Público - 10 Dez 03

Portugal Pode Perder 17 por Cento da População
Por ANDREIA SANCHES

Dentro de 300 anos, o mundo terá mais gente e mais idosos. De acordo com um dos cenários ontem traçados pelas Nações Unidas, cerca de nove mil milhões de pessoas habitarão o planeta e a idade média da população será de 48 anos, quase o dobro da actual, que é 26. Mas, apesar do crescimento demográfico global, também há regiões que perdem gente. É o caso da Europa. E de Portugal que, no ano de 2300, poderá ter cerca de 8,3 milhões - menos 17 por cento do que hoje em dia.

Num estudo ontem tornado público, intitulado "População mundial em 2300", as Nações Unidas traçam cinco novos cenários de crescimento. Aquele a que é dado mais destaque é o designado "cenário médio" - que parte do pressuposto de que o valor da fecundidade estabiliza nos cerca de dois filhos por mulher. É a partir dele que os especialistas afirmam que o mundo poderá ter, já em 2050, perto de nove mil milhões de habitantes, cifra que se manterá até ao ano de 2300 - e que representa mais 2,7 mil milhões de pessoas do que as contabilizadas actualmente.

Os países mais populosos continuarão a ser a Índia, a China e os Estados Unidos, lê-se ainda no relatório do Departamento de Assuntos Económicos e Sociais das Nações Unidas. Mas outros assistirão a reduções significativas na sua população.

De acordo com esse cenário em que cada mulher tem, em média, dois filhos, a Europa poderá perder mais de cem milhões de habitantes - passando de 728 para 611 milhões em 2300. O continente representará, se os números se confirmarem, apenas sete por cento da população mundial, contra os 12 por cento que detém actualmente.

No outro extremo está, por exemplo, África, que, estima-se, dentro de 300 anos deterá quase um quarto da população mundial, com 2113 milhões de habitantes (contra os 796 milhões registados em 2000).

Mas se a Europa mantivesse os actuais níveis de fecundidade (1.38 crianças por mulher) a redução da população no Velho Continente seria muitíssimo maior: em 2300 haveria apenas 90 milhões de pessoas. Portugal ficaria reduzido a 582 mil habitantes, segundo as Nações Unidas.

Cem anos de vida em Portugal

Durante a apresentação do relatório, ontem, em Nova Iorque, Joseph Chamie, director da Divisão de População da ONU lembrou, no entanto, que são muitos os países que estão a tomar medidas para aumentar a fecundidade e evitar o envelhecimento. "Os italianos, e outros, estão a oferecer mil euros pelo nascimento de uma criança e, recentemente, um presidente de câmara italiano fez mesmo aumentar o subsídio para 10 mil euros", contou.

As estimativas apontam, ainda assim, para um envelhecimento progressivo da população. Já em 2050, 35 por cento dos europeus terão mais de 60 anos. Dentro de menos de 300 anos, esta será a faixa etária de 40 por cento dos habitantes.

O relatório revela ainda que 17 por cento da população mundial terá mais de 80 anos (actualmente apenas um por cento dos habitantes do planeta têm esta idade). De resto, a esperança de vida aumentará significativamente. Em Portugal, por exemplo, quem nascer nessa altura terá grandes probabilidades de viver cem anos (103 se for rapariga, 99 se for rapaz).

Mas bastam ligeiras alterações nas taxas médias de fecundidade para que este "cenário médio" caia por terra, sublinham os especialistas. Vejam-se os seguintes números: entre 2000 e 2005, estima-se que nasçam 2.69 crianças por mulher; se este valor se mantivesse inalterado nos próximos anos, a população mundial atingiria os 244 mil milhões de habitantes no ano de 2150 e chegaria ao inimaginável número de 134 biliões em 2300 - o que é um sinal claro de "que os níveis de fecundidade que temos hoje em dia não podem manter-se indefinidamente", lê-se no documento.

Contudo, os demógrafos têm vindo a apontar para a tal média de dois filhos por mulher, isto depois de nos últimos anos se ter assistido a uma quebra significativa na natalidade, que fez rever em baixa as estimativas da população. Joseph Chamie lembrou, de resto, que cálculos feitos não há muito tempo apontavam para que o mundo conhecesse, dentro de 200 anos, uma população de 10 a 12 mil milhões. Para Chamie, o facto de as novas estimativas apontarem para menos gente é uma boa notícia.

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