Jornal de Notícias - 22 Dez 03

Mais de três anos à espera de um filho

Casal critica desinformação dos serviços e sente que é tratado com a frieza de um número

Há mais de três anos que engrossam a longa fila de candidatos à adopção e sofrem ao verem a vida de milhares de crianças a perpetuar-se numa instituição. Passaram por várias fases. Até já pensaram em desistir. Resistiu a vontade inabalável de serem pais.

O quarto e o enxoval estão praticamente prontos, embora não saibam se vai ser um menino ou uma menina, um bebé de meses ou uma criança de três ou quatro anos. "Sei que avisam de véspera, quase como se se tratasse de ir buscar uma encomenda. Por isso, estamos preparados. Disseram-nos que era até ao fim do ano, mas já não vai ser", diz Sofia (nome fictício porque foi avisada da possibilidade de retaliações, leia-se ainda mais atrasos, se expusesse o seu caso particular).
Só a primeira fase  - a selecção, feita com base em inquéritos "tão exaustivos quanto absurdos" e entrevistas que vasculham ao pormenor a vida dos candidatos - demorou ano e meio. "A carta de aprovação chegou finalmente no início de 2002. Depois, houve mais uma entrevista para se certificarem que continuávamos interessados. Tornam tudo tão difícil que parece que querem que nós desistamos", continua Sofia. "Entretanto, aumentamos a idade máxima da criança, na esperança de que isso facilitasse o processo", conta Carlos. Sofia acrescenta que se prontificaram a ficar com dois irmãos ou com uma criança que tivesse sido rejeitada por outro casal.
Nada adiantou. E o tempo passa. Por parte dos serviços de adopção, nunca há a iniciativa de prestar qualquer informação. "Somos sempre nós que os contactámos, a perguntar o ponto da situação, e dizem sempre a mesma coisa: não há crianças para entregar.
Tratam-nos com a frieza de um número que só serve para dar mais trabalho ou como se nos estivessem a fazer um grande favor", sublinha Sofia. "Sei de esquemas paralelos nos hospitais de cá. Sei que, na Rússia, por 25 mil euros, até podia escolher um bebé quase por catálogo. Para mim, isso é um absurdo. Aceito a criança que nos entregarem como se nascesse de nós", resume Carlos.

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