Público - 11 Dez 03

Ardis
Por PEDRO STRECHT

"De repente da calma fez-se o vento

Que dos olhos desfez a última chama

E da paixão fez-se o pressentimento

E do momento imóvel fez-se o drama"

( de "Soneto da Separação" de Vinicius de Morais)
O filme "Elephant", do realizador Gus Van Sant, bem pode ser considerado como imprescindível para todos aqueles que trabalham com adolescentes em meio escolar. O filme retrata a tragédia que, há não muito tempo atrás, ocorreu num liceu norte-americano, onde dois alunos entraram armados e dispararam sobre colegas e professores, numa matança indiscriminada que fez história e fechou um ciclo de episódios semelhantes que ocorreram nesse país, nos finais dos anos 90:

- 1 de Outubro de 1997, Pearl; depois de matar a mãe, Luke, de 16 anos, dispara sobre três amigos e fere sete.

- 1 de Dezembro de 1997, West Paducah; Michael, de 14 anos, mata três colegas.

- 24 de Março de 1998, Jonesboro; Mitchell e Andrew disparam na escola. Morrem quatro crianças e um professor. Os rapazes tinham, respectivamente,11 e 13 anos.

- 24 de Abril de 1998, Edinboro; Andrew, um adolescente, mata um dos seus professores.

- 21 de Maio de 1998, Springfield; Kip, de 15 anos, dispara sobre 24 colegas e morrem dois. O acto decorreu logo a seguir a ter morto os seus próprios pais.

E agora, "Elephant". Um filme sobre rapazes delinquentes? Sobre pequenos psicopatas à solta no país tido como o de maior índice de criminalidade e violência infantil e juvenil? Um pretexto para a reflexão do peso da venda livre de armas e do seu efeito potenciador da expressão patológica da agressividade? Um sinal de alerta para a prevenção de tragédias semelhantes em escolas portuguesas, sobretudo as que se inserem nos clássicos bairros problemáticos das grandes cidades ou dos seus subúrbios?

Talvez sim, mas não só. "Elephant", como toda a tragédia que se instala de forma inesperada é um convite à reflexão, um sinal de incómodo que deveria obrigar a parar para pensar, na procura verdadeira da causa das coisas. Num dos seus últimos livros, "Lost Boys: Why our sons turn violent and how we can save them", James Garbarino, famoso pedopsiquiatra norte-americano, analisa as raízes mais profundas destas tragédias, traça o perfil habitual dos seus agentes e propõe soluções. Garbarino tem trabalhos espantosos sobre crianças e adolescentes privados de afecto parental e que cresceram em cenários de guerra, como a Bósnia, Moçambique ou Angola (chefiando missões da Unicef), ou de outros em tudo semelhantes, como os teatros de dia-a-dia nos bairros pobres e problemáticos de Nova Iorque e Chicago, onde a violência doméstica e de rua atinge limites e efeitos comparáveis aos de uma guerra formal. Foi ele que recuperou a expressão, introduzida por Leopold Shengold, de "assassinatos de alma", para descrever o vazio afectivo, a rejeição, a negligência, o medo e a depressividade sempre latentes nos adolescentes que cometem este tipo de acto. E é isso que nos revela este filme, na mais profundidade de cada momento, numa espantosa técnica cinematográfica de bem captar e caracterizar os estados emocionais dos adolescentes, da relação consigo próprios e com os outros no meio escolar.

Ao longo de "Elephant", passa um tempo, um tempo que nunca pode ser o mesmo, que muda em cada instante desde o nascer ao pôr do Sol e às cores de que se impregnam as vidas com essa mudança, um tempo que nos alerta para o facto de que, para quem está a crescer, todos os momentos contam, que todos os minutos são importantes e que, sobretudo quando alguém está mal - e não há maior evidência neste filme do que a revelação deste mal-estar em alguns dos seus participantes -, agir para prevenir é sempre uma corrida contra esse tempo que se escoa em direcção a um destino cada vez mais adverso.

"Elephant" mostra-nos então um espantoso retrato psíquico de rapazes e raparigas à procura; à procura de si próprios, nos seus gostos, nas relações com os pais, na aceitação (ou não) do seu corpo, ou à procura dos outros, dos colegas, dos amigos, das namoradas, de momentos de harmonia que ora existem ora se evaporam, quer seja ao sabor de uma sonata de Beethoven, no afago de um cão, na tristeza perante o que fazer com um pai alcoólico, no prazer das fotografias retratos do desamparo, na excitação de superfície de uma relação desprovida de afecto, na participação activa numa aula sobre orientações sexuais, na solidão destrutiva de consumir horas em jogos de computador particularmente violentos, ou em documentários de televisão sobre a vida e glória de Hitler.

Está tudo lá. E, contudo, numa intensidade de personagens tão forte, em que inevitavelmente reparamos, onde facilmente identificamos retratos tão comuns de quem povoa uma escola, sente-se a falta. A falta, a falha, a ausência. No andar de John pelo corredor, às fobias da rapariga que não consegue estar com o grupo, ao negro Billy que afronta o perigo sem noção dos seus próprios limites, numa aproximação desmedida ao risco, nos dois rapazes que se acariciam debaixo do chuveiro como quem procura o contacto de pele, o calor que nunca tiveram, há sempre qualquer coisa que não está. Ou não chega.

Se calhar, não é à toa que o filme nunca nos mostra adultos. Ou, nos raros momentos em que o faz, é sempre para mostrar a sua ausência ou a sua desadequação afectiva na relação com estes miúdos. Não há uma voz que ouça, um conselho de estímulo, uma mãe que abrace, um professor que incentive, um empregado que repare. Não há nenhum interlocutor para gritos mudos que ecoam tão ensurdecedoramente, como as alucinações no rapaz que não encontra outra expressão possível para o seu sofrimento que não matar. Matar para morrer. Morrer para, eventualmente, poder continuar a viver, longe de todo o sofrimento, do mal-estar, de uma enorme angústia que, com certeza, sentia não ter solução possível. Para que enfim, a sua tormenta fosse evidente aos olhos dos outros, e para que o final trouxesse a paz possível, dantes encontrada no doce, tão docemente triste andamento da sonata "Ao Luar".

Quando Kip Kinkel foi detido depois da tragédia que originou, a única frase capaz de repetir foi: "Matem-me, matem-me." Sabemos bem que quando alguém mata como estes rapazes mataram e como outros o poderão vir a fazer, a parte mais importante do seu funcionamento psíquico já estava morta. De dor, de desamparo, de tristeza. Para isso, resta opor a vida. Criar, reinventá-la todos os dias, nos nossos gestos, nas nossas palavras, nos nossos olhos, acima de tudo, na nossa presença junto dos mais novos. E aí a escola tem um papel essencial. Porque ninguém cresce sozinho. E porque, para desatar os ardis que às vezes embaraçam estas vidas, é preciso saber existir. Os "ardis" dessa "incompreendida figura do amor", como escreveu o poeta José Tolentino Mendonça.

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