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Jornal de Notícias - 22 Dez 03
Vidas em suspenso
Adopção
Morosidade do processo deixa crianças sem família durante anos Nova
legislação, em vigor desde Setembro, ainda sem resultados visíveis
Maria Cláudia Monteiro
Três meses passados desde a entrada em vigor da nova lei da adopção, ainda
nada mudou para as cerca de 16 mil crianças institucionalizadas. Cada vez
mais velhas, vão passando pelos anos à espera de uma família. Um compasso
de espera demasiado lento que desespera também quem, do lado de fora das
instituições, aguarda a entrega das crianças - os quase eternos candidatos
a pais.
João Paulo Meneses, 38 anos, jornalista, sabe que pouco mais pode fazer a
não ser esperar. Está preparado para isso desde o dia em que deu início,
juntamente com a mulher, ao processo de adopção, já lá vão dois anos e
três meses. O aviso foi imediato: até poderem receber a criança em casa
passariam pelo menos quatro anos. "É uma barbaridade de tempo", diz João
Paulo Meneses, para quem a mudança legislativa não implica necessariamente
uma melhoria do sistema. "Podem mudar a lei, mas se não houver mais gente
pouco adianta. O sistema está de tal modo emperrado que não há muito
afazer", desabafa.
Foram aprendendo a lidar com a angústia da incerteza, sempre com a secreta
esperança de ver compensada a imensa vontade de serem pais. "Evitamos
pensar em concreto nas coisas", explica João Paulo. Por isso, o quarto lá
de casa continua vazio e o Natal é pensado estritamente a dois. Para já.
Precisam de se proteger de um sistema que deixa pais e crianças em
suspenso, durante anos. Desnecessariamente, lamentam.
Ficam as mensagens de quem vai desesperando, sem nada poder fazer a não
ser chamar à atenção. Há uns tempos, João Paulo enviou para o centro de
adopção um grilo com um simples bilhete: lembrava que se já tivesse o
filho consigo talvez pudesse ter apanhado o animal na sua companhia. Esta
semana, comprou brinquedos de Natal para os meninos que ainda esperam por
uma família no centro de adopção. "Para lembrar que estamos vivos e que
continuamos interessados", explica.
Paternidade do coração
Luís Villas-Boas, presidente da Comissão de Acompanhamento da Aplicação da
Nova Lei de Adopção, confessa-se optimista quanto ao futuro. "Trata-se de
uma alteração legislativa que implicará outras mudanças, na estrutura e
nos procedimentos do sistema", disse, destacando a importância da futura
base de dados nacional de crianças adoptáveis. "Permitirá que um casal já
avaliado possa ficar com uma criança de qualquer parte do país".
Assegurando não ser este um optimismo natalício, Villa-Boas acredita que a
nova lei pode ser mesmo o início da reforma de todo o sistema de
institucionalização de crianças e jovens. O psicólogo clínico, director do
refúgio Aboim Ascensão, em Faro, fala das instituições que durante anos
funcionaram como simples depósitos de crianças, que, tendencialmente, vão
desaparecer. "Muitas destas estruturas devem ser revocacionadas. A
protecção institucional deve ser tão curta quanto possível e altamente
técnica", disse.
Mas o desejado encurtamento da permanência de crianças e jovens nas
instituições passa por uma maior agilização de variadíssimos
departamentos, nota, ainda Villas-Boas. "É necessária a reformulação de
vários procedimentos. A intervenção deve ser feita no terreno, quanto
antes", precisa.
Outra das virtudes do novo diploma é, segundo o psicólogo, o alargamento
da adopção de crianças para pessoas até aos 60 anos. "Acredito que dentro
dois, três anos exista um considerável grupo de cidadão com mais de 50
anos com vontade de adoptar", considera, insistindo em deixar uma mensagem
de esperança àqueles que considera serem "candidatos à paternidade do
coração".
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