dos condutores ultrapassa o limite de velocidade, fixado em 50 km/h.

Nas auto-estradas, 49 por cento dos carros circulam a mais de 120 km/h, durante o dia, percentagem que sobe para 57 por cento durante a noite. Em 15 por cento dos casos, os condutores andam acima dos 139 km/hora.

O estudo foi feito através da observação de tráfego - em dias úteis e fins-de-semana - de viaturas ligeiras e pesadas, durante o dia e a noite e em pavimento seco e molhado. A observação incidiu em 40 pontos de estrada distribuídos por todo o país. O objectivo era caracterizar as distribuições de velocidades nas principais classes de estradas em Portugal, tendo em conta as condições de tráfego, de luminosidade e atmosféricas.

Mais carros e motos para a Brigada de Trânsito

Ontem, na mesma ocasião em que foi apresentado estudo do LNEC, o secretário de Estado da Administração Interna, Nuno Magalhães, anunciou a entrega de 50 motos de alta cilindrada e 35 outras viaturas à Brigada de Trânsito da GNR, este mês, e de alcoolímetros, bloqueadores e radares digitais, em Janeiro de 2004.

A entrega das motos (atribuição que não acontecia desde 1997) e dos carros - caracterizados e descaracterizados - será realizada no próximo dia 18, em vésperas do início da Operação Natal.

O anúncio do reforço dos meios de fiscalização da GNR foi feito no final de uma sessão de assinatura de protocolos entre a DGV e diversas entidades sem fins lucrativos. O objectivo é conhecer melhor o comportamento do condutor e reforçar acções de prevenção no combate à sinistralidade rodoviária nas estradas portuguesas, uma das mais elevadas na Europa.

"Estamos muito atentos para acabar com o sentimento de impunidade que existe na sociedade portuguesa, não só através da fiscalização como de campanhas de sensibilização", afirmou Nuno Magalhães, lembrando que está em fase de elaboração uma proposta de lei de alteração ao Código da Estrada que será enviada este mês à Assembleia da República.

Uma das parcerias firmadas ontem pela DGV envolve o Instituto Superior Técnico, que foi incumbido de fazer um estudo de protecções ("rails") para "motards" e um sistema informático de reconstituição de acidentes que envolvem motos. "Peões e duas rodas são os que mais contribuem para que Portugal tenha os piores índices de acidentes", lembrou Nuno Magalhães.

Outro dos estudos encomendados pela DGV tem a ver com a análise do relacionamento social em ambiente rodoviário, os tipos e as situações em que se expressa a violência e a agressão através dos automóveis. A pesquisa será levada a cabo, nos próximos dois anos, pela unidade de investigação em Ciências Sociais do Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa (ISCTE).

A DGV, através dos protocolos ontem assinados, apoia ainda campanhas de sensibilização realizadas pela Prevenção Rodoviária Portuguesa e pela Associação Nacional de Empresas de Bebidas Espirituosas (neste caso, a iniciativa "Condutor designado 100 por cento cool") e pela Associação Nacional das Empresas de Comércio e Reparação Automóvel (a acção "Ver e ser visto... segurança é fundamental", também a decorrer).

No ensino da condução, a DGV vai apoiar acções a cargo da Associação Portuguesa de Directores de Escolas de Condução junto de estabelecimentos de ensino básico e secundário.

Para o secretário de Estado, a assinatura dos oito acordos - que incluem ainda acções de formação e assessoria técnica à DGV pelo Instituto Português da Qualidade e pelo Instituto de Soldadura e Qualidade - "é a prova de que o Plano Nacional de Prevenção Rodoviária está em marcha".

Uma das medidas previstas no plano é a melhoria do Boletim Estatístico de Acidentes de Viação, documento em que é registada a informação recolhida pelas forças policiais no local dos sinistros. As alterações feitas ao boletim - que entram em vigor em Janeiro - visam, segundo a DGV, não só simplificar o trabalho das entidades fiscalizadoras como também obter um conhecimento mais imediato das características do acidente.

Esta informação - que é inserida numa base de dados da DGV onde constam 400 mil acidentes - é cruzada com dados das estradas portuguesas, o que tem permitido desenvolver um projecto de localização automatizada de desastres no mapa da rede rodoviária. Através desta ferramenta, é possível conhecer, de uma forma simples, em pormenor a localização e as circunstâncias dos embates com veículos e os atropelamentos em todo o país.

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