Um Certo
Autoritarismo Retórico
Por MÁRIO
PINTO
1. Mais uma vez,
surgiram nos últimos dias com destaque na imprensa declarações
caricaturais e ideológicas do que é direita e esquerda. O grave é que
sobre essas caricaturas se vai formando um pensamento politicamente
correcto, que chega depois a ser arrogante e autoritário - como no caso
do deputado do BE que se indignou, no Parlamento, casa das liberdades,
com os debates que na Universidade Católica tiveram lugar sobre a
teologia do corpo. Tratou-se de um Colóquio para aprofundar as
concepções cristãs em matérias que não se reduzem à sexualidade, mas
também a incluem. E pelo facto de essas ideias serem contrárias às do
Senhor Deputado, embora sejam ideias legítimas, legais, morais e
constitucionais, foram por ele no Parlamento violentamente atacadas e
caluniadas de fundamentalismo e direitismo. O episódio foi de enorme
gravidade, porque teve tons intimidatórios.
Certos políticos de esquerda gostam de se apresentar
sempre como tal, implicitando que ser de esquerda é ser bom. E gostam de
atacar os adversários chamando-lhes de direita, implicitando que ser de
direita é ser mau. Ora, esta classificação assim linear e bipolarizada
das posições políticas é um esquema primário e meramente retórico nas
artes políticas. Com efeito, toda a gente sabe, e em especial os
estudantes de ciência política (a menos que se fiquem por um estudo
ideológico) que as várias posições políticas se situam não ao longo de
uma linha cujos pólos sejam as posições de direita e de esquerda, mas
sim num espaço de dois eixos rectangulares, que permite medir as duas
essenciais coordenadas de cada ponto ou posição política.
Um dos eixos é o que tem por pólos: de um lado, o
totalitarismo (ou, se se quiser, a ditadura ou o Estado absoluto); e do
outro lado as liberdades pessoais (ou, se se quiser, o personalismo, ou
o liberalismo, visto que foi o liberalismo que política e historicamente
proclamou primeiro as liberdades individuais contra o estado absoluto).
O outro eixo polariza-se entre as posições extremas
de uns, que mantêm as desigualdades sociais impiedosamente, e outros,
que defendem a justiça social como não podendo ser menos do que o
radical igualitarismo; ou seja, entre o conservadorismo e o progressismo
extremos.
Toda a gente conhece posições de direita que foram
totalitárias e ditatoriais, e outras posições de direita que foram e são
solidamente liberais. Toda a gente sabe que houve posições de esquerda
violentamente totalitárias e que há posições doutrinárias de esquerda
liberal. Pessoalmente compreendo bem que se possam associar posições de
esquerda liberal com o progressismo reformista, mas esse não é o caso
das extremas esquerdas. Estas posições acham que não é possível haver
progresso de justiça social a não ser através do instrumento do poder
político, e por isso estão sempre do lado de tudo que seja centralização
de funções e de poderes no Estado (no qual, diga-se, eles esperam vir a
poder ter influência) e contra a iniciativa privada e a sociedade civil.
O marxismo-leninismo teve o grande mérito de explicar
com toda a clareza e rigor a teorização fundamentante desta acumulação
de ditadura e de igualitarismo (sem classes). Mas os nossos políticos de
extrema esquerda, hoje, não falam nem rigoroso nem claro. Mantêm o
autoritarismo mas preferem a retórica.
Creio poder dizer que os católicos não vão
intimidar-se com a censura às suas crenças e convicções, aliás sólida e
publicamente expostas e justificadas. Hesitações eles podem ter, e até
diferenças entre si, em matérias como por exemplo as relacionados com o
casamento, as relações sexuais e a geração, além de outras. Mas tudo
isso por homenagem à verdade e às suas consciências. Não por temor de
autoritarismos políticos retóricos.
2. Escreveu há dias um outro ilustre representante do
BE, a propósito da questão das propinas, que «para a direita, todos os
bens sociais devem ser mercantilizados...». E que «para a esquerda, pelo
contrário, há bens que têm custo mas não devem ter preço». Ora isto é
uma meia verdade e uma meia mentira.
Não custaria muito aos políticos imtelectuais
estudarem a teoria dos direitos sociais, para ficarem a saber que, de
facto, há quem defenda a inteira estatização da prestação dos «bens
sociais», mas que essa é uma posição extrema colectivista e autoritária,
de modelo soviético. E que as democracias liberais, entre as quais
Portugal se conta, não defendem a estatização de todos os serviços que
satisfazem os direitos sociais. E que nem isso era imaginável numa
economia de mercado.
De entre os direitos sociais que a nossa Constituição
garante, podemos exemplificar os que são indiscutivelmente mais
importantes recordando a célebre canção dos tempos do PREC: pão,
trabalho, saúde, educação... Foi uma boa canção. E é verdade que o
alimento, em primeiro lugar, o trabalho, a saúde e a educação, depois,
são «bens sociais» objecto de direitos sociais. E daí? O primeiro dos
direitos sociais que vem garantido na Constituição é o direito ao
trabalho (art. 58º). Sendo prioritário para os cidadãos, porque é que a
nossa Constituição não diz que «o Estado deverá criar uma rede de
estabelecimentos públicos capazes de dar emprego a toda a população»,
como disse para a educação escolar? E quanto à habitação, que é
igualmente objecto de um direito social prioritário (art. 65º), porque é
que o Estado não diz que é um bem social que «tem custo mas não deve ter
preço» para toda a gente, tal como se defende no artigo a que me refiro
para a educação escolar? E porque é que não se defende que o pão deve
ser gratuito ou tendencialmente gratuito para todos?
Não, não. Estas proclamações pseudo-teóricas sobre a
estatização e a gratuitidade dos bens sociais humilham-nos, porque nos
tomam por tolos ou ignorantes.
Há duas questões bem distintas. Há evidentemente a
questão do papel do Estado Social na garantia e satisfação dos direitos
sociais. Aqui, tanto por princípio democrático como por razões
irremovíveis de ordem prática, o Estado deve respeitar o princípio
doutrinal da subsidiariedade e a ordem social das prioridades. É óbvio
que, a não ser num regime colectivista de tipo soviético, o Estado não
pode, nem deve, ter o monopólio da produção das prestações de serviço
público, nem tem que fornecê-las gratuita e universalmente, mas apenas
graduar a sua intervenção em ordem a garantir os mínimos e a progredir
de acordo com as prioridades das necessidades e as possibilidades da
sociedade civil. Isto não obsta em nada ao papel específico de
financiamento público, porque para isso é que o Estado tem o monopólio
da cobrança dos impostos.
E depois há outra questão, muito diferente, que é o
desígnio do controlo estatal da educação escolar, por razões
ideológicas. É uma questão histórica, e está bem documentada para se
poder esconder atrás de teorizações sobre os bens públicos. Desde há
séculos que múltiplas experiências de autoritarismo de Estado,
conservadoras e progressistas, privilegiaram o controlo político do
sistema escolar como um dos mais poderosos instrumentos de propaganda ou
contrapropaganda cultural ao dispor do poder político - o velho desígnio
do «Estado-educador» - contra a liberdade de educação dos pais e das
instituições da sociedade civil. Basta ler a história da educação.