Diário de Notícias da Madeira - 10 Dez 03

Portugal com menos gente a partir de 2010

A população portuguesa crescerá apenas até 2010, para 10.082.000 habitantes, diminuindo a partir daí até 8.302.000 em 2300
A população portuguesa crescerá apenas até 2010, para 10.082.000 habitantes, diminuindo a partir daí até 8.302.000 em 2300, indicam dados ontem divulgados pela ONU.
A estimativa corresponde ao que o departamento de assuntos económicos e sociais das Nações Unidas designa por «cenário médio», baseado na hipótese da taxa de fertilidade ser de duas crianças por mulher, podendo alterar-se com a variação desta.
De acordo com este cenário, Portugal – que tinha 10.106.000 milhões de habitantes em 2000 – terá uma população de apenas 9.027.000 pessoas em 2050, 7.335.000 em 2100 e 7.727.000 em 2200.
Quanto à população mundial, agora com 6,3 mil milhões de pessoas, ela crescerá para 9 mil milhões em 2300.
Contribuirão para esse aumento países como a Índia (mais 355 milhões), Paquistão (mais 216,5 milhões), EUA (mais 208 milhões), Indonésia (mais 64,6 milhões), Filipinas (mais 50 milhões), Egipto (mais 56 milhões), Afeganistão (mais 52 milhões), Brasil (mais 50 milhões), Iraque (mais 40 milhões), Irão (mais 34 milhões), Marrocos (mais 16 milhões) ou Argélia (mais 15 milhões).
Haverá também crescimento demográfico em todos os Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa (PALOP), de acordo com o estudo ontem divulgado.
Tendo como referência o intervalo entre 2000 e 2300, a população angolana subirá de 12,3 milhões para 56,1 milhões (mais 43,7 milhões), a moçambicana de 17,8 milhões para 32.474 (mais 14,6 milhões), a guineense de 1,367 milhões para 6,305 milhões (mais 4,938 milhões), a cabo-verdiana de 436 mil para 807 mil (mais 371 mil) e a são-tomense de 149 mil para 380 mil (mais 231 mil).
Pelo contrário, a população da China, a maior do Mundo com 1,275 mil milhões de habitantes, não crescerá significativamente até 2300 (1,285 mil milhões), depois atingirá um máximo em 2030, com 1,450 mil milhões.
A população diminuirá também em países desenvolvidos como a Rússia, onde descerá ano após ano de 145,6 milhões para 91,6 milhões, o mesmo acontecendo em países da União Europeia como Itália (de 57,5 para 37,8, menos cerca de 20 milhões), e Espanha (de 40,7 para 32,7 milhões, menos 8 milhões).
Seguindo o "cenário médio" deste estudo da Organização das Nações Unidas, em 2300, a população de África representará 24 por cento da população mundial (o dobro dos valores de hoje), enquanto a população da Europa se quedará pelos 7 por cento da população mundial, quando actualmente representa 12 por cento.
Por outro lado, se a taxa de fertilidade for de 1,85 crianças por mulher, a população mundial dentro de três séculos será de menos 2,3 mil milhões, enquanto se a taxa for na ordem dos 2,35, o planeta Terra será habitado por 36,4 mil milhões de pessoas daqui por 297 anos.
No "cenário constante", isto é, se o nível de fertilidade se mantiver nos valores actuais (2,68), a população mundial atingirá os 134 mil milhões de pessoas em 2300, o que, segundo o estudo, «indica claramente que os actuais níveis elevados de fertilidade não podem manter-se indefinidamente».
Apesar dos cenários extremos e da enorme margem de erro, «estas projecções a longo prazo», justificam os autores do estudo, «são necessários aos especialistas do ambiente, aos actores políticos e a todos aqueles que avaliam as implicações a longo prazo das tendências demográficas».
Governo deve criar medidas de apoio efectivo à família: Membro da Delegação Regional da Associação Portuguesa de Famílias Numerosas considera que os números da ONU apontam para uma tragédia cultural
As estatísticas divulgadas pela ONU sobre a demografia mundial merecem, a nível sociológico, «um estudo adequado e profundo». Esta é a opinião de um dos membros da Delegação da Madeira da Associação Portuguesa das Famílias Numerosas.
João Correia não se surpreende com a dureza dos números divulgados, referentes a Portugal, uma vez que os mesmos vão de encontro à mensagem da Associação que converge no sentido de alertar todos para o facto de «o País estar a envelhecer e a perder a sua população». E isto, «socialmente, é uma catástrofe!».
