Jornal de Notícias - 22 Dez 03

Famílias acolhem crianças de lares

Jovens de instituições de Braga descobrem calor de Natal em família 38 crianças em 34 casais

Pedro Vila-Chã

À inocência, simplicidade e enorme curiosidade junta-se a intuição, como características da infância. Estas constituem o quinto sentido: as asas que tentam desvendar o conhecimento verdadeiro. Para algumas crianças, a descoberta da célula-base da sociedade (a família) pode dar-se já em plena adolescência, mas nunca é tarde. Muito menos para acolher o amor de pais nunca antes sentido, ainda que tenha a duração efémera das férias de Natal.
Em Braga, a Comissão de Protecção de Crianças e Jovens (CPCJ) avançou, este ano, com o projecto Famílias de Afecto e Famílias SOS, esboço precursor que visa romper o atraso endémico que o país ainda patenteia, em questões de acolhimento voluntário. Trinta e oito crianças, de sete instituições de acolhimento de jovens experimentam as sensações de um Natal em família.
A socialização pelo amadurecimento em ambiente real decorre da necessidade de traçar "um projecto para a vida inteira". Até porque algumas destes adolescentes têm, aos 18 anos, a possibilidade de optar pelo rumo de vida e
pretende-se que não caiam em situações marginais. O projecto caracteriza-se pela franca abertura das instituições aderentes, o que rompe com um percurso de clausura. "Queremos que estas famílias constituam porto seguro para os jovens. Que se criem laços fortes, por forma a que as famílias venham sempre que possam visitar os jovens", destaca Fátima Soeiro, responsável pelo projecto e que aponta como principal objectivo "proteger as crianças para sempre". Para avançar neste sentido, os responsáveis fizeram levantamento exaustivo das crianças e das famílias, "para que haja total sintonia". As crianças podem ser adoptadas até aos 14 anos e, "caso seja observada a situação de melhoria de vida dos meninos, em que o afecto se criou, então será ponderado".
Sandra Veloso decidiu "partilhar os momentos familiares com uma menina de 13 anos, a Mariza". O brilho que emanava dos olhos de ambas revelava uma empatia à primeira vista. Amor, por que não dizê-lo. "Para já não posso ter filhos, mas não podemos esquecer que há crianças que precisam de ajuda. Não quero restringir o contacto ao Natal, mas prolongar o afecto por toda a vida", apesar de saber que "a rotura pode acontecer. O que dou hoje supera isso". Mariza tinha a mala feita "há três dias" e exteriorizava: "Estou tão feliz".
Júlia tem 17 anos. A sua vida passou-se na Santa Casa da Misericórdia das Caldas da Rainha, à porta da qual a mãe a abandonou. A idade obrigou-a a rumar ao Instituto Monsenhor Airosa, em Braga, onde Maria Celeste Vaz prepara "o regresso das meninas à vida normal, o seu futuro profissional, no dia em que aqui entram". Por isso "já estava traçado um projecto interno, idêntico ao da CPCJ, envolvendo as famílias dos funcionários e professores", disse.

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