No fundo, o retrato demográfico de Portugal confina-se a esta realidade: «Há muito mais velhos que novos, temos o recurso cada vez mais frequente à mão de obra estrangeira, com outros valores culturais...».
Portanto, salienta João Correia, o envelhecimento da população portuguesa levanta uma série de problemas «que é preciso saber contrariar por parte das entidades que estão a governar, no sentido de fazer rejuvenescer a população». O delegado regional faz ainda questão de sublinhar que «esta não é só uma questão ética nem ideológica , mas da sobrevivência e da identidade de um País. É que a continuar esta tendência demográfica, o País poderá culturalmente eclipsar-se, porque teremos certamente mais gente de nacionalidade estrangeira».
Como combater este cenário? O membro da Delegação Regional da APFN volta a afirmar que este panorama só poderá ser combatido «tomando consciência da real situação em que o País vive e fomentando o apoio à família para que esta possa ter os filhos que deseja. O rejuvenescimento da população não passa pela "importação" de gente, mas pela criação de condições para que os portugueses possam ter mais filhos».
Sendo mais explícito, João Correia considera que o Governo tem um papel preponderante na saída do problema. «Os governos deverão criar as condições necessárias e até mesmo fomentá-las para as pessoas terem os seus filhos. Aqueles que têm muitos filhos devem ser acarinhados, não privilegiados, mas, pelo menos, usufruírem da justiça equitativa em relação aos que têm menos».
Os números da ONU são uma luz vermelha que se volta a acender para motivar a reflexão. De facto, a população está a envelhecer e está a nascer menos 50 mil crianças por ano, o que é alarmante, principalmente para as gerações vindouras».
Valorizar a Família
A mensagem da Associação Portuguesa de Famílias Numerosas tem vindo a passar, apesar das estatísticas. A opinião é de um dos delegados regionais, João Correia, na sequência dos contactos mantidos com diversas «pessoas, todas elas a concordar, na generalidade, com o princípio fundamental de que é preciso, em primeiro lugar, valorizar a família».
Por outro lado, refere ainda João Correia, «há pessoas que têm dúvidas sobre o que são famílias numerosas». De facto, a Associação «não pretende que toda a gente tenha uma família numerosa». O que é urgente fazer «é valorizar e apoiar a família, ou seja, criar condições à família - apoio à mãe, no trabalho, na fiscalidade, nos descontos para o acesso a vários locais - para que facilite ou ou as ajude a criarem os seus filhos».
Portanto, defende um dos delegados regionais, «uma família que tem muitos filhos, que gosta de os ter e que os educa de forma responsável, deverá ser sempre olhada pelo Estado com os devidos apoios porque é um "património" do País».
Menos 30.000 nascimentos na Região em cerca de 20 anos: Em 1985, a média de nascimentos na Madeira era de 5 mil. Passadas duas décadas, as estatísticas não apontam para números muito acima dos três mil
Em 1985, a Região registou cerca de 5.000 nascimentos.
No entanto, passadas cerca de duas décadas, as estatísticas revelam um decréscimo acentuado na demografia regional.
Efectivamente, de acordo com os dados publicados pelo Instituto Nacional de Estatísticas (INE), em 2002, nasceram apenas 3.117 nados-vivos, sendo 1.590 do sexo masculino.
Os números revelam ainda uma diminuição em relação ao ano anterior, que assinalou cerca de 3.160 nascimentos.
Perante estes valores não será de estranhar que, na Região Autónoma da Madeira, nos últimos 18 anos tenham nascido menos cerca de 30.000 crianças
Para 2001, os dados do INE referem, ainda, que o Funchal foi, como é natural, o concelho que mais nascimentos registou – 1.264 – , seguido por Câmara de Lobos, com 616 nascimentos.
Em Santa Cruz nasceram, nesse ano, 438 bebés, em Machico, 287 e na Ribeira Brava, 155.
Calheta e Ponta do Sol andaram muito próximos no que se refere à demografia, com 111 nascimentos no primeiro concelho e 104 no segundo.
Santana, Porto Santo e São Vicente registaram 64, 53 e 50 nascimentos, respectivamente, e, bem ao longe, surge o Porto Moniz, com apenas 18 nascimentos em 2001.
E porque falamos de demografia, convém salientar ainda que o ano 2002 registou 16 fetos mortos.
 
Rosário Martins / Ana Teresa Gouveia

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